Revista Affectio Societatis Vol. 14, N.° 26, enero-jun de 2017. ISSN 0123-8884
Revista Affectio Societatis
Departamento de Psicoanálisis
Universidad de Antioquia
revistaaffectiosocietatis@udea.edu.co
ISSN (versión electrónica): 0123-8884
Colombia
2017
Ricardo Monteiro Guedes de Almeida
PSICOANÁLISIS AS ESTABILIZAÇÕES NA PSICOSE: METÁFORA DELIRANTE E SINTHOMA
Revista Affectio Societatis, Vol. 14, 26, enero-junio de 2017
Art. # 1 (pp. 13-32)
Departamento de Psicoanálisis, Universidad de Antioquia
Medellín, Colombia
Tipo de documento: Artículo de investigación

Affectio Societatis

1 PsicólogoePsicanalista.MestreedoutorandoemPsicologiaSocialpelaPontifícia
UniversidadeCatólicadeSãoPaulo(PUC-SP).MembrodoNúcleodePesquisa
“PsicanáliseeSociedade”nestainstituição.ricardopsi@gmail.com






Opresenteartigo,visadiscutirsobre
as estabilizações psicóticas, a metá-
foradeliranteeosinthoma,tomando
como referência as leituras psicana-
líticasdeFreudeLacan,respectiva-
mente,sobreopresidenteSchrebere
oescritorirlandêsJamesJoyce.Con-
cluiremos que a suplência subjetiva
queosujeitopsicóticopoderecorrer
na busca de sua estabilização não
se restringe à metáfora delirante. O
psicótico também poderá encontrar
diferentessoluçõesparaoseuadoeci-
mento,talcomoproduzirumsintho-
ma,aexemplodeJoycecomsuaarte.
Palavras-chaves: estabilizações psi-
cóticas,metáforadelirante,sinthoma,
suplência.

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
Elpresenteartículopretendediscutir
sobre las estabilizaciones psicóticas,
la metáfora delirante y el sinthome,
tomando como referencia las lectu-
raspsicoanalíticasdeFreudyLacan
sobreelpresidenteSchreberyeles-
critorirlandésJamesJoyce,respecti-
vamente.Sellegaalaconclusiónde
quelasuplenciasubjetivaqueelsu-
jetopuedeevocarenlabúsquedade
suestabilizaciónnoserestringeala
metáforadelirante.Elpsicóticotam-

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




This paper pretends to discuss on
psychotic stabilizations, delusional
metaphor and sinthome, by having
asreferenceFreudandLacan’spsy-
choanalyticreadingsonjudgeSchre-
berandtheIrishwriterJamesJoyce,
respectively.Itisconcludedthatthe
subjective substitution that the sub-
jectmayevokeinthesearchofhis/
her stabilization is not restricted to
the delusional metaphor. The psy-
choticpersonwillalsobeabletond
differentsolutionsforhis/herafic-
tion,suchastheproductionofasin-
thome,asJoycedidwithhisart.
Keywords: psychotic stabilizations,
delusionalmetaphor,sinthome,subs-
titution.
bién podrá encontrar diferentes so-
lucionesparasupadecimiento,tales
comoproducirunsinthome,amodo
deJoyceconsuarte.
Palabras clave: estabilizaciones psi-
cóticas,metáforadelirante,sinthome,
suplencia.



Cetarticleabordeunediscussionsur
lesstabilisationspsychotiques,lamé-
taphoredéliranteetlesinthome,ense
basantsurleslecturespsychanalyti-
quesdeFreudetdeLacanàpropos
duprésidentSchreberetdel’écrivain
anglaisJamesJoyce.L’onarriveàla
conclusionquelasuppléancesubjec-
tive, évoquée éventuellement par le
sujetdanslarecherchedesastabili-
sation,n’estpasrestreinteàlaméta-
phoredélirante.Lepsychotiquepeut
également trouver différentes solu-
tionspoursasouffrance,tellesquela
productiond’un sinthome, à lama-
nièredeJoyceàtraverssonart.
Mots-clés : stabilisations psychoti-
ques,métaphoredélirante,sinthome,
suppléance.


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
SabemosqueFreudnãochegouadesenvolver,necessariamente,uma
clínicadapsicose.Poroutrolado,seulegadosobreotemaédefunda-
mentalimportância,principalmenteporqueforneceusubsídiospara
que, décadas depois, Lacan viesse propor, de fato, um tratamento
possívelparapsicose.Sobestaótica,odelíriopodesercompreendi-
docomoumatentativadeelaboraçãodopsicóticoemdireçãoauma
estabilização.Porém,comopretendemosenfatizarnestetrabalho,a
elaboraçãodelirante,talcomoemSchreber,nãoconsistenaúnicaten-
tativadesoluçãoapresentadapelossujeitospsicóticos.
Nestesentido,pretendemosrealizarumadiscussãosobreasestra-
tégiasdeestabilizaçãonapsicoseestudadasporLacan:ametáforadeli-
ranteeosinthoma.Aperspectivaestruturaldapsicoseadotadaporele
easconsequênciasdanãoinscriçãodoNome-do-Paiserãoosprimeiros
pontosqueiremosabordar.Emseguida,versaremossobreaquestão
dasuplênciaedoobjetoanapsicose,tendocomoobjetivootemada
estabilização.Aonaldestetrabalho,abordaremosumadiferenciação
entreasleituraspsicanalíticassobreSchrebereJamesJoyce.SeLacan
estivercorreto,Joycefoiumpsicóticonãodesencadeado(Soler,2007).

A psicanálise de orientação lacaniana adota a tese do inconsciente
estruturadocomolinguagem.NotextointituladoDe uma questão pre-
liminar a todo tratamento possível na psicose, Lacan(1957-58/1998)cons-
truiuasuaprimeiradoutrinadaestruturadapsicose.Nessemesmo
texto,eleasseverou:“[...]quesignicaqueoestadodosujeitoS(neu-
roseoupsicose)dependedoquesedesenrolanoOutroA.Oquenele
sedesenrolaarticula-secomoumdiscurso(oinconscienteéodiscur-
sodoOutro)”(Lacan,1957-58/1998,p.555).
Poisbem,pensaraspsicosesapartirdeumaperspectivaestrutu-
ralimplicaemumasériedeconsequências,inclusivenapossibilidade
deconcebê-laemumperíodoanterioràscriseseàsmanifestaçõestra-
dicionalmenteassociadasaela,taiscomo:osdelírioseasalucinações.
Estamos,porconseguinte,tocandoemumaquestãocomplexa,mas
fundamentalparaoentendimentodaestruturapsicótica,asaber:o


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diagnósticodapsicoseemmeioàausênciadosseusfenômenosele-
mentarestradicionais.Estefato,segundoCalligaris(1989),emuma
clínicaestrutural,torna-sepossível.
Certamente,nãoqueremosaquidiminuiraimportânciaqueacri-
se,odesencadeamentodapsicose,exerceparaodiagnósticodiferen-
cial.Principalmente,porque,pormeiodela,somoslevadosareetir
sobreaforclusãocomocondiçãoessencialdapsicose.Semdúvida,
noepisódiodedesencadeamentoépossívelidenticarumapeloque
nãofoiatendidoeque,comoveremosaseguir,dizrespeitoauma
nãoinscrição.
Porém,antesdeentrarmosneste ponto,devemosressaltarque
em uma psicose não desencadeada, não apenas fora da crise, mas
anterioraqualquerencontrodesastrosocomafunçãopaterna,uma
questãosefazpresente:oquesustentariaosujeitoatéomomentoda
crise?DeacordocomSoler(2007),paraLacan,em1956,arespostase
encontrariaemumaidenticaçãoimaginária,naqualosujeitoassu-
meodesejodamãe.Napsicose,quandoessaidenticaçãoéabalada,
umadissoluçãoimagináriaacontece.
Issoserevelaparanósumcampofértilparasepensarnaquiloque
falhaemseinscrevernestaestruturaemantémprofundarelaçãocom
oepisódiodacrise,odesencadeamento.Nesteviés,tomemosoSemi-
nário3- As psicoses,noqualLacan(1955-56/2008)arma:“Narela-
çãodosujeitocomosímbolo,háapossibilidadedeumaVerwerfung
primitiva,ouseja,quealgumacoisanãosejasimbolizada,quevaise
manifestarnoreal”(p.100).Paracompreendermosessefato,devemos
anteslembrarqueemsetratandoderealidadeparaopsicótico,La-
candefendeuumafalhaestrutural,umburaco,quedizrespeitoauma
Verwerfungdaleipaterna.Estetermo,quealgunscomentadorestradu-
zemcomoforaclusão,enquantoqueoutrostraduzemcomoforclusão,
foiprimeirotomadoporFreudnosentidoderecusa,talcomoarecusa
dadiferençaentreoeueoissoou,então,entreossexos.
Posteriormente,Lacanassociouaessetermoumaaceãoqueserá
fundamentalparaacompreensãodaestruturapsicótica,asaber:osenti-
dodeuma“falha”nainscrãodametáforapaterna.Todavia,devemos

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lembrarqueapesardeleutilizartermostaiscomo“falha”e“buraco”,
issooquerdizerqueapsicosepossasertomadaombasenum-
citemrelaçãoàneurose.Opsicanalistafrans,emnenhummomento,
propõeumahierarquia,naqualapsicoseseencontrariaabaixodaneu-
rose.Pelocontrário,elevaipensarambascomoestruturasdistintasda
personalidade.Todavia,élícitosalientarquenapsicose,osujeitonão
sesubmeteràsimbolização,talcomonaneurose.Nestamedida,opsi-
ticocaisobogolpedaVerwerfungprimitiva(Lacan,1955-56/2008).
EstamosentrandonatemáticadocomplexodeÉdipo.Assimve-
jamosoutrapassagemdeLacan(1955-56/2008)doSeminário3:
OcomplexodeÉdipoquerdizerquearelaçãoimaginária,coni-
tuosa,incestuosanelamesma,estádestinadaaoconitoeàruína.
Paraqueoserhumanopossaestabelecerarelaçãomaisnatural,
aqueladomachocomafêmea,éprecisoqueintervenhaumtercei-
ro,quesejaaimagemdealgumacoisadebem-sucedido,omodelo
deumaharmonia.Nãoédemaisdizer–éprecisoaíumalei,uma
cadeia,umaordemsimbólica,aintervençãodaordemdapalavra,
istoé,dopai.Nãoopainatural,masdoquesechamapai.Aordem
queimpedeacolisãoeorebentardasituaçãonoconjuntoestáfun-
dadanaexistênciadessenomedoPai(p.118).
AquivemosLacanressaltandoanecessidadedequeumterceiro
venhaintervir.Noentanto,esteterceironãodizrespeitoaumpai
natural,aumpaireal,mas,sim,àquelequeexercerafunçãodepai.
Dessaforma,elesituouessafunçãopaternanaestruturadosujeito,
atravésde umsignicante primordial, osignicante doNome-do-
pai.Signicanteessequedeveserpensadocombasenaordemdo
mito,pois,quandoLacan(1955-56/2008)questiona:“Oquequerdi-
zerosignicanteprimordial?”(P.179),ressaltaqueessesignicante
temtodasascaracterísticasdomito,nãohavendo,portanto,ummo-
mentoespecícoemqueosujeitooadquire.
Dequalquermaneira,oÉdipochegouasercompreendidocom
basenumasubstituiçãometafóricaemqueosignicantedoNome-
do-Pai substitui o signicante do desejo da mãe. Segundo Soler
(2007),oquedásentidoaoserdosujeito,aoserdovivente,vaiser


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essasignicaçãofálicaqueametáforapromove,talcomoelaarma:
“oNome-do-PaiquesubstituioDesejodaMãefazsurgirnolugardo
signicanteasignicaçãodofalo” (p.197).Entretanto,issodizrespei-
toàneurose.Emsetratandodapsicose,osujeitonãoirápagaropre-
çodocomprometimentosimbólico,oquerepresentaanãotravessia
doÉdipo,resultandonaforclusãodoNome-do-PainolugardoOutro
enofracassodametáforapaterna(Quinet,2003).
Vemosaqui,pormeiodoconceitodeforclusão,aintroduçãopor
partedeLacan,deumaconcepçãodescontinuista,naqualnãosecon-
cebeapassagemdeumaestruturaparaoutra;emoutraspalavras,ou
háinscriçãodosignicantepaternoounãohá.
Pelanãoinscriçãodosignicanteprimordial,opsicóticoseen-
contrasujeitoaumadesestruturação,ocasionandoumaproblemática
emrelaçãoasituar-senapartilhadossexos,demodoqueacarreta
aquiloque,paraLacan,éamarcaessencialdapsicose:osdistúrbios
dalinguagemeaalucinação.
Verica-seaíosmomentosdacrise,mas,comoarmamos,existe
ummomentoanterioràdesestabilizaçãoemqueosujeitopsicóticose
sustenta.Abordamosessaquestão,deacordocomSoler(2007),com
base no sentido lacaniano de identicação imaginária com a mãe.
Agora,encontramosemLacanosconceitosquenospermitemexpli-
carmelhorestaquestão.Porque,noentendimentodequenapsicose,
emfunçãodaforclusãodoNome-do-pai,haveriauma“falta”dere-
ferênciasimbólica,nospermitecompreendermelhorofatodequeo
psicóticomantémumarelaçãoespecialcomoregistrodoimaginário.
Comisso,queremosdizerquearelaçãodosujeitopsicóticocom
o outro, não vai se fundamentar em uma mediação simbólica, ao
invésdisso,oquepodemosnotaréumarelaçãodualcomoduplo
imaginário,naqualopsicóticotomaooutroparaespelhoemode-
lo.Essaidenticaçãoimediatanospermitepensaroperíodoanterior
àscrises,jáqueosujeitopsicóticopodeviraencontrarumafrágil
compensaçãoatravésdeumaidenticaçãoimagináriacomamãe.No
entanto,devemosdeixarclaroqueessacompensaçãonãoocorreape-
nascomrelaçãoàguradamãe,podendo,também,acontecerpor

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Affectio Societatis
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meiodeoutragura,comaqualosujeitopossaidenticar-se.Por
exemplo,no casode umpsicótico masculinoa compensação pode
aconteceratravésdeumaidenticaçãocomopai.Naspalavrasde
Lacan(1955-56/2008):
Suponhamosqueessasituaçãocomporteprecisamenteparaosujei-
toaimpossibilidadedeassumirarealizaçãodosignicantepaiao
nívelsimbólico.Oquelheresta?Resta-lheaimagemaquesereduz
afunçãopaterna.Éumaimagemquenãoseinscreveemnenhuma
dialéticatriangular,mascujafunçãodemodelo,dealienaçãoespe-
tacular,dáaindaassimaosujeitoumpontodeenganchamento,e
lhepermiteaprender-senoplanoimaginário(p.239).
Todavia, como armamos, essa compensação é frágil. Por este
motivo,Lacancomparouomomentoanterioraodesencadeamento
comumbanquinhodetrêspernas,oescabelo
2
,cujainstabilidadere-
sultariadaausênciadeumaquartaperna.Umacompensaçãodessa
ausênciasedariaatravésde“muletasimaginárias”,ouseja,poruma
viaidenticatóriaque,nomomentododesencadeamento,revelam-se
insucientes.
Essa instabilidade na psicose mantém uma relação direta com
aforclusãodoNome-do-Pai,que,porsuavez,deacordocomSoler
(2007),nãodeveserconcebidacomocausadapsicosee,sim,comocon-
diçãoessencial.Ajusticativaparatalarmaçãoseencontranofato
dequeénecessáriauma“causaadjunta”,termoquefoiutilizadopor
Freud(1911/1996)emNotas psicanalíticas sobre um relato autobiográco
de um caso de paranóia (desmentia paranoides)
3
.Segundoaautora,para
Lacan(1966/1998),essa“causaadjunta”consisteemumapeloaoNo-
me-do-Pai,queocorrequandoháumencontrodosujeitocomafunção
paterna,ouseja,nofracassodopontodebasta,talcomocitadoem
seusEscritos:“pelofuroqueabrenosignicado,dáinícioàcascatade
remanejamentodosignicantedeondeprovémodesastrecrescente
2 Traduçãoparaoportuguêsdotermofrancêsescabeau,cujosignicadoébanco
comsuporteparaospés.
3 FreudanalisouessecasoapenascombasenoescritoautobiográcodeSchreber
(1903/1995),intituladoMemórias de um doente dos nervos.
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
Affectio Societatis.

doimaginário” (p.584).Comoconsequênciadanãoinscriçãopaterna
napsicose,oregistrosimbólicoseconstituicomoumatotalidadesem
furo,semfalta,quesemanifestacomoOutroabsoluto,quefazdosujei-
toumobjetoqueé“invadidoporumgozo,sobaformadesofrimento,
deangústia,dedespedaçamentodocorpo,devozeseoutrosfenôme-
nosdaordemdoinsuportável”(Quinet,2003,p.220).
Nacitaçãosupracitada,Quinet(2003)comentasobreoterrívelmo-
mentodadesestabilização.Maseaestabilização,oquepodemosdizer
sobreela?Aestabilizaçãonapsicoseéumtermoenãoumconceito
lacaniano.Emumprimeiromomento,Lacan(1932/1987)abordouem
suatesededoutorado,intituladaDa psicose paranoica e suas relações com
a personalidade,apassagemaoatodeAimée.Nessecaso,éinteressante
notarqueestefenômenoconguraumainterrupçãonomovimentode
signicação.Sendoassim,Aiméeochegaaseenvolveremumtraba-
lhodesignicaçãoatéumametáforadelirante.EmAs psicoses(Lacan,
1955-56/2008),podemosarticularotermoestabilizaçãopsicóticasoba
luzdametáforadelirante.Noúltimoensinolacaniano,aestabilização
podeserpensadacombasenaênfasedadapelaviadoSinthoma, de
acordocomasleiturasdeLacansobreoescritorJamesJoyce.
NaquelaquepodeserconsideradaaprimeiraclínicadeLacan,a
metáforadeliranteseencontranocentrodetodotratamentopossível
dapsicose,umavezqueessametáforaeraconsideradao“pontode
chegada”daconstruçãosubjetivadelirante,estabilizadoradosujeito.
Nãovidadequepodemosencontrarnocasoparadigmático
dopresidenteSchreber,omelhorexemploparaaproposiçãofreudiana
deque“Aformaçãodelirante,quepresumimosserprodutopatológi-
co,é,narealidade,umatentativaderestabelecimento,umareconstru-
ção (Freud,1911/1996,p.94-95).NodelíriodeSchreber,ondeeleseria
transformadoemumamulhere,juntamentecomDeus,iriaprocriare
povoaraterracomumanovaraçadehomens,encontra-seumasolu-
çãodeliranteemqueoOutronãobarradodeSchreberéreinterpretado,
deumamaneiraemqueodelirantepodeocuparolugardesujeito.
Entretanto,Tenório(2001)armaqueodelíriopodenãoseruma
tentativabem-sucedida.Ou,comoacrescentamos,elapodeviranão
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serduradoura.TomemoscomoexemplooprópriocasodeSchreber,
jáquepormaisqueodelíriotenhatrazidoestabilizaçãoaosujeito,
apósumcurtoperíododetempo,elevoltou aserinternadonova-
menteeassimpermaneceuduranteosseusúltimosdiasdevida.

Inicialmente,comovimos,quandoLacanabordaaquestãodametá-
foradelirante,elenãoofazcombasenaperspectivadeumcomple-
mento,ou,então,desuplemento.Suaênfaseseencontrainicialmente
emumprocessometafóricosubstitutoquedácontadeumafaltada
metáforapaterna,aforclusãodoNome-do-Pai.Assim,apesardoSe-
minário3(Lacan,1955-56/2008) jáapresentarumaindicaçãodeque
estafaltapoderiasercompensada,atéentão,elenãohaviaapresenta-
doaindaanoçãodesuplência.
Lacan(1956-57/2009)faloudesupnciapelaprimeiraveznoSemi-
nário4-A relão de objeto.Oqueécuriosoobservaréqueeleofará,não
comrelaçãoaumcasodepsicose,massim,nocasodefobiadopequeno
Hans.Dessaforma,elealiabordouasuplênciaparafalardeumacom-
pensaçãodecarênciapaternaemumcasodeneurose. cadasapósare-
alizaçãodessesemirio,Lacan(1974-75),noSeminárioR. S. I.,voltaafa-
larsobreanoçãodesupncia,maisespecicamentenomomentoemque
elepassaaquestionarseoenodamentodostrêsregistrosImagirio,
SimlicoeReal–necessitariadeumaaçãosuplementar(Guerra,2007).
Trata-se,pois,datopologiadonóborromeano,dopercursoque
LacanatravessoudeumacríticaànecessidadedeFreuddeumquarto
termo,queopsicanalistafrancêsassocioucomoconceitoderealidade
psíquica(Realität),atéumaaceitaçãodeumtermoamaisenecessário
paramanterunidosostrêsregistros(Lacan,1974-75).
Assim,Lacantomouarealidade psíquica,propostaporFreud,como
umquartotermosuplementaraostrêsregistros,efoimaisalémaoas-
sociarocomplexodeÉdipocomonomequearealität receberia.Dessa
maneira,assistimosLacantomarocomplexodeÉdipocomoumquar-
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totermoquesustentaostrêsregistros,pelomenosnoquedizrespeito
àneurose.Mas,oquenosinteressaemnossotrabalhoédestacarque
emummomentoanterioraoSeminárioR. S. I(Lacan,1974-75), Lacan
játinhaanoçãodequeopróprioNome-do-paieraumelementosu-
plementar.TalcomoarmaSoler(2007),essaideiajáestavapresente
nocasodopequenoHans,noqualosintomafóbicoéassociadoauma
construçãoqueresultouemumacompensaçãodecarênciapaterna.
NocasodeHans,encontramosapenasumexemplodecomplemen-
toàmetáforapaterna,pois,tratava-sedeumaneurose.Masoquenos
interessaemnossapesquisaéapossibilidadedequenapsicoseobura-
codaforclusãopaternavenhaaserpreenchidoporalgoque,apesarde
exerceramesmafunçãodoNome-do-Pai,nãovemaserosignicante
doNome-do-Paipropriamentedito.Oqueestamosabordandoaquiéa
possibilidadedequeoutrossignicantesocupemamesmafunção,em
outraspalavras,“afunçãodebasteamentodoimaginárioedosimbóli-
co”(Soler,2007,p.205).Isto,porsuavez,levouLacanapromoveruma
pluralização,resultandonatemáticaconcernenteaosNomes-do-Pai.
Lacanassociouesseplural,talcomofeznoSeminárioR. S. I.(La-
can,1974-75),comasuplênciadoNome-do-Pai.Naverdade,essesig-
nicantepassouaserconcebidocomoumelementosuplementar,o
queimplicanageneralizaçãodoconceitodesuplência.Pois,nãodiz
respeitoapenasàpsicose,mas,também,àpróprianeurose.
Entretanto,devemosesclarecerqueasuplênciasóseráconcebida
porLacancomoumquartotermoqueenodaostrêsregistrosapartir
doSeminário22(Lacan,1974-75)e23(Lacan,1975-76/2007),emespe-
cialnesseúltimo,jáquenele,LacanvaiabordaraobradeJoyce,sobre
aperspectivadequeestetenhaconseguidosuplenciarafalhapaterna
emumperíodoanterioraoprópriodesencadeamentopsicótico.
 
Comovimosanteriormente,asolução“schreberiana”,quesecaracte-
rizapelaconstruçãodelirante,nãoseconstituicomoaúnicasolução


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possível para o sujeito psicótico, havendo, assim, vias alternativas
paraqueosujeitopossacivilizarogozoaterradordoOutro.Deacor-
docomQuinet(2006),nosanos1970,aênfasedeLacandeixadeser
asupremaciadosimbólicoerecaisobreainterdependênciaentreos
trêsregistros:real,simbólicoeimaginário.Emumavinculaçãodenó
borromeano,cadaregistroérepresentadoporumanel,ecadaanelse
encontraatreladoaosdemais,deumaformaque,sehouverorompi-
mentodeum,todososdemaisserãoliberados.Igualmenteaessenó,
aestruturadosujeitopassaaserdenida.Emoutraspalavras,quan-
dohouversujeito,conclui-sequeháamarraçãoborromeanadostrês
registros.Em1976,noSeminário23O sinthoma (Lacan,1975-76/2007),
percebemosqueonó,queatéentãoeraapresentadocomtrêstermos,
passaaserapresentadocomumquartotermochamadodesinthoma
ecujafunçãoéreparadora do nó (Beneti,2005).A artepode servir
desinthoma eexercera função reparadora donó queamarra eor-
ganizaaexperiênciasubjetiva.NocasodeArthurBispodoRosário,
encontramosumexemplodetalamarração.Trata-sedeumsujeito
psicóticoqueacríticaespecializadaelevouacondiçãodeumartista
devanguarda,umtítuloque,semdúvida,nãoalmejouparasi.Ape-
sardenãoterrecebidonenhumaformaçãodeartes,suaobraévista
porDantas(2009)como:“deumacontemporaneidadeincontestável,
estáemsintoniacomoquehádemaisradicalecriativoemalgumas
dasvanguardasdasegundametadedoséculoXX”(p.14).Nascido
em1911emortoem1989,elepassouquasedoisterçosdesuavida
internadoeminstituiçõespsiquiátricas,nasquaisrecebeuodiagnós-
ticodeesquizofreniaparanoide.Antesdaprimeirainternação,foium
Fuzileironaval.ApósdeixaraMarinha,passoupordiversosserviços
atéquefoicontratadocomoempregadodomésticodeumadvogado.
Oseuprimeirosurtofoiassociadoaesseperíodo.Eleteveumavisão
emqueseteanjosazuisdesciamemnuvens,emseguidadesapareceu.
Aoserreencontrado,foiencaminhadoparaohospício.Aqui,infeliz-
mente,nãotemosaoportunidadedenosaprofundarnasuainteres-
santebiograa,maséimportantedestacarumepisódioquemarcoua
suavida.Enquantoestavainternadoteveumaalucinaçãoauditivade
umavozquelheconvocavaareconstruiromundo.Antesdisso,elejá
haviarelatadodiferentesdelírios,masapósessaalucinaçãoéquese
desencadeouumacriaçãocomosintoma,naqualelereceberaatarefa
dereconstituirerepresentartudoetodosnomundo,umaobrapara
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serapresentadaaDeus.Assim,odelíriosemostrouinsucienteporsi
sónessecaso,necessitandointegraracriaçãodeliranteoutrotipode
criação,adaarte.Porisso,elerecorreuao“trabalhoconcretodees-
crevercomagulhaelinhaonomedecoisas,dereuni-lasereproduzi-
las” (Tenório,2001,p.127),exemplicandoacriaçãoartísticacomo
ummeiodeproduzirumobjetodegozoseparadodocorpo.
Tantoodelíriocomoaarte,napsicose,pertenceàordemdacria-
ção.Aquiéadotadootermocriaçãoaoinvésdeproduçãoporque,se-
gundoLacan(1959-60/2008),noseminárioA ética da psicanálise,toda
criaçãosefazapartirdonada(ex-nihilo),oqueimplicaemumano-
vidadedeobjetocomrelaçãoaoqueexistiaantes.Entretanto,essa
criaçãonapsicosenãopassapelaordemestabelecidapelacultura,já
queamesmaéestruturadapelaordemdopaisimbólico.
Aartedacultura,ouseja,doregistrodaneurose,tevenaclínica
freudianauma relaçãocomasfantasiasdosujeitoneurótico,eseu
produtoseconstituíaemumaformaçãodoinconscientedosujeito
quepoderiaserlidaeinterpretada(Alvarenga,1999).Assim,vemos
emFreudaarteserarticuladacomoconceitodesublimaçãodapul-
sãosexual.NoquetangeàartesustentadapeloNome-do-Pai,esta
“seorganizaemtornodovaziodaCoisaesvaziadadeseugozo,po-
voandoessevaziocomosobjetosimagináriosquetantosatisfazem
nossosdevaneios”(Quinet,2003,p.221).
Enquantonaneuroseacriaçãodoobjetosefundamentanaope-
raçãodametáforapaterna,napsicose,acriaçãosefundamentajus-
tamentenasuaausência,oqueresultanonãoesvaziamentodaCoisa
deseugozopelacastração.Frenteaisso,osujeitoutiliza-sedacria-
çãodeliranteoudaartecomomeiodebarrarogozodaCoisa.Por
isso,édeseesperarqueaartenapsicosenãotenhacomoendereço
oOutrodacultura,talcomoacontece na neurose, tendo emvista,
quesegundoLacan(citadoQuinet,2006):“OLoucoéohomemlivre
porexcelência;elenãoprecisadoOutroparacausarseudesejo,pois
levaoobjetoanobolso”(p.26).Partindodesseponto,vejamosagora
comoopsicóticoserelacionacomoobjetoaequaissãoasimplica-
çõesdissoparaassoluçõesqueestepossaviraapresentardianteda
forclusãodoNome-do-Pai.
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Oobjetoa foiformuladoporLacanapartirdoconceitofreudiano
dedasding,aCoisaaoladodogozoedoobjetoálgamadatransferên-
cia.Talconceituaçãovaiserevelarfundamentalparaaconstituiçãodo
campodogozoeateoriadosdiscursoscomolaçossociais(Quinet,
2006).Mas,paraquepossamosabordararelaçãodeumsujeitopsicó-
ticocomoobjetoa,devemosnosvoltarprimeiramenteparaaquestão
levantadaporFreudemIntrodução ao narcisismodequenapsicosea
libidosevoltaparaoeu,aoinvésdesevoltarparaumobjetoexterno.
EssaéumaquestãoqueLacanvairetornaraoproporqueoobjetoa na
psicosenãoseencontraseparado,ou,então,perdidoemarcadopela
falta.Aocontráriodisso,eleseencontraaoladodosujeitolouco,em
seubolso.
Naneurose, os objetos,taiscomo os objetosdapulsão, vão se
constituirperdidoseextraídosdocampodarealidadegraçasàmar-
cadacastração.Tendoemvistaqueopsicóticoémarcadopelafor-
clusãodoNome-do-PainolugardoOutro,inferimosqueosobjetos
nãorecebemessamarca,oqueresultanatendênciadelesretornarem
nocampodarealidade.Explicandomelhor,deacordocomQuinet
(2003),naneuroseoÉdiposervedeanteparoqueimpedequeobjetos,
comoavozeoolhar,retornemaocampodarealidade,comonosco-
locaoautor:“Aleidopaimarcaessesobjetoscomoimpossíveisde
seremreencontrados.”(p.66).Enquantoquenapsicose,oobjetoa,
pornãoestarexcluídodalinguagempormeiodainscriçãodaLeida
castraçãonoOutro,emergenocampodarealidadenaformadoolhar
oudavoz,oqueserevelafundamentalquandosetratadodiagnós-
ticodapsicose.
Comoarmamosanteriormente,esseOutronãocastradodapsi-
coseseapresenta ao sujeitocomoqueabsoluto, fazendo desteseu
objetode gozo.Da mesmamaneira, as soluções psicóticas comoo
delírioeasobrasdeartepodemserconsideradascomotentativasde
imporumaseparaçãodoobjetoa,queseencontraaoladodosujeito
psicótico,paraquedestaformaogozodoOutroaterradorpassepara
umobjetoseparadodeseucorpo.Comrelaçãoaessefato,podemos
pensarSchrebereArthurBispodoRosário.Agora,comrelaçãoaJa-
mesJoyce,umaperguntasefazpresente:comoessaquestãoéapre-
sentada?
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Devemoslembrarque Lacan tomava ocasodeJoyce no senti-
dodeumapsicosenãodesencadeada.Alémdisso,noSeminário23,
Lacan(1975-76/2007)nãoseremeteaquestãodavoznocampoda
realidadedeJoyce,ouseja,elenãoarmaqueoescritoreraatormen-
tadoporvozesprovenientesdoOutroaterrador.Aoinvésdisso,ele
abordouaquestãodaspalavrasimpostas,ouseja,aexperiênciasin-
gulardeJoycecomaspalavras,quelheaparecemcomoestrangeiras.
Pormeiodeseusinthoma,Joycevaiencontrarumaformadelidarcom
esseaspectodeimposiçãodaspalavras.Diantedisso,nãopodemos
concluirqueosinthomadeJoycepossasercompreendidocombase
nomesmosentidoqueasoluçãodeBispo,pelomenosnoquediz
respeitoàtentativadesepararoobjetoadocorpo.

Nateorialacaniana,épossíveldiferenciardoiscampos:ocampoda
linguagemeocampodogozo.Noprimeirocampo,aênfasedadaaos
fenômenospsicóticosseencontranasanomaliasdasignicaçãoeda
identicaçãoimaginária,enquantoque,nosegundocampo,aênfase
seencontranosfenômenosdegozodiretamenteligadosaosigni-
cante,numcurtocircuitosobreoimaginário.Aoabordarmosocam-
podogozo,somoslevadosareetiroquevemaserogozo.Segundo
Quinet(2006),ogozonãopossuilimitesenãopodeserreduzidoao
sexo,jáquenãopodeseraprisionadopelosignicantefálico.Ogozo
podesemanifestardediferentesformas:narepetiçãodosignicante,
queconstituioinconscientecomosaber,ogozosepresenticacomo
traçounário(S1),comosabercomomeiodegozoe,também,pode
sefazerpresentenaentropia,ouseja,naperdaproduzidapelofun-
cionamentodoaparelho.Talperdarepresentaumarecuperaçãode
mais-valiadegozo(Quinet,2006).
Sobaformadegozo,apulsãodemortenãosimbolizadapode
retornaraolaçosocial,trazendoconsigoasimpossibilidadesdelaços
entreoshomens.Nestaperspectiva,somosremetidosaoreal,aocam-
podogozo,comoaquiloqueéimpossíveldeserescritoesuportado.
Osdiscursosdizemrespeito,justamente,aesseâmbitodogozodos

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impossíveise,destaforma,oslaçossociaisrepresentadospelosqua-
trosdiscursos,constituem-secomopossibilidadesdiantedaimpossi-
bilidadedarelaçãosexual.
Ocampodogozonospermitevernaabordagemdapsicoseoutro
aspectodassuplências,alémdoaspectodosignicante,nosentidode
quepassaaserpossívelinterpretarasuplênciacomoumaformade
restriçãodogozo,ouumalocalizaçãodeste.Sobesteprisma,aclínica
passariaater,comoumdeseusobjetivos,odefazercomqueogozo
sejainseridodentrodelimites.
OprópriocasodeSchreberexemplicaessatendênciadeimpor
limitesaogozo,porqueépossívelperceberumpercurso,umamudan-
çanaposiçãodosujeitoperanteomesmo.Noiníciodesuaelaboração
delirante,Schreberseencontravaimersonogozoqueoassaltavapor
todososlados.Naverdade,tratava-sedeumgozoavassalador.Após
aelaboração delirante,eleconseguelocalizarogozono âmbito da
fantasiadecopularcomDeus.Apartirdeentão,ogozoqueoutrora
oassaltava,passouaselocalizar,concretamente,nosmomentosde
solidão,nosmomentosemqueelenãotinhamaisnadaparafazer
ecavadiantedoespelhocontemplandosuaimagemfeminina.De
acordo com Soler (2007), Schreber passa a contemplar a si mesmo
comosolhosdeDeus.EmsetratandodeJoyce,tambémpodemos
pensaremtermosdeumalocalizaçãodogozo,promovidaalinãopor
meiododelírio,maspormeiodeumaarte.Contudo,nãosetratade
umaartequalquer,porque,talcomoarmaRinaldi(2006):“Aartede
Joycesubstancializaemsuaconsistênciaeemsuaexistênciaoquarto
termoessencialaonó,aproximando-sedeleomaispossível”(p.79).
EmSchreber,épossívelencontrarumalimitaçãodogozoavas-
saladordoOutroatravésdeumatentativadecuradelirante.Entre-
tanto, observa-se que o sujeito, mesmo após a estabilização, ainda
seencontra àmercê dos caprichos do grandeOutro. Setomarmos
oexemplodeSchreber,épossívelperceberque,emseudelírio,ele
podesersituadodeduasmaneiras.Primeiro,eleseencontranapo-
siçãodaquiloquedásignicaçãoàsvozesdeDeus,jáqueeleéquem
temquecompletarasvozesinterrompidaseprovenientesdamassa
dasalmasincluídasemDeus.Emsuma,todasasvozesdivinasre-
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
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presentamoS1econvergemparaSchreber,quenaposiçãodeS2,
completaasignicaçãodelas.Eleseencontranaposiçãoqueéocu-
padapeloescravonodiscursodomestreeéforçadoaotrabalhodo
pensamentoininterrupto(Soler,2007).
Aoutraposiçãoemqueeleésituado,emseudelírio,dizrespeito
aogozodoOutro.Porconseguinte,SchreberfazcomqueDeusgozena
medidaemqueseencontranaposiçãodesignicantequedásignica-
çãoatodasasvozesdivinas.Porm,combasenaarmaçãodeSoler
(2007):“poderíamosescreverofora-do-discursoschreberiano:osigni-
cantenãorepresentaosujeitoenãohábarreiraparaogozo,e,entre
DeuseSchreber,quasepoderíamosevocarumarelaçãosexual”(p.65).
PoderíamosarmarqueSchrebertambémseencontranaposição
deobjetoa,jáqueeletrabalhanogozodeDeus.Nomomentodaapro-
ximaçãodeDeus,ambosgozam,porqueogozodeuméogozodeou-
tro,noentanto,quandoDeusseafasta,produz-seogritodo“milagre
dourro”eSchrebertorna-seumtextorasgado,decaídocomoobjeto,
nãodegozo,masderesto.Dequalquerforma,odelíriodeSchreber
trata-sedeumrestabelecimentodosujeito.Noqueserefereàcriação
deJoyce,estasignicouumaautoprevençãodadesestabilização,posto
queantesdodesencadeamentoeleseidenticaaosintoma.
ConformeMiller(2007)arma,oqueinspirouLacanemsuader-
radeira lição não foi Freud, pelo contrário, já que esse último mo-
mentorepresentouafaseemqueLacanmaiscriticouFreud.Dessa
forma,quemveioainspirá-lonessederradeiroensino,foiJamesJoy-
cecomsuapráticadeescritaesuaencarnaçãodosintoma.Assim,
Joyceéoquemelhorexemplicaateoriadosinthoma,demodoque,
selevarmosemconsideraçãoqueosintomapassaaservistocomo
umafunçãodaletraquexaogozoforadalinguagem,entãoosinto-
maJoycesedestacaporquesuaescritaconseguetransformartodoo
“gozo-sentido”,cujaliteratura,habitualmente,veiculanumgozoda
letra,foradosentido.
Joycetinhaumaintenção,ade queseusleitoresseocupassem
deleporumlongoperíododetempo,portrezentosanos.Suaescrita
contribuiatéhojeparaqueissoaconteça,poisemsuaproduçãoiden-

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ticamosumaforma,talcomoLacandescreve,depicarasfrases.Na
verdade,aescritajoycianaseconstituíaemumprocessodedaroutro
usoàlínguaemqueseescreve.Sobreisso,Almeida(2015)arma:
AescritadeJoycedestróialinguageme,emcontrapartida,dávidaà
língua.Paratanto,elelançamãodoenigma,queconsistenaconver-
sãodovaziodesignicaçãoemseucontrário,ouseja,decertezade
revelação.Asexperiênciasenigmáticasaparecemcomclarezanos
fenômenosqueeledescreveucomoepifanias,cujosfragmentosreal-
menteouvidosemsituaçõesquaisquer,eramseparadosdocontex-
toecuidadosamenteguardadoscomoomaispreciosodesuaobra.
Curiosamente,veioaaconteceremmomentosemquenemmesmo
haviaumaobra,masissonãofoiempecilhoparaqueposteriormen-
tetaisepifaniasfosseminseridasdeformaocultaemsuaobra(p.26).
Note-sequeessesfenômenos,aoseremretiradosdeseucontexto,
representavamumaaboliçãodasignicaçãoe,consequentemente,da
linguagem.
Asepifaniasrepresentavamumfragmentoestritamenteanálogo
aosignicantefora-do-sentidoqueLacanobservounocasodeSchre-
ber.Noentanto,nãosetratavadeumaelaboraçãodelirante,pelocon-
trário,atéporqueatarefadesignicação,quenormalmentecabeao
delírio,nosintomadeJoyce,étransferidaparaopúblico,maispreci-
samenteparaoscomentadores.
Nocontexto analítico, umatendência que observamosé que o
analisandofalaparaoOutro,mas,segundoMiller(2007),podehaver
ummomentoraroemaisprofundoemqueoanalisandofalapara
si,oquepromovesatisfação.Umcircuitodesatisfaçãoquetambém
podeserconsideradocomopulsão,oqueremeteàfórmuladeFreud
naqualapulsãooraléilustradacomaimagemdeumabocaquebei-
jaasimesma.NoSeminário23,Lacan(1975-76/2007)nosapresenta
Joycecomoumparadoxo,umsujeitosemoOutro,quefalaparasi.
SegundoMiller(2007):
Setentarmosabordarodequesetrataaqui,talvezpudéssemosdi-
zerqueessecapítulonosapresenta–aolongodavidadeJoyce,da
análisededecomposiçãododiscursodeJoyceedesuaposição–o

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paradoxodeumsujeitosemOutro,quefalaparasieondetudoo
quedecorredoOutroésuspeitodeserapenas–apalavraestáem
seucapítulo–fabricação(p.77).
Estefalarparasi,emJoyce,nãoimpediuarespostamaciçado
discursouniversitárioedoseusaberparatentarlidarcomotrauma-
tismoqueaescritasingulardesteautorpromoveunalínguainglesa.
Poroutrolado,estatentativadetransformarodiscursodeJoyceem
saberacabouporrevelarque,nofundo,JamesJoyceeranãointerpre-
tável(Miller,2007).
Nolugar exceção, Joycenãodelira e gozasolitariamente.Para
tanto,eleconseguiupromoverumatransferênciadosimbólicopara
oreal,alémderestabeleceroseulaçosocialatravésdeumaliteratura
estranhaeforadodiscurso.Aqui,nosdeparamoscomumparadoxo
dosintomadeJoyce,umavezqueelerestabeleceovínculosocialpor
meiodeumaescritaqueabolejustamenteestevínculo(Soler,2007).
Concluindo, vimos até aqui duas possibilidades de suplência
subjetivaqueosujeitopsicóticopoderecorrernabuscadesuaestabi-
lização.Aprimeira,atravésdametáforadelirante,queéumaforma-
çãoimaginária;easegunda,pelaviadaemergênciadosinthoma,em
queháumaconjunçãodoSimbólicocomoReal.Mas,éprecisolem-
brarque,conformearmaAlvarenga(1999),aclínicatemdemons-
tradoqueumasoluçãonãodescartaaoutra,ouseja,existemcasos
emqueépossívelconstataraconstruçãodeumametáforadelirante,
porumlado;eumaproduçãodesinthoma,poroutro.Comovimosno
casodoBispodoRosário,seutrabalhodeestabilizaçãoapresentouas
duasvertentes:aatividadecriativaeatividadedelirante.
NocasodeSchreber,emsuaelaboraçãodelirante,elefezusodo
signicantedetalformaque,apesardelhefornecerestabilização,não
representaumaseparaçãodoOutro.Dessaforma,elepermaneceà
mercêdeumgozodoOutroaindamaisintensicado.Nesteaspecto,
somosremetidosàabordagemdassuplênciasdosNomes-do-Pai.
O trabalho delirante teve em Schreber uma função metafórica,
substituindoassimosignicantefálicofaltantepelaelaboraçãodeli-

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Affectio Societatis
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rantede“seramulherdeDeus”.Portanto,jánãosetratadeumúnico
signicantecapazdeexerceressafunçãosuplementardocaráterno-
daldoselementossimbólicos,reaiseimaginários,masdeumavarie-
dadedepossibilidadesqueLacanveioarepresentarcomoNomes-do-
Pai.Todavia,oqueimportaéquenesseescritojáhaviaaideiadeque
afaltadametáforapaternapoderiasercompensadaeaprovadisso
estarianoprópriofatodequeosujeitopsicóticopodepermanecer,por
umlongoperíododetempo,semqueapsicosesedesencadeie.
Apartirdeentão,aclínicanãoestarámaisrestritaaodelíriocomo
umatentativadecuradopsicótico,poiséoquepodemosencontrar
nosexemplosdeArthurBispodoRosárioeJamesJoyce.Porém,o
quemaisvaiilustrarateoriadosinthomaserá odeJoyceque,comsua
arte,conseguiutaparoburacodaforclusãopaternaemumperíodo
anterioraoprópriodesencadeamento(Soler,2007).
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


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