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ARTIGO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE/ ARTÍCULO ORIGINAL

 

HIV/AIDS na infância e na adolescência. Tendências da produção científica brasileira

 

HIV/AIDS in childhood and adolescence. Trends in Brazilian scientific production

 

VIH/SIDA en la niñez y en la adolescencia. Tendencia de la producción científica brasileña

 

 

Cristiane Cardoso de Paula1; Ivone Evangelista Cabral2; Ivis Emilia de Oliveira Souza3; Crhis Netto de Brum4; Clarissa Bohrer da Silva5; Stela Maris de Mello Padoin6

 

1Enfermeira, Doutora. Professora, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria- RS, Brasil. email: cris_depaula1@hotmail.com.

2Enfermeira, Doutora. Professora, UFSM, Santa Maria- RS, Brasil. email: icabral44@hotmail.com.

3Enfermeira, Doutora. Professora, UFSM, Santa Maria- RS, Brasil. email: ivis@superig.com.br .

4Enfermeira, Doutoranda. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre - RS, Brasil. email: crhisdebrum@gmail.com.

5Enfermeira, Mestranda. UFSM, Santa Maria- RS, Brasil. email: clabohrer@gmail.com.

6Enfermeira, Doutora. Professora, UFSM, Santa Maria- RS, Brasil. email: stelamaris_padoin@hotmail.com .

 

Fecha de Recibido: Marzo 15, 2012. Fecha de Aprobado: Febrero 4, 2013.

 

Subvenciones: ninguna.

Conflicto de intereses: ninguno.

Cómo citar este artículo: Paula CC, Cabral IE, Souza IEO, Brum CN, Silva CB, Padoin SMM. HIV/AIDS in childhood and adolescence. Trends in Brazilian scientific production. Invest Educ Enferm. 2013;31(2): 277-286.

 


RESUMO

Objetivo. Analisar na produção científica brasileira de 1983 a 2010, a temática HIV/aids na infância e adolescência, suas naturezas e tendências. Metodologia. Estudo de revisão de tema de 121 artigos com abordagem descritiva quantitativo e qualitativo. Resultados. 81% são do eixo sudeste-sul do país. Na década de 1980, teve um equilíbrio entre os relatórios de experiências (50%) e investigações (50%). 70% de toda a produção é de 2003 a 2010. A temática de investigação mais frequente para a infância foi a assistencial (75%) enquanto para os adolescentes foi a prevenção (72%) Os estudos relacionados com HIV/AIDS na infância enfatizaram sobre aspectos clínico-epidemiológicos (70%) e na adolescência predominaram as investigações socioculturais (90%) com tendência preventiva. Conclusão. A produção científica estudada é coerente com a política brasileira de confronto da epidemia e contempla todos os níveis de atendimento para este problema de saúde pública.

Palavras chaves: saúde do adolescente; saúde da criança; síndrome de imunodeficiência adquirida.


ABSTRACT

Objective. To analyze the theme HIV/AIDS in childhood and adolescence, its characteristics and trends, in Brazilian scientific production between 1983 and 2010. Methodology. Review of 121 quantitative and qualitative descriptive studies. Results. 81% of the production comes from the South-East/South of the country. In the 1980's, a balance is observed between experience reports (50%) and research (50%). Seventy percent of the papers were produced between 2003 and 2010. The most frequent theme analyzed with regard to childhood was care delivery (75%), against prevention in adolescence (72%). Studies related to HIV/AIDS in emphasized clinical-epidemiological aspects (70%), while sociocultural studies predominated for the adolescent period (90%), with a preventive trend. Conclusion. The scientific production under analysis is coherent with the Brazilian policy to cope with the epidemic and addresses all care levels related to this public health problem.

Key words: adolescent health; child health; acquired immunodeficiency syndrome.


RESUMEN

Objetivo. Analizar en la producción científica brasileña de 1983 a 2010, la temática VIH/sida en la niñez y adolescencia, sus naturalezas y tendencias. Metodología. Estudio de revisión de tema de 121 artículos con abordaje descriptivo cuantitativo y cualitativo. Resultados. El 81% es del eje sudeste-sur del país. En la década de 1980, hubo un equilibrio entre los informes de experiencias (50%) e investigaciones (50%). El 70% de toda la producción es del 2003 al 2010. La temática de investigación más frecuente para la infancia fue la asistencial (75%), mientras para los adolescentes fue la prevención (72%) Los estudios relacionados con VIH/SIDA en la niñez enfatizaron sobre aspectos clínico-epidemiológicos (70%) y en la adolescencia predominaron las investigaciones socioculturales (90%) con tendencia preventiva. Conclusión. La producción científica estudiada es coherente con la política brasileña de enfrentamiento de la epidemia y contempla todos los niveles de atención para este problema de salud pública.

Palabras clave: salud del adolescente; salud del niño; síndrome de la inmunodeficiencia adquirida.


 

 

INTRODUÇÃO

A Infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e o adoecimento pela Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) configuram-se como temáticas contemporâneas nas ciências da saúde e sociais, por sua natureza clínico-epidemiológica, sociológica, política e econômica. No Brasil, desde a década de 1980, a evolução da AIDS apontou a interface da problemática clínico-epidemiológica com a sociopolítica, como reflexo das mudanças quantitativas e qualitativas do perfil da epidemia.1,2

A infecção pelo HIV em mulheres em idade reprodutiva resultou em aumento do número de casos de crianças infectadas por transmissão vertical.3 Entre 1980 e 2011, foram notificados 608 230 casos de AIDS, dos quais 19 518 na faixa etária de 0 a 12 anos (infância), e 12 891 de 13 a 19 anos (adolescência). Destaca-se o fato de que 90% dos casos notificados na infância correspondem a crianças menores de cinco anos (transmissão vertical).4 A magnitude desse quadro epidemiológico da AIDS na infância e na adolescência demandou dos serviços de saúde ações assistenciais, de prevenção, controle da transmissão vertical, proteção e vigilância de casos.5 Essas ações somaram-se à implantação da Terapia Profilática da Transmissão Vertical (Protocolo AIDS Clinical Trial Group-PACTG 076/1997), refletindo-se no declínio da infecção por transmissão vertical.6,7.

Em paralelo, o quadro da AIDS no país tem mobilizado os pesquisadores a investigarem suas transformações e demandas.8 Enquanto as produções científicas se mostram coerentes com os avanços da política brasileira de enfrentamento da epidemia, a temática da AIDS aponta para a necessidade de cuidados em saúde que contribuem para a melhoria da qualidade de vida das crianças e adolescentes que têm AIDS ou com vulnerabilidade para infectar-se. No conjunto dessas produções, encontram-se estudos sobre a tendência da temática HIV/AIDS em diferentes grupos humanos, havendo a necessidade de ampliação de estudos no grupo de crianças e adolescentes/jovens.9-11 Nesse sentido, a questão de pesquisa - quais são as tendências da produção científica nacional de HIV/AIDS na infância e na adolescência? - é conduzida com o objetivo de analisar as especificidades, natureza e tendência da produção científica brasileira, de 1983-2010, sobre a temática HIV/AIDS na infância e na adolescência.

A relevância do estudo reside na busca de evidências científicas no estatuto do conhecimento sobre o tema, que pode conferir visibilidade para novas questões necessárias ao desenvolvimento de investigações científicas, preenchendo lacunas existentes no conhecimento dessa área. As ações de proteção, de prevenção, de assistência e de vigilância epidemiológica, inerentes à temática de HIV/AIDS na infância e na adolescência e reveladas na tendência dos estudos podem demarcar a coerência entre a produção científica nacional e a política pública.

 

METODOLOGIA

Trata-se de estudo de revisão de literatura com abordagem analítica, crítica e reflexiva, cuja fonte de dados foi bases da grande área das ciências da saúde, particularmente, Medical line (MEDLINE) e Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS). Essa busca foi desenvolvida no segundo semestre de 2011, a partir dos descritores: [HIV ou Síndrome de Imunodeficiência Adquirida] e [criança ou adolescente]. O recorte temporal teve como ponto inicial 1983, quando foi diagnosticado o primeiro caso de AIDS em criança no Brasil.4 Os critérios de inclusão: artigo na temática de HIV/AIDS na infância e/ou adolescência, publicados no período de 1983-2010, com texto na íntegra disponível em suporte eletrônico. Quando vinculado a mais de uma base de dados, o artigo foi considerado uma única versão para análise. Os critérios de exclusão foram: artigos que não eram autorados por brasileiros, resumos com incompletude de texto.

As produções científicas foram selecionadas a partir da leitura dos títulos e dos resumos. Elaborou-se uma ficha de análise documental, composta pelos itens: ano de publicação, base de dados vinculada, região de procedência da produção e especificações (procedência -sul, sudeste, centro-oeste, norte, nordeste-, subárea do conhecimento -medicina, enfermagem, odontologia, farmácia, psicologia, nutrição, biologia, educação, serviço social, antropologia, comunicação, multiprofissional, fonoaudiologia, fisioterapia-, tipo -revisão, reflexão, relato de experiência, pesquisa-, natureza -clínico-epidemiológica, sociocultural, política- e tendência -assistência, prevenção, proteção, vigilância epidemiológica-), a partir de um modelo de sistematização da produção acadêmica e científica adotado pela CAPES.

Para identificar a especificação natureza das produções científicas, utilizaram-se palavras-chave, a partir dos descritores do MEDLINE: a) clínico-epidemiológica: carga viral, infecção oportunista, co-infecção, diagnóstico, tratamento, terapêutica, imunologia, prevalência, índice epidemiológico, epidemiologia; b) sociocultural: relações, apoio social, legislação, direitos humanos, preconceito, discriminação, atitudes e práticas em saúde, conhecimentos, percepção, comportamento;c) política: avaliação de resultados, avaliação de programas e projetos em saúde, serviço de saúde, educação em saúde, promoção da saúde. Com os dados obtidos, desenvolveu-se o cruzamento com o período de publicação das produções, efetuando-se a distribuição quinquenal. Os resultados são apresentados na forma de frequências absoluta e relativa, ilustrados em tabela e gráficos. A determinação da natureza e da tendência pautou-se nos pressupostos da análise de conteúdo temática.12

 

RESULTADOS

O corpus da análise foi de 121 artigos. A especificidade das produções foi analisada de acordo com procedência, subárea e tipo. Verificou-se que a região brasileira de procedência dessas produções com maior destaque foi a Sudeste (60.3%). Quanto às subáreas de conhecimento, constatou-se uma concentração de estudos da medicina (32.2%). (Tabela 1).

A distribuição da produção científica, segundo a variável tipo de estudo, demonstra que, na década de 1980 houve um equilíbrio entre os relatos de experiências (50.0%) e pesquisas (50.0%). A partir da década de 1990 destacaram-se as pesquisas de modo ascendente (98%). A distribuição quinquenal das produções demonstra o crescimento expressivo: 1983-1987 (0.8%), 1988-1992 (0.0%), 1993-1997 (7.5%), 1998-2002 (19.1%), 2003-2007 (42.5%), 2008-2010 (30.0%).

Quanto a natureza averiguou-se que na clínico-epidemiológica os estudos contemplavam as questões diagnósticas, terapêuticas e prognósticas de morbidade e de mortalidade; na natureza sociocultural envolveram questões históricas, sociais e culturais pertinentes às informações e intervenções; e na natureza política, incluíram aspectos inerentes ao planejamento, implantação, implementação e avaliação das ações em saúde. Na distribuição das produções nas subáreas de conhecimento observou-se que textos advindos da medicina e odontologia caracterizavam-se, essencialmente, como clínico-epidemiológicas, e da enfermagem e psicologia, como socioculturais. Os estudos analisados que contemplavam a faixa etária da infância apontaram uma tendência assistencial e natureza clínico-epidemiológica (Tabela 2). Os estudos desenvolvidos na faixa etária da adolescência apontaram uma tendência preventiva e natureza sociocultural (Tabela 3).

 

DISCUSSÃO

Os achados relativos à especificidade das publicações apontam uma produção científica expressiva na região Sudeste comparativamente às demais regiões do país. As subáreas da medicina, enfermagem, psicologia e odontologia se destacaram no conjunto das publicações da grande área da saúde. A vinculação dessas produções aos Programas de Pós-graduação e aos Grupos de Pesquisa, de cada subárea, justifica-se pelo interesse e pela motivação dos pesquisadores.

As temáticas localizaram à problemática clínico-epidemiológica da AIDS na infância e na adolescência como parte do contexto geral da epidemia, além de responder às suas demandas socioculturais e políticas. A maior sistematização daquelas produções se deve ao fato de os Estados do SP e RJ possuírem maior concentração de institutos de pesquisas e universidades, os quais são reconhecidos como polo de produção de conhecimento;13 desenvolverem parcerias e acordos com instituições estrangeiras;14 e, historicamente, responderem às influências dos movimentos sociais e das organizações não-governamentais (ONG).15 A maior concentração de institutos de pesquisas e universidades visualiza-se pela distribuição dos 434 Programas Pós-graduação stricto sensu das subáreas de conhecimento da área da saúde na região Sudeste (63%), seguido pela Sul (17%), Nordeste (13%), Centro-Oeste (4%) e Norte (3%).16

Quanto ao reconhecimento da região Sudeste como polo de produção de conhecimento, estudos exploratórios sobre a produção científica em HIV/AIDS com outros grupos humanos associaram esse fenômeno às excelências da pós-graduação e centros de pesquisa do Brasil.17,18 Nesses Programas, os grupos de pesquisa contam com um contingente de pesquisadores e de recursos financeiros para esse fim, com predomínio das áreas clínico-epidemiológicas.19 Isso explica, em parte, por que as produções advindas da medicina e odontologia caracterizaram-se como clínico-epidemiológicas.

Destaca-se que as produções da enfermagem e da psicologia caracterizam-se como socioculturais, uma vez que alguns de seus objetos de estudo estão localizados nas ciências sociais e humanas. A consolidação de parcerias e acordos com instituições estrangeiras está associada à concorrência pública dos editais de financiamentos à pesquisa, expedidos por órgãos de fomento internacionais.20,21 Soma-se a essa questão os editais nacionais lançados pelo Programa Nacional de DST/AIDS, que formula e fomenta políticas públicas na temática. Esses editais foram significativamente marcados pelo apoio a projetos de pesquisa na região Sudeste, implementados por Grupos e Centros consolidados da região Sudeste.22

A influência dos movimentos sociais e das ONG, através das ações no enfrentamento da epidemia, possibilitou conferir visibilidade social, inicialmente, ao grupo de pessoas que tem HIV/AIDS e, posteriormente, ao grupo de crianças e adolescentes.23,24 A mobilização social e a maior localização das ONG na região Sudeste exerceram um forte impacto na produção de pesquisas com investimentos e financiamentos por parte dos órgãos federais. Assim, a concentração da produção na região Sudeste fortalece o desenvolvimento de políticas de prevenção da infecção, de proteção e de assistência à saúde de crianças e de adolescentes.25 A implantação das estratégias e ações organizadas sob a forma de projetos, políticas e programas aconteceu primeiro em âmbito estadual, posteriormente, estendidas para o plano nacional.26

Na cronologia da produção científica brasileira, as duas primeiras publicações da década de 1980 foram convergentes com o início da epidemia e dos primeiros casos de transmissão do HIV por via sanguínea e vertical. Em 1987, foi publicado um artigo de relato de caso clínico de uma criança hemofílica, revelando o risco nas transfusões sanguíneas e a necessidade de controle nos bancos de sangue. No mesmo ano também foi publicada um artigo de pesquisa acerca da prevalência de anticorpos anti-HIV em meninos de rua na cidade de São Paulo. O primeiro estudo encontrado acerca da AIDS na adolescência data de 1995 e trata sobre o grau de informação, atitudes e representações sobre o risco e a prevenção de AIDS em adolescentes pobres do Rio de Janeiro. Somente em 1997 consta estudo que inclui o adolescente soropositivo ao HIV.

Assim, tem-se o destaque para as pesquisas de campo na segunda década da epidemia. Possivelmente, quando o maior crescimento das produções pode ser relacionado à implementação dos Programas de Pós-graduação e do financiamento das pesquisas por órgãos nacionais e internacionais.27,28 Em relação às naturezas e às tendências dos estudos, os resultados mostraram a consonância das produções com a evolução quantitativa e qualitativa da epidemia no Brasil.29 Nesse sentido, aquelas produções acompanharam as necessidades de saúde das crianças e dos adolescentes e contribuíram para a geração de respostas às demandas de atenção em nível primário e secundário.30

As temáticas HIV/AIDS, investigadas na faixa etária da infância, apontaram uma tendência assistencial de natureza clínico-epidemiológica demarcando a importância e a relação do contexto histórico e epidemiológico da AIDS pediátrica no Brasil.31 Essas especificações revelaram a preocupação com os fatores de risco da infecção pelo HIV nas crianças e buscaram estimar nacionalmente a dimensão dos casos de infecção em menores de 13 anos.32 Seguiu os investimentos no desenvolvimento de protocolo específico de profilaxia da transmissão vertical; métodos diagnósticos; estudos laboratoriais de co-infecções; parâmetros clínico-laboratoriais; medicamentos para o TARV; e profilaxia de infecções oportunistas.33 Os resultados promissores nas áreas clínico-epidemiológicas da saúde das crianças que têm HIV/AIDS evidenciaram a necessidade de investigação das diversidades culturais, das condições sociais e da avaliação das ações desenvolvidas.34

Consequentemente, a partir da segunda década, observou-se um aumento de estudos socioculturais e políticos. A tendência assistencial revela o compromisso com a busca, inicialmente, da compreensão clínica da infecção e da doença e suas implicações na infância.35 A tendência assistencial e a natureza clínico-epidemiológica implicada nessas produções situa a problemática da criança que têm HIV/AIDS na categoria teórico-analítica da fragilidade clínica, por sua imunodeficiência e o maior risco de adoecimento.36 Desde o início da vida, apresentam necessidades especiais de saúde, com múltiplas demandas de cuidados a partir dos serviços de saúde e de seus familiares cuidadores, em especial, de acompanhamento multiprofissional permanente em serviço de saúde especializado e de dependência de medicamentos.37

No Brasil, esses fatores de saúde as incluem no grupo de crianças com necessidades especiais de saúde (CRIANES).38-40 A infância dessas crianças é vivenciada em meio aos desafios da exposição à infecção pelo HIV, da imunodeficiência, das manifestações sintomatológicas da doença, da morbidade e mortalidade por AIDS ou co-infecções e das (re)internações hospitalares.41 Entre outras questões associadas ao adoecimento, soma-se a necessidade de um cotidiano de terapia medicamentosa, cuja adesão ao tratamento é imperativo para alcançar-se efetividade e que repercute em efeitos colaterais e limites terapêuticos.42

Na temática HIV/AIDS na faixa etária da adolescência, a tendência preventiva de natureza sociocultural mostra coerência ao contexto em que a epidemia inseriu-se neste extrato da população. Essas especificações revelaram a preocupação com o desenvolvimento de ações preventivas diante das principais categorias de exposição nessa população, quais sejam sexual e uso de drogas injetáveis. Seguiram-se os investimentos em políticas de prevenção em populações de maior vulnerabilidade, política de redução de danos e ações educativas relacionadas ao sexo protegido, a fim de reduzir os índices de morbidade e mortalidade. Os estudos buscam compreender as representações, os comportamentos, os sentimentos, as relações e as informações dos adolescentes a fim de propor estratégias de prevenção da transmissão do HIV.43,44 Entre os adolescentes pauta-se a discussão de sua vulnerabilidade, especialmente no que se refere à sexualidade, ao uso de drogas e a violência.45 Essas situações de risco marcam essa fase do desenvolvimento humano.46

A tendência preventiva de natureza sociocultural, implicada nessas produções, situa a problemática dos adolescentes que têm HIV/AIDS na categoria teórico-analítica da vulnerabilidade social.47 As necessidades deste segmento populacional contemplam as demandas da transição de fase do desenvolvimento humano;48 ampliação do ambiente de relações interpessoais do círculo familiar em direção aos grupos de pares;49 o acesso aos serviços de saúde;50 acesso às informações sobre sexualidade, meios de prevenção do HIV/AIDS, entre outros.51

 

CONCLUSÃO

Os resultados evidenciaram que os estudos na infância são de tendência assistencial e natureza clínico-epidemiológica em comparação àqueles que retratavam a adolescência que são de tendência preventiva e natureza sociocultural. A análise das especificidades da produção científica nacional de HIV/AIDS na infância e na adolescência, publicadas entre 1983 e 2010, apontaram que alguns artigos dialogam com as políticas públicas, de ações de proteção, prevenção, assistência e vigilância epidemiológica. O estatuto do conhecimento conferiu visibilidade para novas questões necessárias ao desenvolvimento de investigações científicas, ampliando o conjunto de conhecimento dessa área.

A influência das políticas públicas brasileiras é a expressão da parceria estabelecida entre o governo e sociedade civil, no enfrentamento da síndrome. A ampliação de prevenção e assistência permitiu a facilidade de acesso à saúde, a garantia de acesso aos insumos de prevenção e a eficiência na abordagem de populações específicas e de minorias. Esses resultados da política brasileira estão evidentes nas produções científicas na temática HIV/AIDS na infância e na adolescência. Quanto ao estatuto do conhecimento, o conjunto de produções investigou crianças infectadas e adolescentes expostos e apontou a possibilidade de se repensar as crianças e os adolescentes que têm HIV/AIDS como parte do grupo de CRIANES por sua fragilidade clínica e vulnerabilidade social.

A recorrência epistemológica dos estudos refletiu avanços e ampliou conhecimentos acerca das dimensões clínico-epidemiológica, sociocultural e política, sem, entretanto, contemplar a dimensão existencial do ser-criança e do ser-adolescente que tem HIV/AIDS. Nesse sentido, evidenciou-se uma necessidade de continuar desenvolvendo investigações relativas à fase da infância e da adolescência, tanto daqueles que têm HIV/AIDS quanto dos vulneráveis a infectarem-se em suas múltiplas dimensões. Além de dar continuidade aos estudos que investigam, nessa população de estudo, a adesão ao tratamento e a revelação diagnóstica, destaca-se a necessidade de conferir visibilidade às outras questões: a presença e influência das ONGs na atenção à saúde e aos direitos das crianças e dos adolescentes que tem HIV/AIDS; a vigilância epidemiológica de AIDS em crianças e adolescentes; os adolescentes já infectados ou doentes e as crianças que tem AIDS por transmissão vertical e que estão na transição da infância para a adolescência.

As limitações do estudo referem-se à utilização de duas bases de dados, à estratégia de busca que leva a uma visão de campo convergente com o recorte e à análise da produção nacional.

 

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Abstract : 502

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