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ARTIGO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE/ ARTÍCULO ORIGINAL

 

Temas e situações que ocasionam vergonha aos participantes em investigações que utilizam questionários ou entrevistas

 

Themes and situations that cause embarrassment among participants in research in which questionnaires or interviews are used

 

Temas y situaciones que ocasionan vergüenza a los participantes en investigaciones que utilizan cuestionarios o entrevistas

 

 

 

Juliana Dias Reis Pessalacia1; Cléa Regina de Oliveira Ribeiro2; Dinéia Massuia3

 

1 Enfermeira, Doutora, Professora Universidade Federal de São João del Rei, Divinópolis (MG), Brazil. email: juliana@pessalacia.com.br.

2 Filósofa, Doutora, Professora retirada. University of São Paulo São Paulo, São Paulo (SP), Brazil. email: clearib@terra.com.br.

3 Enfermeira. Centro Universitário de Rio Preto, São José do Rio Preto (SP), Brazil. email:dineiamassuia@hotmail.com.

 

Fecha de Recibido: 28 de abril de 2012. Fecha de Aprobado: 19 de septiembre de 2012.

 

Artículo asociado a investigación: Bioética e pesquisa: percepção dos sujeitos de pesquisa acerca de assuntos e situações constrangedoras em pesquisas com questionamentos

Subvenciones: ninguna.

Conflicto de intereses: ninguno.

Cómo citar este artículo: Pessalacia JDR, Ribeiro CRO, Massuia D. Themes and situations that cause embarrassment among participants in research in which questionnaires or interviews are used. Invest Educ Enferm. 2013;31(1): 70-77.

 


RESUMO

Objetivo. Reconhecer os temas e as situações que poderiam ocasionar vergonha nos participantes de investigações nas que utilizam questionários ou entrevistas. Metodologia. Estudo quantitativo de tipo descritivo realizado em 2008, no que se fez amostragem estratificada de 1,149 sujeitos que qualificaram o grau de vergonha ante temas e situações potencialmente embaraçosas. Resultados. Para os interrogados é embaraçoso responder perguntas relacionadas com os temas de: traição (50%), violência física (42%), acosso sexual (42%), violência psicológica (40%) e morte de pessoas próximas (38%). As situações que mais freqüentemente produziram vergonha foram: início da enquete ou entrevista sem solicitar o consentimento informado (83%) a falta de informação sobre o tipo de perguntas que seriam abordadas (79%), a falta de garantia do anonimato (78%), ou o uso de imagens (66%) ou de gravadora (58%). Conclusão. Identificaram-se temas e situações que ocasionavam vergonha nos participantes de e investigações que utilizam questionários ou entrevistas, os que deveriam ser tidos em conta na avaliação ética dos estudos.

Palavras chaves: bioética; ética em pesquisa; coleta de dados.


ABSTRACT

Objective. To recognize the themes and situations that could make research participants feel embarrassed when questionnaires or interviews are used. Methodoly. Quantitative and descriptive study, developed in 2008, involving a stratified sample of 1,1149 subjects who qualified the degree of shame in view of potentially embarrassing themes and situations. Results. For the research participants, it is embarrassing to answer questions related to the following themes: betrayal (50%), physical violence (42%), sexual harassment (42%), psychological violence (40%) and death of loved ones (38%). The situations that most frequently causes embarrassment were: start of the survey or interview without requesting informed consent (83%); lack of information about the type of questions that would be addressed (79%), lack of guaranteed anonymity (78%), or use of images (66%) or a recorder (58%). Conclusion. Themes and situations were identified that caused embarrassment among participants in research in which questionnaires or interviews were used, which should be considered in the ethical evaluation of studies.

Key words: bioethics; ethics, research; data collection.


RESUMEN

Objetivo. Reconocer los temas y las situaciones que podrían ocasionar vergüenza en los participantes de investigaciones en las que utilizan cuestionarios o entrevistas. Metodología. Estudio cuantitativo de tipo descriptivo realizado en 2008, en el que se hizo muestreo estratificado de 1 149 sujetos, quienes calificaron el grado de vergüenza ante temas y situaciones potencialmente embarazosas. Resultados. Para los encuestados es embarazoso responder preguntas relacionadas con los siguientes temas: traición (50%), violencia física (42%), acoso sexual (42%), violencia psicológica (40%) y muerte de personas cercanas (38%). Las situaciones que produjeron frecuentemente vergüenza fueron: inicio de la encuesta o entrevista sin solicitar el consentimiento informado (83%), la falta de información sobre el tipo de preguntas que serían abordadas (79%), la falta de garantía del anonimato (78%), el uso de imágenes (66%) o de grabadora (58%). Conclusión. Los temas y situaciones que ocasionan vergüenza en los participantes de investigaciones que utilizan cuestionarios o entrevistas deberían ser tenidos en cuenta en la evaluación ética de los estudios.

Palabras clave: bioética; ética en investigación; recolección de datos.


 

 

INTRODUÇÃO

é frequente na enfermagem e nos campos de pesquisa das ciências humanas, sociais e em várias áreas da saúde, a utilização de instrumentos de pesquisa contendo questionamentos, tais como os questionários e entrevistas. Entretanto, em pesquisas, muitas vezes não se considera o limite ético no manejo destes instrumentos, no sentido de se valorizar os possíveis riscos para os participantes de uma investigação. Pensa-se que o risco para tais sujeitos, ao contrário de uma investigação clínica, é quase nulo, uma vez que não envolve danos físicos. Além disso, estima-se que é difícil definir e medir o dano potencial, ou seja, avaliar os seus efeitos de longo prazo.1 Deste modo, parece não estar muito clara para os pesquisadores a importância da reflexão sobre estes tipos de instrumentos de coleta (questionários ou entrevistas) como possíveis geradores de riscos de ordem não física (psicológicos, morais, sociais, espirituais). Assim, a aplicação de tais instrumentos a sujeitos de pesquisa, pode propiciar danos, desconfortos e constrangimentos.

Em um estudo realizado junto a pesquisadores acerca da percepção sobre o risco na utilização de questionários e entrevistas em pesquisas foi identificado que os pesquisadores acreditam que a palavra 'risco' seja muito forte para os participantes de pesquisa e geralmente é associada a riscos físicos e relação entre vida e morte. Somente algumas vezes foram citadas possibilidades de riscos morais, emocionais e sociais.2 Ao falar de risco fica inevitável a sua relação com a dimensão física, porém, prever apenas os prejuízos de natureza física é também não conceber o ser humano como indivíduo social, apropriado de valores, cultura, crenças e emoções.2 Cabe ressaltar que, possibilidade de risco é viável para qualquer tipo de assunto abordado em pesquisas. Dependendo do contexto ao qual o sujeito encontra-se inserido e, quando da abordagem de temas que levem os mesmos a compartilhar aspectos pessoais e frequentemente íntimos de suas vidas, a possibilidade de constrangimento pode ser maior. Também se incluem os temas sobre fatos que interfiram profundamente na vida ou nas experiências pessoais presentes ou passadas das pessoas.3 Além disso, devem ser consideradas as condições de vulnerabilidade circunstancial dos sujeitos de pesquisa. A vulnerabilidade pode ser descrita como a incapacidade de uma pessoa proteger os seus próprios interesses por causa de impedimentos4 onde a principal característica seria a limitação da capacidade ou liberdade.5 Contudo, não somente a condição do sujeito e o tipo de assunto podem influenciar no risco de constrangimento, mas também a própria condição a qual se dá a pesquisa, destacando-se a questão da falta de informação esclarecida, sigilo, anonimato e respeito à privacidade dos sujeitos. O impacto provável decorrente da utilização de questionários ou entrevistas sobre os pacientes frequentemente não são considerados e consequentemente, o balanço entre benefício e dano não são inteiramente explorados.6

Dado que o foco deste estudo são as situações e temas que possam trazer riscos a sujeitos de pesquisa, sendo utilizado como parâmetro para a avaliação de risco o grau de constrangimento, cabe explicitar algumas concepções do termo 'constrangimento'. Constrangimento, também denominado desconcerto, é um construto central quando se trata de conhecer aspectos ligados aos sentimentos. Podemos afirmar que o sentimento de constrangimento influencia em muitos dos comportamentos dos sujeitos, em diferentes culturas. O sentimento de constrangimento representa uma experiência ou um estado emocional que pode ser expresso como uma forma de ansiedade social, relacionada à timidez e vergonha, resultante da perspectiva ou avaliação dos outros em situação real ou imaginária.7 O constrangimento pode ser percebido como resultado da preocupação que as pessoas manifestam acerca do seu comportamento observado e o desejo de agir segundo as expectativas e os interesses dos demais. Compreende uma resposta psicológica e também fisiológica, resultante dos efeitos de contrariar as demandas sociais.7 Assim, tomando-se por base o conceito de constrangimento, não se pode deixar de lado o fato de que qualquer intervenção, mesmo sendo no campo psíquico ou social, poderá mobilizar conteúdos com os quais o sujeito pode ainda não estar disposto a entrar em contato.8 O presente estudo objetivou identificar e comparar questões e situações de risco em pesquisas com questionamentos (questionários e/ou entrevistas) a partir da avaliação do 'grau de constrangimento' atribuído por possíveis sujeitos de pesquisa subdivididos nos grupos: vulnerável e não vulnerável.

 

METODOLOGIA

Tratou-se de um estudo prospectivo, transversal, de abordagem quantitativa e de cunho descritivo. A coleta de dados foi realizada em setores de um hospital de porte especial, localizado na região noroeste do estado de São Paulo, Brasil. Os sujeitos foram selecionados através da técnica de amostragem estratificada proporcional ao tamanho da população. Foi abordado um total de 1 149 (100%) sujeitos abrangendo os seguintes grupos: vulnerável: paciente oncológico (201, 17.5%), funcionário de enfermagem de setor crítico (44, 3.8%), aluno de graduação (209, 182%), gestante (200,17,4%), puérpera (96, 8.4%), acompanhante de paciente oncológico (200, 17.5%) e não vulnerável: transeunte (199, 17.3%).

A escolha das populações vulneráveis baseou-se nas condições de vulnerabilidade descritas na resolução brasileira sobre normas éticas em pesquisas com seres humanos. A citada resolução descreve como critérios, os casos em que haja qualquer restrição à liberdade ou ao esclarecimento necessário e os casos onde os sujeitos estejam expostos a condicionamentos específicos ou à influência de autoridade.9 Tal escolha também se baseou em um estudo o qual identificou tais populações como as mais frequentemente abordadas em pesquisas de profissionais enfermeiros.10 Já a população não vulnerável não poderia apresentar nenhuma das condições de vulnerabilidade determinadas na citada resolução. A população não vulnerável foi abordada em uma praça pública próxima a um centro comercial do município onde foi realizada a pesquisa. Para a abordagem das populações, foi elaborado um roteiro específico, a partir dos pressupostos encontrados na literatura acerca do tipo de assuntos ou situações as quais poderiam ser constrangedoras para os sujeitos de pesquisa e contendo os itens necessários para o alcance dos objetivos almejados.

Antes de se iniciar a coleta de dados, o projeto de pesquisa foi avaliado e aprovado pelo Comitê de ética em Pesquisa (CEP), parecer de aprovação no 037/2007, da instituição onde foram coletados os dados junto às populações vulneráveis. Após aprovado, foi realizado um estudo piloto junto a 10 sujeitos, com o intuito de testar a aplicabilidade do instrumento, no que diz respeito a seu conteúdo, clareza e entendimento, visando o aprimoramento e adequação do mesmo. Cabe ressaltar que tal instrumento se constituiu em uma simulação de pesquisa, ou seja, o sujeito foi abordado da seguinte maneira: Se o Sr/Srª fosse convidado a participar de uma pesquisa, quais dos assuntos e situações abaixo o (a) deixaria mais constrangido (a) em responder/falar sobre. Assim, o (a) sujeito pôde apontar que tipos de assuntos/questões e/ou situações em pesquisas com questionamentos poderiam o (a) deixar constrangido (a), sem precisar falar sobre eles. As respostas identificadas foram classificadas nas categorias: 1: Não constrangedor, 2: Pouco constrangedor, 3: Constrangedor, 4: Muito Constrangedor e posteriormente discutidas segundo dados encontrados na literatura, apontando para aquelas respostas que mais chamaram a atenção.

Para a análise estatística dos dados recorreu-se à distribuição de frequência absoluta e percentual, Teste Z para comparação de duas proporções e Teste Qui Quadrado para comparação de mais de duas proporções. Os dados foram analisados, considerando-se o nível de significância de 0.05, dado a dispersão do fenômeno estudado. O software estatístico utilizado para a análise foi o Minitab, versão 14.

 

RESULTADOS

Ao aplicarmos um roteiro contendo questões e situações de sensibilidade a possíveis sujeitos de pesquisa [N=1 149 (100%) sujeitos] subdivididos nos grupos Vulnerável e Não-Vulnerável, nos deparamos com alguns assuntos/ situações apontados como causadores de maior constrangimento ao se falar em pesquisas, em ambos os grupos, sendo os resultados apresentados a seguir: traição (575, 50.0%), violência física (499, 43.4%), provocação sexual no trabalho (482, 41.9%), abuso sexual (468, 40.7%), violência psicológica (458, 39.9%) e morte de pessoas próximas (438, 38.1%). Também foram identificados como assuntos de potencial constrangimento: comportamento sexual (777, 67.6%); doenças sexualmente transmissíveis -DSTs- (708, 61.6%), número de relações sexuais/semana (666, 58.0%), Número de parceiros sexuais (659, 57.4%), dificuldades sexuais (575, 50.0%) e questões sobre comportamento amoroso (551, 48.0%). Tais resultados foram identificados a partir da junção das categorias constantes no instrumento de coleta constrangedor e muito constrangedor. Cabe ressaltar ainda, que cada sujeito poderia marcar no instrumento mais de um item.

Nota-se que o assunto Traição foi citado como de potencial constrangimento por grande parte dos sujeitos (575, 50.0%), contudo, o resultado do Teste Z para comparação de proporção entre gênero, para cada situação de estado civil e segundo os graus constrangedor e muito Constrangedor não identificou diferença significativa (p>0,05) ao falar sobre tal assunto entre homens e mulheres e em diferentes estados civis. As questões envolvendo sexualidade humana foram citadas pelos sujeitos como as de maior constrangimento ao se falar em pesquisas. Os resultados do teste Z para comparação de proporção entre gênero (feminino e masculino) segundo os graus muito constrangedor e constrangedor para os assuntos comportamento sexual, número de parceiros sexuais e número de relações sexuais, mostraram que o grau de constrangimento foi significativamente maior (p< 0.05) para o gênero feminino. Comparou-se ainda, através do Teste Z, percentuais de constrangimento entre católicos apostólicos (692, 60.2%) e protestante/evangélicos (240, 20.9%), para o assunto de comportamento sexual, não sendo identificada diferença significativa (p >0.05) de constrangimento para as duas religiões. A escolha de tais religiões deveu-se à suas maiores frequências absolutas identificadas no estudo.

Os resultados do teste Qui Quadrado para comparação entre três populações (vulnerável paciente oncológico, vulnerável acompanhante de paciente oncológico e não vulnerável transeunte) para os assuntos de acidente grave, experiência de doença, doença de seu familiar, doença de algum amigo, internação e morte de pessoas próximas, evidenciaram que, na população estudada, não houve diferença significativa (p>0.05) no grau de constrangimento para as populações vulneráveis (paciente e acompanhante) e não vulnerável. Contudo para a população vulnerável acompanhante de paciente oncológico e população vulnerável paciente oncológico foi identificada diferença (p<0.05) significativa, evidenciando maior constrangimento para a primeira população. Foram realizados testes estatísticos com o intuito de comparar graus de constrangimento, considerando-se os grupos vulnerável e não vulnerável. No entanto, os testes comparativos aplicados não evidenciaram diferença significativa de constrangimento entre as citadas populações.

Ainda identificou-se neste estudo, maior constrangimento decorrente das condições do local onde poderia ocorrer a entrevista ou questionamento, sendo citadas as seguintes situações: o pesquisador iniciar a pesquisa sem solicitar a autorização do sujeito (956, 83.3%), a falta de informação prévia quanto ao tipo de questões a serem abordadas (902, 78.6%), a falta de garantia de sigilo e anonimato (895, 78.0%), o uso de imagens (757, 65.9%) e o uso de gravador (668, 58.2%).

 

DISCUSSÃO

O assunto traição foi citado como de potencial constrangimento por grande parte dos sujeitos. A literatura aponta que a questão da traição apresenta uma relação importante com as mudanças ocorridas no conceito de 'casamento'. A valorização do amor e da fidelidade como elementos fundamentais para o casamento vem sofrendo alterações decorrentes do advento do capitalismo e da disseminação de uma ideologia liberal e feminista.11 Portanto, tal liberalismo pode estar associado ao aumento dos índices de traição. Contudo, os resultados do teste estatístico comparativo de gênero para o assunto, não evidenciou diferença significativa de constrangimento para homens e mulheres. Deste modo, observamos a partir dos resultados que, embora o liberalismo e o feminismo tenham propiciado um aumento nos índices de traição, o assunto ainda é considerado constrangedor para ambos os sexos.

O assunto violência também foi citado com frequência pelos participantes. Conceitua-se a 'violência', como o emprego de força física capaz de sobrepujar a força da vítima e por 'ameaça' a promessa de efetuar tamanho mal. A literatura ainda aponta que sua verdadeira incidência é desconhecida, acreditando-se ser uma das condições de maior subnotificação e sub-registro em todo o mundo.12 Desta maneira, os resultados deste estudo sugerem que uma das possíveis causas da subnotificação poderia ser o fato de os sujeitos se sentirem constrangidos por tal situação. No entanto, ressalta-se a importância de se realizar estudos complementares sobre as causas reais desta subnotificação. Outro assunto citado foi a provocação sexual no trabalho. A literatura aponta que tal prática tem sido recorrente nos últimos anos, aparecendo na mídia em geral, nas reivindicações de várias categorias de trabalhadores e na literatura especializada.13 Deste modo, os resultados deste estudo vão ao encontro dos dados da literatura, visto que, embora os trabalhadores se sintam constrangidos vêm ocorrendo espaços de discussão e mobilização no sentido de controlar tal situação.

Destaca-se que as questões envolvendo comportamento sexual e amoroso foram as mais citadas como de potencial constrangimento em pesquisas. E, quanto à aplicação do teste Z para comparação de proporção entre gênero (feminino e masculino) para os assuntos Comportamento Sexual, Número de Parceiros Sexuais e Número de Relações Sexuais por Semana, evidenciou-se que o constrangimento foi maior para o gênero feminino no grupo estudado. Tais resultados podem ser relacionados ao entendimento da sexualidade humana como uma produção da cultura e não um instinto biologicamente determinado. Nesse contexto, produz-se a representação de que a sexualidade feminina é passiva, dirigida ao prazer dos homens e que o prazer sexual não só não é um componente necessário, mas é um componente dispensável para a procriação.14 Outro assunto que apresentou um alto índice de constrangimento foi as DSTs e, tais resultados corroboram com os encontrados na literatura, visto que, adquirir uma Doença Sexualmente Transmissível (DST) pode provocar sofrimento intenso aos sujeitos. Esse sofrimento se objetiva na sintomatologia da doença e tratamento, na culpa por ter infectado o companheiro e nas repercussões na sua vida afetiva e sexual. Ter uma doença sexual é uma situação de desconforto e incômodo. As DSTs são repletas de valores sociais e culturais negativos. O estigma é muito forte e os sujeitos têm vergonha por terem adquirido uma DST.15

Torna-se relevante discutir os resultados do teste Qui Quadrado para comparação entre as populações vulnerável Paciente oncológico e vulnerável Acompanhante de paciente oncológico onde foi identificado que, para a população estudada, o acompanhante de paciente poderia se sentir mais incomodado/constrangido ao falar sobre assuntos relacionados a acidentes, internação ou morte, do que a população paciente. Quanto a isto, a literatura descreve que ainda que a finitude seja inerente à vida, o homem ocidental ainda tem a morte como uma de suas maiores preocupações. Aceitar a morte do outro frequentemente tem sido apontado como mais problemático, visto que, a perda pode se tornar uma provação, tanto para quem a enfrenta como para os circunstantes, que muitas vezes não sabem o que fazer. O luto é uma experiência complexa que pode transcender o âmbito individual.16

Outro dado que nos chama a atenção é o de que a maioria dos resultados dos testes estatísticos comparativos não evidenciou diferença significativa de constrangimento para os grupos vulnerável e não-vulnerável. Supomos, que o fato de não haver diferença de constrangimento entre tais categorias, deva-se ao caráter dinâmico e contínuo da experiência de vulnerabilidade, a qual não representa uma sequência de acontecimentos lineares, mas, sim, repetitivos e interativos, permitindo que haja alternância em relação às consequências.17 Assim, os sujeitos identificados como não vulneráveis circunstancialmente pelos critérios propostos na resolução brasileira sobre ética em pesquisa com seres humanos, poderiam no momento de responder ao instrumento de coleta se encontrar em outros tipos de circunstâncias pessoais ou sociais desfavoráveis, assim como, os vulneráveis poderiam apresentar tais condições em menor intensidade.

Os dados ainda indicam que as situações as quais os sujeitos se encontram expostos nas pesquisas com questionamentos, podem culminar em maior constrangimento. Os resultados evidenciaram que o risco de constrangimento está, principalmente, relacionado à falta de informação e consentimento/autorização e esclarecimento por parte dos pesquisadores aos sujeitos participantes. Cabe destacar que tais riscos podem ser minimizados ou mesmo extintos através de uma adequada aplicação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em pesquisas. A eticidade de uma pesquisa implica, primeiramente, no consentimento livre e esclarecido dos indivíduos salvo e a proteção a grupos vulneráveis e aos legalmente incapazes. Para isso deve ser elaborado um termo, utilizando uma linguagem acessível, incluindo todas as informações relacionadas ao estudo e oferecendo total liberdade ao sujeito de se recusar a participar ou retirar o seu consentimento. O ato de consentimento deve ser genuinamente voluntário e basear-se na revelação adequada das informações.18 19 >

Antes de iniciar a coleta de dados, portanto, o pesquisador deverá esclarecer devidamente os sujeitos quanto ao tipo de questões as quais poderão ser abordadas e caso o participante não se sinta a vontade em conversar sobre tais assuntos, o pesquisador deve garantir ao mesmo a liberdade de retirar-se do estudo a qualquer momento. Deste modo, o risco de constrangimento decorrente da participação na pesquisa pode ser minimizado ou extinto pela vontade expressa de não participar.20 Os participantes também atribuíram níveis elevados de constrangimento à questão da falta de garantia de sigilo e anonimato em pesquisa. Cabe ressaltar a diferença existente entre anonimato e confidencialidade. No anonimato o pesquisador é incapaz de estabelecer ligação entre os dados e os sujeitos de pesquisa a que eles se referem, já na confidencialidade, embora o pesquisador possa estabelecer ligação entre ambos, assume o compromisso de não revelá-los. 21 Também foi citado como constrangedor a questão do uso de imagens ou gravações em pesquisas. Contudo, sabe-se que tais métodos são de extrema importância em pesquisas observacionais e fenomenológicas e que se tomadas às devidas medidas de prevenção, tais constrangimentos podem ser praticamente nulos. A recomendação principal é a de que o sujeito seja previamente esclarecido sobre o objetivo do uso de tais imagens ou gravações e de como serão realizadas e deixar claro que o mesmo poderá se retirar da pesquisa no momento que desejar.22 Assim destaca-se a importância de se analisar as diferenças entre os projetos de pesquisa de natureza clínica e farmacológica e ciências humanas ou sociais, para mostrar a especificidade destes últimos, ameaçados na sua diversidade e em sua metodologia pela hegemonia biomédica e experimental.1

Ressalta-se ainda, que a definição da resolução brasileira não identifica sua sustentação nos paradigmas do positivismo, e afirma que as disposições da mesma devem ser aplicadas a todos os tipos de pesquisas envolvendo seres humanos. Assim, o leitor, e especialmente os comitês éticos são deixados com a impressão falsa de que há uma única maneira de realizar a investigação científica, e a isso, a definição é aplicável.23

Conclusão. Apesar deste estudo não ter esgotado a análise de todos os possíveis assuntos e situações de constrangimento ou risco em pesquisas com questionários e/ou entrevistas e, tampouco ter explorado tais riscos mediante várias outras condições de vulnerabilidade circunstanciais não abordadas neste estudo, dado a diversidade de tais questões e populações, ele traz importantes apontamentos acerca dos riscos em pesquisas que lançam mão de tais instrumentos. Portanto, a identificação de assuntos ou situações de risco em pesquisas com questionários e/ou entrevistas torna-se relevante para a Enfermagem, visto que, a mesma utiliza tais instrumentos com frequência em suas pesquisas, e também para o campo da ética em Pesquisa, por possibilitar que pesquisadores e CEPs lancem mão de subsídios para uma melhor análise ética das pesquisas, contrapondo riscos e benefícios.

 

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Abstract : 347

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