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ARTÍCULO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE / ARTIGO ORIGINAL

 

"Não vale a pena fazer pré-natal": estudo de uma comunidade de baixa renda

 

"Not worth doing prenatal care": an ethnographic study of a low-income community

 

"No vale la pena hacer prenatal": estudio de una comunidad de bajos recursos

 

Patrícia L. F. Santa Rosa1; Luiza A. K. Hoga2; Jéssica Reis-Queiroz3

 

1Enfermera matrona, estudiante de Doctorado. University of São Paulo –USP, Brasil. email: patriciasantarosa@usp.br.

2Enfermera matrona, Doctora. Profesora, USP, Brasil. email: kikatuca@usp.br.

3Matrona, estudiante de Doctorado. USP, Brasil. email: jessicagreis@usp.br.

 

Fecha de Recibido: Junio 16, 2014. Fecha de Aprobado: Abril 30, 2015.

 

Artículo vinculado a investigación: Razões da não realização do acompanhamento pré-natal: estudo etnográfico em uma comunidade de baixa renda

Subvenciones: Ninguna.

Conflicto de intereses: Ninguno.

Cómo citar este artículo: Santa Rosa PLF, Hoga LAK, Reis-Queiroz J. Not worth doing prenatal care": an ethnographic study of a low-income community. Invest Educ Enferm. 2015; 33(2): 288-296.

DOI: 10.17533/udea.iee.v33n2a11

 


RESUMO

Objetivo. Explorar as razões para as mulheres grávidas não procurarem assistência pré-natal. Metodologia. O método etnográfico foi desenvolvido em uma comunidade de baixa renda no Brasil. Entrevistas etnográficas foram desenvolvidas com 11 puérperas que não procuraram assistência pré-natal na última gravidez. Resultados. As razões para a não busca pela assistência pré-natal foram: Percebi a gravidez muito tarde e não deu mais tempo para fazer pré-natal; Não fiz pré-natal porque tive que esconder a gravidez para evitar problemas; Tive que resolver problemas urgentes e não pude fazer pré-natal; O atendimento não é bom e ir ao médico sem estar doente é só para ricos; e "Não vale a pena fazer pré-natal: esta assistência não é essencial e há muitos obstáculos a enfrentar". Conclusão. A importância da facilidade de acesso e da integralidade da assistência pré-natal, desenvolvida por meio de princípios de boa gestão, são os principais aspectos a considerar na promoção da aderência à assistência pré-natal.

Palavras chave: gravidez; cuidado pré-natal; pobreza; antropologia cultural.


ABSTRACT

Objective. The aim of this study was to explore the reasons why pregnant women do not seek prenatal care (PNC). Methodology. The ethnographic method was used in a low-income Brazilian community. Ethnographic interviews were performed with 11 postpartum women who did not seek PNC in their last pregnancy. Results. The cultural sub-themes used to express reasons for not seeking PNC included: "I found out I was pregnant too late and did not have enough time to receive PNC," "I did not receive PNC because I had to hide the pregnancy to avoid problems," "I had to address urgent issues and could not seek PNC," "The services are not good and going to the doctor when not ill is only for rich people," and cultural theme: "PNC is not worth pursuing: it is unnecessary and there are too many obstacles to receiving it." Conclusion. The main strategies that should be considered to increase adherence to PNC are better access and integrality through the use of adequate management criteria.

Key words: pregnancy; prenatal care; poverty; anthropology, cultural.


RESUMEN

Objetivo. Explorar las razones por que las mujeres gestantes no buscaron asistencia prenatal. Metodología. Se empleó el método etnográfico en una comunidad de bajos recursos en el Brasil. Se realizaron entrevistas etnográficas a 11 puérperas que no buscaron asistencia prenatal en la última gravidez. Resultados. Las razones para no buscar la atención prenatal fueron: me di cuenta del embarazo muy tarde y no dio tempo de hacer prenatal; no hice prenatal porque tuve que esconder el embarazo para evitar problemas; tuve que resolver problemas urgentes y no pude hacer prenatal; el servicio no es bueno e ir al médico sin estar enfermo es sólo para los ricos; y: "no vale la pena hacer prenatal: esta asistencia no es esencial y hay muchos obstáculos que enfrentar". Conclusión. La importancia de la facilidad de acceso y la integridad de la atención prenatal, desarrollada a través de los principios de buena gestión, son los principales aspectos a considerar en la promoción de la adhesión a la atención prenatal.

Palabras clave: gravidez; atención prenatal; pobreza; antropologia cultural.


 

 

INTRODUÇÃO

Instituições representativas das principais categorias profissionais responsáveis pela assistência pré-natal (PN) preconizam o mínimo de quatro consultas, para o seguimento das gestantes saudáveis, e o aumento desta frequência na medida das necessidades clínicas e obstétricas que emergem no decorrer da gravidez.1 Alinhado a esta premissa, o governo federal brasileiro implementou o Programa de Humanização do Parto, Pré-natal e Nascimento (PHPN) para melhorar a cobertura da assistência PN, entre outras finalidades.2 Os motivos para não buscar assistência PN, mencionados, sobretudo, por grupos historicamente desfavorecidos, foram explorados por vários pesquisadores ao redor do mundo. Destacaram-se as dificuldades financeiras;3,4 escassez de serviços; as dificuldades para agendar consultas; as longas distâncias entre a residência e o serviço5; as dificuldades de transporte; a descrença na qualidade da assistência; a ausência de suporte familiar e social para comparecer às consultas; e as crenças e valores culturais,6 como fatores determinantes da não busca pela assistência PN.

Estudos desenvolvidos no contexto latino-americano revelaram que os principais motivos para não buscar assistência PN foram carência socioeconômica, baixa escolaridade, dificuldades relacionadas ao transporte, distância entre a residência e o serviço, inexistência de local apropriado para deixar os demais filhos, e o não planejamento da gravidez.7 A cobertura PN no Brasil aumentou nos últimos anos, como resultante de uma série de esforços do governo e da sociedade civil organizada.8 Setenta e três, vírgula, um por cento das gestantes brasileiras fizeram seis ou mais consultas de PN entre 2011 2012.9 No entanto, mães de mais de 52 mil crianças nascidas em 2010 não chegaram a fazer nenhuma consulta PN.10 Os resultados destes estudos foram derivados predominantemente de pesquisas quantitativas, com pouca profundidade na perspectiva subjetiva das mulheres.

Porém, os motivos que levam as gestantes a decidirem pela não busca da assistência PN devem ser explorados com profundidade, considerando o contexto sociocultural. Levar em conta a perspectiva das próprias pessoas que são alvos da assistência de enfermagem, sobretudo as necessidades que emanam da conjuntura pessoal, familiar e sociocultural, é uma premissa fundamental do cuidado de enfermagem culturalmente congruente.11 Com base nesta justificativa, foi desenvolvida esta pesquisa, que teve o intuito de encontrar respostas ao seguinte questionamento: quais são os motivos que levam as gestantes, moradoras de uma comunidade de baixa renda, a não buscar assistência PN, considerando que esta assistência está disponível gratuitamente e próxima ao local de moradia delas? Este estudo teve o objetivo de explorar os motivos das gestantes para não buscar assistência PN.

 

METODOLOGIA

Abordagem de pesquisa. A pesquisa foi de abordagem qualitativa interpretativa, realizada por meio do método etnográfico, considerado apropriado para explorar as dimensões subjetivas e o contexto sociocultural no qual são desenvolvidas as práticas cotidianas. O processo de observação participante (OP) foi desenvolvido e a inserção na cultura, uma comunidade dos arredores de uma Unidade Básica de Saúde (UBS) do Município de Cotia, Região Metropolitana de São Paulo, Brasil, foi facilitada pelo fato de uma das pesquisadoras trabalhar no único hospital da cidade e conhecer os seus moradores. Este artigo foi produzido a partir de uma pesquisa desenvolvida como requisito para conclusão de curso de especialização em enfermagem obstétrica, da qual participaram as autoras esta publicação.

Local. A comunidade localiza-se em zona urbana, mas possui características predominantemente rurais. O município, que integra o cinturão verde da cidade de São Paulo, apresentou Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0.780 no ano 2010.12 Trata-se de índice considerado elevado, mas que mascara as desigualdades socioeconômicas que prevalecem na região. A comunidade está localizada na área de abrangência das UBS vinculadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), que prestam atendimento gratuito, inclusive o PN. A Estratégia Saúde da Família (ESF), programa do governo federal brasileiro, possui equipe composta por um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e seis agentes comunitários de saúde (ACS), responsável pela assistência às famílias do território, que é demarcado geograficamente.13 No entanto, nem todas as UBS possuíam a ESF.

Coleta de dados. A lista de mulheres que não tinham feito PN foi solicitada à administração das UBS. As informantes deste estudo foram sorteadas, para se garantir a aleatoriedade. Os critérios de inclusão foram ter morado na comunidade durante a última gravidez e residir a uma distância máxima de 3 000 metros da UBS mais próxima. O critério de exclusão foi existência de déficit físico ou cognitivo que impedisse a expressão verbal. A OP foi desenvolvida de modo intermitente, nos dias úteis da semana e nos finais de semana, de agosto de 2010 a março de 2011. Durante este processo, foram reunidas informações coletadas no cotidiano de vida das mulheres residentes nesta localidade. Foram observados os comportamentos, as práticas culturais, as crenças e os valores das moradoras desta comunidade, em relação ao acesso aos serviços de saúde, inclusive a assistência PN. Além das observações feitas nas residências das informantes,11 foi elaborado um diário de campo, no qual foram anotadas as observações feitas e as entrevistas etnográficas realizadas.14

A primeira informante foi uma gestante indicada por uma agente comunitária de saúde vinculada à UBS responsável pela área de abrangência onde está localizada a comunidade sob estudo. Ela foi solicitada a indicar potenciais novas informantes. Esta estratégia de composição dos colaboradores de estudos qualitativos, conhecida como "Snowball Technique" ou "Bola de Neve",15 possibilitou incluir novos informantes até o alcance da redundância de dados, indicativo da exploração profunda do tema sob estudo. As finalidades da pesquisa, a possibilidade de recusar e a necessidade de realizar a gravação da entrevista foram elucidadas às informantes. Antes de se iniciar as entrevistas, elas assinaram o termo de consentimento para participação na pesquisa.

A pergunta feita para iniciar as entrevistas foi: Fale-me como é o seu dia a dia e os motivos que te levaram a não buscar assistência PN. Todas as entrevistas foram realizadas na residência das mulheres, duraram entre 30 e 55 minutos e foram integralmente gravadas em áudio. Dentre as 11 puérperas convidadas a serem informantes da pesquisa, nenhuma se recusou. Duas foram consideradas informantes-chave e, as demais, informantes-gerais e estão em destaque na Tabela 1. O critério para considerá-las como informantes-chave foi o maior tempo de moradia na comunidade e a existência de conhecimento profundo do tema sob estudo e do cenário sociocultural estudado.11

Análise dos dados. Após a transcrição, na íntegra, das entrevistas, foi realizada a análise dos dados, segundo Leininger (2006),11 que propõe a análise interpretativa e a elaboração de subtemas e temas culturais. Os subtemas e o tema cultural foram apresentados para as informantes-chave e validados por elas. As informantes foram identificadas com a letra "E", mediante números sequenciais correspondentes à ordem das entrevistas. A realização da pesquisa foi autorizada por um Comitê de Ética em Pesquisa credenciado e também pelo governo municipal ao qual as UBS estão vinculadas.

 

RESULTADOS

Dados do cenário cultural

Mulheres vestindo roupas sujas de terra foram observadas aguardando atendimento nas UBS e no hospital, inclusive as gestantes. Ao se perguntar as razões deste fato, estas mulheres alegaram que o trabalho "na roça", ou seja, no cultivo de alimentos, principalmente as verduras, acabava sujando as roupas. Na região, existem extensas áreas sem pavimentação asfáltica, água encanada e esgotamento público. Trata-se de uma comunidade caracterizada pela transição entre o rural e o urbano, onde coexistem lavouras, cavalos e vacas com bairros em situação avançada de urbanização. Foi possível constatar que moradores da comunidade estudada sofrem em consequência da distância entre o local onde vivem e os recursos que desejam acessar, pois é no centro da cidade onde estão concentrados os principais serviços, como instituições de saúde e educação, os centros de compras, entre outros. É comum ver pessoas com automóveis com mais de 30 anos de uso e em péssimas condições de conservação. Quando indagadas, sustentavam que possuir um carro, ainda que antigo e precário, representava uma estratégia importante de transporte nas situações de emergência, inclusive as médicas. A distância para se chegar ao centro da cidade, o preço das passagens e a escassez de condução (durante a noite, nos finais de semana e feriados) representam fontes de preocupações para estes cidadãos. As características sociodemográficas das informantes do estudo estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1. Características sociodemográficas das entrevistadas

Tabela 1.

Os subtemas culturais

Percebi a gravidez muito tarde e não deu mais tempo para fazer pré-natal. O convívio com ciclos menstruais irregulares, causados pelo uso indiscriminado de hormônios, contribuiu para retardar a identificação da gravidez, o que dificultou a realização do PN: Descobri que estava grávida com cinco meses, minha menstruação não era regular (E4, E6, E7, E11); Usava pílula por conta própria (E4, E11); Tomava injeção para evitar gravidez e não menstruava. Quando soube da gravidez, já estava avançada (E8). Mesmo desconfiando da gravidez, as mulheres não faziam o exame diagnóstico, pois temiam a confirmação da gestação e a necessidade de enfrentar os problemas dela decorrentes: Não fiz exame para confirmar a gravidez, porque tinha medo desta confirmação. Teria que enfrentar os problemas que iam surgir (E4).

Não fiz pré-natal porque tive que esconder a gravidez para evitar problemas. Compartilhar a ocorrência da gravidez com outras pessoas, sobretudo o empregador, poderia significar a perda do emprego e a consequente falta de um lugar para morar: Escondi a gravidez até quando foi possível, porque tinha medo de ser mandada embora. Se isso acontecesse, teria que sair da casa que era do meu patrão, eu ficaria no olho da rua com meus filhos (E2). Uma adolescente solteira e que morava com os pais também escondeu a gravidez, considerando que a recriminariam e ela ficaria à mercê das decisões deles: Morria de medo da reação da minha mãe diante da gravidez. Ela sempre foi muito brava e eu tinha vergonha de dizer que estava grávida. Com certeza, ela iria tomar alguma providência (E7).

Tive que resolver problemas urgentes e não pude fazer pré-natal. Um exame minucioso dos obstáculos a transpor para fazer PN e os benefícios derivados desta atitude era realizado pelas mulheres. Esta avaliação, vital numa vida repleta de adversidades, sempre levava à conclusão de que não valia a pena fazer o PN: Não tinha dinheiro para ônibus (E01, E10); Não tinha ninguém para cuidar dos outros filhos (E3, E9, E10 e E11); Minha vida é muito difícil, mãe doente precisando de cuidado, levar no médico, três filhos para criar, dependendo só de mim para sustentar (E01).

O atendimento não é bom e ir ao médico sem estar doente é só para ricos. As mulheres se percebiam como pobres e havia um imaginário profundamente arraigado culturalmente de que a busca por assistência médica é para ser feita apenas nos casos de extrema necessidade, em situação de urgência. Algumas mulheres entenderam a gravidez como uma condição de normalidade, que não requeria acompanhamento médico. Outras, por sua vez, se autoavaliaram como relaxadas, por não terem tomado o devido cuidado na gravidez: Nós não somos bem atendidas no serviço de saúde. Só procuro médico em último caso, quando estou com problema muito grave'' (E1); A gravidez é uma coisa normal. Tinha certeza que o meu bebê estava bem, que não precisaria fazer nada! (E5); Fui bem relaxada. Ah, fui! (E4); Pobre só vai para o posto de saúde quando está doente e realmente precisa ser atendido, ir a médico sem estar doente é coisa para rico (E1, E3, E10).

Os desconfortos da gravidez, além de outros fatores, como a longa distância entre a residência e o serviço de saúde, contribuíram para a não busca da assistência PN:Tinha dificuldade para ir para o posto, estava gorda, queria dormir, tinha preguiça, não conseguia andar, a perna estava inchada (E3, E5); O posto é longe, tem que andar bastante (E10, E1, E5, E09). As mulheres avaliaram que os serviços de saúde tinham muitas limitações, indicaram que enfrentavam dificuldades para agendar consultas, devido à escassez ou à falta de comprometimento dos profissionais, e que sabiam que a consulta seria agendada para dois a três meses adiante. Por isso, concluíam que a busca da assistência PN era perda de tempo: Demora dois a três meses para agendar consulta! Falta médico!!! Então, a gente pensa: para que procurar médico? (E1)

Tema cultural: Não vale a pena fazer pré-natal: esta assistência não é indispensável e precisaria enfrentar muitos obstáculos para conseguir. A vida das mulheres era permeada por dificuldades de natureza pessoal, familiar e social. Quando ficavam grávidas, as dificuldades existentes se potencializavam, inviabilizando a busca e a continuidade da assistência PN: Sou ocupada com muitas coisas para fazer, não tenho quem me ajude. São vinte e quatro horas de trabalho com essas crianças. (E1, E3). O cotidiano, repleto de afazeres domésticos e relacionados ao trabalho remunerado, não permitia que as mulheres se cuidassem. Consequentemente, só conseguiam perceber que estavam grávidas quando a gestação já estava bem adiantada: Minha vida é muito corrida, estava grávida, mas não percebi: continuei trabalhando... (E1).

Mesmo quando desconfiavam da gravidez, não chegavam a fazer exames diagnósticos para confirmar sua ocorrência ou adiavam a sua realização. Agiam desta forma porque ter a gravidez confirmada seria algo temeroso, que demandava a necessidade de arcar com consequências indesejáveis: Seria mandada embora do emprego, teria que sair da casa, para onde eu iria com os filhos pequenos? (...) Minha mãe me mandou embora de casa, ela não queria olhar para mim (...) (E7). A ausência de suporte familiar e social foi a principal causa da não realização do PN: Não fiz pré-natal porque não tinha com quem deixar os filhos (E9, E10); Quem tem filho pequeno e não tem com quem deixar, é difícil fazer pré-natal (E3). Os déficits na qualidade da assistência também contribuíram para a não busca e o não acompanhamento PN: O PN é desorganizado, quando consegue ir à consulta, o médico falta ou está de licença (E6); Não gostava de ir à consulta, porque era muito cedo... é muito ruim, de manhã, um frio... ah, é horrível (E5); Não procuro PN porque a consulta é para daqui a três meses ou mais! E é difícil ter médico! (E1). Os aspetos favoráveis e desfavoráveis da assistência PN eram constantemente avaliados. Ao verificar o produto desta avaliação, concluíam que não valia a pena fazer PN, pois os investimentos que precisavam ser feitos não resultavam nos benefícios desejados.

 

DISCUSSÃO

Em síntese, os motivos da não busca pela assistência PN estão, de forma direta ou indireta, relacionados com a condição da pobreza, que produz reflexos negativos nas esferas pessoal e familiar das mulheres. Elas não percebiam que estavam grávidas imediatamente após a ocorrência da amenorreia, porque não tinham conhecimento sobre o próprio corpo. Consequentemente, a gravidez era confirmada em estágio avançado. Associavam-se a problemática da baixa escolaridade e a consequente dificuldade de acesso às informações, cujo produto era a ausência ou a deficiência no autocuidado. Estes resultados indicam a essencialidade das medidas para promover o empoderamento feminino. A adoção de tais medidas pode resultar na busca de mais informações a respeito dos recursos de saúde disponíveis na própria comunidade.17

Os profissionais alocados na ESF possuem condições privilegiadas para desenvolver estratégias de empoderamento feminino. O desenvolvimento de tais ações requer preparo adequado na dimensão linguística e cultural. Os elementos envolvidos neste tipo de proposta devem estar identificados com a população atendida e trabalhados em conjunto, de modo a promover respeito mútuo e levar em conta a perspectiva das pessoas que são o alvo da ação.18 No entanto, há que se considerar o fato de que grande parte das UBS não disponibiliza assistência à saúde por meio da ESF, o que dificulta o alcance da população à assistência à saúde e ao PN. As gestantes consideram que a assistência PN é uma oportunidade para esclarecer dúvidas e se sentir acolhidas e respeitadas. Quando este desejo se concretiza, quando buscam assistência PN, sentem que os profissionais de saúde têm compromisso com a qualidade do cuidado; consequentemente, as gestantes têm a oportunidade de se sentir empoderadas.19

A inadequação da qualidade dos serviços foi um dos principais motivos da não busca pela assistência PN. Constata-se, portanto, que a percepção de que o serviço público de saúde não oferece assistência de qualidade já está internalizada entre os moradores de comunidades que dependem da assistência prestada pelos serviços gratuitos,20 fato reiterado pelas informantes deste estudo. Além da falta de organização dos serviços de saúde, evidenciada por Duarte et al. (2011),21 causar a não aderência à assistência PN, o fato de não poder contar com um suporte familiar e social para o cuidado dos filhos foi outro aspecto evidenciado. Este problema, referido por outros pesquisadores, indica a necessidade urgente de se adotar medidas visando facilitar o acesso das mulheres à assistência PN.

A ESF possui condições estruturais para equacionar esta problemática. Acolher gestantes nas visitas aos domicílios e oferecer alternativas para agendar consultas de PN são iniciativas importantes. Disponibilizar os sábados, como nas campanhas específicas, facilita a obtenção do suporte familiar necessário para as idas às consultas. Criar espaços nas UBS, para garantir a guarda e a recreação das crianças enquanto suas mães se encontram na consulta PN, seria outra possibilidade. Estas medidas assumem importância em um cenário onde ocorreu, no intervalo de uma década, o aumento significativo da proporção de mulheres que são responsáveis pelos domicílios. Este aumento foi gerado pela maior participação da mulher no mercado de trabalho, o crescimento da expectativa de vida da mulher e o maior número de casamentos desfeitos.22

Dados deste estudo indicaram, entretanto, que apesar de a legislação brasileira garantir o direito de a trabalhadora frequentar PN, o usufruto desta prerrogativa é difícil para muitas gestantes que não têm contemplado algumas de suas necessidades prioritárias. Em estudo realizado no Brasil, cidade de Marília, no Estado de São Paulo, as pesquisadoras concluíram que a assistência fragmentada é um dos aspectos que gera medo e insegurança nas mulheres. As mulheres não se sentem acolhidas pelo sistema de pré-natal e nem recebem a assistência hospitalar que gostariam.23 Dificuldades relativas ao transporte foram mencionadas, apesar de a distância máxima entre a moradia e o serviço de saúde ter sido igual ou menor do que 3 000 metros. É possível supor que esta dificuldade estava associada a outras, de maior magnitude e profundidade, indicando que os profissionais devem realizar busca ativa das gestantes e prestar atendimento personalizado e contextualizado, como preconizado pela ESF.24 Esta estratégia é efetiva para ampliar a assistência PN. O fornecimento de tíquetes para serem utilizados no transporte também aumentou significativamente a aderência das gestantes à assistência PN. Nesse sentido, a Prefeitura do Município de São Paulo desenvolveu o "Programa Mãe Paulistana" que oferece, entre outros benefícios, o transporte gratuito para realizar consultas PN. Este benefício, muito utilizado pelas gestantes que moram neste município, pelo fato de propiciar resultados positivos em termos de aderência ao PN,25 deveria ser implementado também em outras localidades.

Em síntese, as mulheres vivenciam um cotidiano repleto de obrigações e dificuldades de natureza pessoal, familiar e socioeconômica. Este conjunto resulta na não realização do PN. Um cotidiano conturbado, associado à descrença em relação à qualidade do serviço de saúde, leva as gestantes a não buscarem a assistência PN. Semelhante problema ocorre em cenários similares da perspectiva social, indicando que os papéis tradicionais de esposa e mãe se encontram profundamente arraigados em diferentes culturas. Assim sendo, a sensibilidade e o preparo dos profissionais para a abordagem integral na assistência à saúde são fundamentais para identificar e atender as necessidades dos usuários dos serviços de assistência PN.6,21 Embora a prevalência de recém-nascidos saudáveis de mães que não buscaram assistência nos serviços de saúde seja alta, a importância à assistência PN não pode ser reduzida. A gravidez é caracterizada por mudanças fisiológicas importantes, incluindo a dimensão emocional, que requerem suporte adequado. A assistência PN deve visar à promoção da qualidade de vida, da autoestima e da sexualidade do casal, além de trazer orientações quanto ao cuidado à saúde. Desse modo, as gestantes poderão sentir que o investimento feito para a busca da assistência PN vale a pena, pois resulta na promoção de todos estes aspectos.

Conclusão. Os resultados da presente pesquisa reforçaram a necessidade de a assistência PN propiciar às gestantes a sensação de serem acolhidas e atendidas em sua integridade, mediante a contemplação das dimensões físicas, emocionais, socioeconômicas e culturais. Cabe aos serviços de PN e a seus profissionais se esmerarem na realização do trabalho que lhes compete, para que as gestantes passem a crer que os obstáculos merecem ser enfrentados, porque a assistência PN tem qualidade, valendo a pena ser buscada e seguida.

 

REFERÊNCIAS

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Abstract : 566

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