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ARTÍCULO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE / ARTIGO ORIGINAL

 

Do "ser para si" ao "vir a ser": sobre o desenvolvimento ou a construção da autonomia do acadêmico de enfermagem

 

From "being to the self" to "become to be": on development of autonomy construction in nursing students

 

Del "ser para sí" al "llegar a ser": sobre el desarrollo o la construcción de la autonomía del alumno de enfermería

 

 

Roberta Waterkemper1; Marta Lenise do Prado2; José Luis Medina-Moya3; Vânia Marli Schubert Backes4

 

1Enfermeira, Doutora. Professora Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre -FCSPA-, Brasil. email: robswater@gmail.com.

2Enfermeira, Doutora. Professora Universidade Federal de Santa Catarina –UFSC-, Brasil. email: mpradop@nfr.ufsc.br.

3Enfermeiro, Doutor. Professor Universitat de Barcelona, Espanha. email: jlmedina@ub.edu.

4Enfermeira, Doutora. Professora UFSC, Brasil. email: oivania@nfr.ufsc.

 

Fecha de Recibido: Febrero 2, 2013. Fecha de Aprobado: Octubre 7, 2013.

 

Artículo vinculado a investigación: Formação crítica e criativa em enfermagem: Um estudo de caso da disciplina de fundamentos para o cuidado profissional de enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina.

Subvenciones: Conselho Nacional de Tecnologia e Pesquisa (CNPq) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Conflicto de intereses: ninguno.

Cómo citar este artículo: Waterkemper R, Prado ML, Moya-Medina JL, Backes VMS. From "being to the self" to "become to be": on development of autonomy construction in nursing students. Invest Educ Enferm. 2014;32(1): 33-40.

 

DOI: 10.17533/udea.iee.v32n1a04

 


RESUMO

Objetivo. Compreender a consciência de si (aluno de enfermagem) e sua autonomia na matéria de Fundamentos para o Cuidado Profissional (FCP), no contexto de uma proposta pedagógica liberadora. Metodologia. Trata-se de uma investigação qualitativa na modalidade de estudo de caso fundamentado no modelo de Ludke e André. Participaram 14 alunos da matéria FCP. Para a recolha da informação se utilizou a observação não participante e a análise documentário. A observação de campo foi realizada de março a julho de 2010 e a recolha dos porta-fólios foi em julho do mesmo ano. Fez-se análise de conteúdo de acordo em três fases de acordo à proposta de Minayo: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Resultados. Foram construídas duas unidades temáticas de análises: do ser para si e o exercício de chegar a ser. Conclusão. Conclusão. Os estudantes de enfermagem, na medida em que se sentem livres têm a oportunidade de substituem a imagem atemorizante da nova aprendizagem por algo que motiva sua curiosidade, o que os leva a ser sujeitos autônomos.

Palavras chaves: consciência; autonomia pessoal; estudantes de enfermagem; educação superior.


ABSTRACT

Objective. To understand nursing student's self-consciousness and his/her autonomy in the discipline of fundamentals of professional care in the context of a liberating pedagogical proposal. Methodology. This qualitative, case-based research in the model of Ludke and André involved 14 students participating in the discipline. Data were collected by non-participatory observation and analysis of documents. Field observation was conducted from March to July 2010 and data were collected according to the proposal of Minayo: pre-analysis, exploration of material and treatment of results. Results. We constructed two thematic units of analysis: from "being to the self" and exercise of "become to be". Conclusion. When nursing students feel more liberty, they have the opportunity to substitute the scary prospect of learning something new material to something that motivates their curiosity and leads them to become more autonomous.

Key words: conscience; personal autonomy; students, nursing; education, higher.


RESUMEN

Objetivo. Comprender la consciencia de sí mismo (alumno de enfermería) y su autonomía en la asignatura de Fundamentos para el Cuidado Profesional (FCP), en el contexto de una propuesta pedagógica liberadora. Metodología. Investigación cualitativa en la modalidad de estudio de caso fundamentado en el modelo de Ludke y André. Participaron 14 alumnos de la asignatura FCP. Para la recolección de la información se utilizó la observación no participante y el análisis documental. La observación de campo fue realizada de marzo a julio de 2010 y la recolección de los portafolios fue en julio del mismo año. Se hizo el análisis de contenido de acuerdo con tres fases según la propuesta de Minayo: preanálisis, exploración del material y tratamiento de los resultados. Resultados. Fueron construidas dos unidades temáticas de análisis: del ser para sí y el ejercicio de llegar a ser. Conclusión. Los estudiantes de enfermería, en la medida en que se sienten libres, tienen la oportunidad de reemplaza la imagen atemorizante del nuevo aprendizaje por algo que motive su curiosidad, lo que los lleva a ser sujetos autónomos.

Palabras clave: conciencia; autonomía personal; estudiantes de enfermería; educación superior.


 

 

INTRODUÇÃO

A atitude ou perfil do profissional que deseja construir, independente do nível de formação formal e que se apresenta nos projetos político-pedagógicos e nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) no Brasil é o alcance da formação de um aluno com atitude/perfil crítico traduzido pela autonomia, capacidade de tomada de decisão, resolução de problemas, capacidade de comunicação, relacionamento interpessoal entre outras características.1-3 O grande desafio no processo formativo consiste na implementação de propostas pedagógicas que desenvolvam processos de ensinar e aprender capazes de fomentar a construção e o amadurecimento de tais atitudes nos alunos.

Na literatura dentre os principais métodos de ensino destacados para o desenvolvimento da atitude crítica, pensamento crítico para um agir autônomo estão os ambientes de simulação clínica associados ao uso da tecnologia da informação (TI), assim como os ambientes virtuais de aprendizagem-AVA.4,5 Propostas consideradas inovadoras e que configuram um novo contexto de ensinar e aprender revelam contribuir para a autonomia do aluno por meio da tomada de decisão.4 Novas propostas de ensinar e aprender desafiam tanto o aluno quanto o professor. Isto porque, eles fizeram parte de um modelo de ensino tradicional em que ambos tinham papéis específicos e separados, ou seja, o de ensinar pelo professor e o de aprender pelo aluno, sem a necessidade de uma interação e participação conjunta entre ambos.6-8 Por isso, para o aluno sair da posição de receptor do conhecimento para protagonista deste processo é um grande desafio. Isso, muitas vezes, impede escolas de arriscarem-se pelo medo que a escola tradicional impõe ao exigir êxito como sinônimo de certeza.9

Para ser o protagonista e exercer a autonomia esta precisa ser construída através da liberdade a qual possibilita preencher "o "espaço" antes "habitado" por sua dependência" e que "se funda na responsabilidade que vai sendo assumida".10,11 Na medida em que se sente livre e se percebe livre, ou seja, é consciente de si no mundo da escola desenvolve a capacidade de tomar decisões diante do que experimenta. Esta consciência surge a partir da consciência epistemológica, a qual o homem (Homem no sentido genérico como usa Freire, para manter fidedignidade com os escritos do autor) desenvolve a partir de sua consciência ingênua, por meio de uma percepção mais centrada. O homem pode ser consciente de duas formas: pela consciência ingênua e pela consciência epistemológica. A consciência ingênua é aquela que é natural ao homem e que faz parte de seu processo cognitivo. É a forma de percepção de mundo sem um olhar mais profundo sobre si e seu mundo. É uma percepção de apenas ser. Já pela consciência epistemológica o homem percebe-se como sujeito no mundo mutável, com possibilidades de mudança por sua própria ação, a qual surge da necessidade de agir por sua condição de inacabado.9-11

Diante desta necessidade, no mundo educacional, a partir do ano de 2005 as docentes da Disciplina de Fundamentos para o Cuidado Profissional do Curso de Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC vem desenvolvendo uma nova proposta pedagógica, a partir do referencial da pedagogia crítica e a adoção de metodologias ativas de ensino. Os docentes buscam com esta proposta desenvolver novas habilidades no aluno para Aprender a aprender através do estímulo a busca e avaliação crítica de dados e informações através de livros, periódicos, bases de dados, fontes pessoais de informação, incluindo a própria experiência; Sucessivas aproximações com níveis de complexidade crescente; Aprender fazendo para o desenvolvimento de habilidades psicomotoras e de atitudes ao longo da disciplina, articulada com a produção de conhecimento, através da ação-reflexão-ação vinculados aos cenários da prática e a busca de informações de forma sistematizada e relacionada. Esses compreendem que o aprender parte da curiosidade do aluno que em meio ao espaço de liberdade toma as decisões sobre o seu aprendizado. Desenvolvem junto aos alunos, ao longo do semestre, três unidades de conhecimento (UC) que visam o atendimento do programa teórico da disciplina. Cada UC é desenvolvida através de atividades como: discussões em pequeno grupo (DPG), vivências no cenário do cuidado (VCC), socialização, estudos independentes, simulação em laboratório de práticas clínicas e desenvolvimento de porta-fólio tendo como eixo norteador a problematização.

Frente a isso, este estudo busca analisar como a autonomia do graduando de enfermagem é desenvolvida no processo de construção do conhecimento na Disciplina de Fundamentos para o Cuidado Profissional (DFCP), no contexto de uma proposta pedagógica libertadora, a partir da consciência de si (aluno) no mundo (DFCP). O suporte teórico-filosófico utilizado para analisar este processo foi o pensamento de Freire sobre educação libertadora. O estudo deste tema demonstra ser relevante para a educação em enfermagem e a formação do futuro enfermeiro por destacar possibilidades sobre o processo de ensinar e aprender, principalmente, a partir da perspectiva do aluno, contribuindo para a própria reflexão crítica do docente e a construção de mudanças criativas na prática pedagógica.

 

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa qualitativa na modalidade de estudo de caso.12 Participaram deste estudo 14 alunos da DFCP. Para a coleta de informações utilizou-se a observação não participante e análise documental, respectivamente. A observação de campo foi realizada no período de março a julho de 2010. Em seguida foi realizada a coleta dos portfólios. O procedimento de análise pautou-se na análise de conteúdo proposto por Minayo (2010).12 Este processo organiza-se me três momentos principais: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. As informações coletadas foram transcritas para documentos Word os quais foram importados para o programa Atlas ti 5.0 para a organização e análise dos dados qualitativos. Este estudo foi encaminhado ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina e aprovado sob número 474 e protocolo no 305209/2009. Para participação no estudo os alunos foram orientados sobre os princípios éticos contidos na resolução 196/96 e contemplados no termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) o qual foi entregue no momento do convite a participação. Os relatos dos sujeitos foram identificados como P (Portfólio) A (aluno) e um número, os fragmentos das observações dos sujeitos como O (Observação) A (aluno) e um número e as cenas observadas por O (observação) e um número.

 

RESULTADOS

A busca do ser para si

Os sujeitos do estudo apresentam em seus registros de porta-fólio suas percepções, ideias, conceitos e reflexões e atitudes estimuladas pelas vivências nos diferentes cenários de aprendizagem da disciplina. Revelam através da escrita a sua compreensão sobre aquilo o que estão vivendo. No seguinte registro, é identificada a dificuldade do aluno em assumir a liberdade para fazer escolhas de aprendizagem sem a imposição pelo professor ao deparar-se com a nova proposta pedagógica da disciplina: 1° semana de aula - Esse primeiro dia de aula foi bem difícil. [...] a disciplina trouxe para nossa turma uma proposta bem inovadora em relação á metodologia. Confesso que isso me assustou [...] porque essa metodologia exige uma autoconfiança e uma independência maior por parte do aluno e, ter maior confiança em mim mesma, é um desafio que estou tentando superar[...](PA1); Admito que esteja com receio quanto aos estudos independentes, dúvidas sobre o que estudar, se tenho que estudar todos os tópicos ou apenas aquele que será ministrado na próxima aula. Terei que me informar quanto a isso. (PA10); Tenho também muito receio ao que fazer nos estudos independentes e o que procurar. Não sei se preciso saber tudo que consta na 1ª Unidade de Conhecimento ou se iremos aprender isso ao longo do semestre. (PA7); A maioria dos alunos olha para frente, mas não demonstram muito interesse. Outros nem levantam a cabeça por estarem "anotando tudo" o que veem nos slides e o que ouvem do professor (O1-Aula coletiva).

No registro seguinte os sujeitos revelam maior aceitação na proposta pedagógica da DFCP, curiosidade em vivenciá-la, bem como liberdade para aprender como se percebe nas colocações a seguir: 1° semana de aula - [...] Acredito que aos poucos irei me adaptando a metodologia de ensino. Adorei a aula ministrada hoje e me senti mais a vontade com a disciplina. O bom é que conseguimos ver a teoria e a prática. Gosto desta metodologia. Acho que assim aprendemos mais e melhor. (PA7); [...] me animou justamente pela liberdade que ela parece nos dar em relação aos assuntos abordados, nos permitindo abrir mais o nosso campo de visão em relação, por exemplo, as formas de literaturas utilizadas e a forma como vamos a abordar esses temas. (PA1); O mesmo pode ser identificado no registro da observação de campo: É mostrada uma imagem e a professora questiona aos alunos "que vocês acham?" 'o que está acontecendo?" A1: 'é uma troca de olhares, sorrisos...?'; Professora: reforça que na entrevista é importante o "olho no olho", prestar atenção no outro, interagir. Na segunda imagem a professora também pergunta "e essa?" "O que passa na cabeça dela?" "tá com cara de estar gostando?". Fala da interação e na necessidade de saber como fazê-lo. No próximo slide pergunta "Vocês acreditam nessa frase?". "a natureza daquilo que é observado depende da perspectiva a partir da qual observamos". "É verdadeira essa frase?". Continua a exemplificar situações de interação e atitude profissional que devem ser observadas no momento de entrevista. Exemplificou com uma situação em que seu filho havia uma namorada e no carnaval iria sair vestida de enfermeira. 'Imaginem a ideia de profissional que ela tem?'. A: Os alunos pouco se manifestaram (O1).

Na medida em que vão vivenciando esta forma de aprender evidenciam o autogerenciamento do aprendizado o qual se relaciona com a busca do "ser para si". Significa uma tomada de decisão do aluno para aquilo o que decide ser: 1° semana de aula - [...] a partir de hoje levo uma frase que eu ouvi no primeiro dia de aula, da professora, e que se encaixa perfeitamente na posição que eu me encontro hoje, a de técnica de enfermagem, aluna e futura profissional da enfermagem atuando como enfermeira: Tomem para si a responsabilidade de serem excelentes profissionais. E é essa a responsabilidade que eu quero ter sempre comigo, hoje, amanhã e sempre. (PA27); Eu gosto de lidar com pessoas, gosto ainda mais sabendo que as minhas atitudes, por menor que pareçam, poderão ajudar completamente o estado físico e/ou mental de um individuo. Que eles irão precisar de mim, e que eu devo estar atenta para suprir suas necessidades. Gosto de saber que eu poderei fazer a diferença na vida de uma ou mais pessoas. E por fim das contas estarei realizada pelo que fiz. [...] (PA23); Tal atitude pode ser observada na atividade de Discussão em pequeno grupo (DPG): "Diz que 'está mais "empolgada". 'Quer se dedicar mais". "Não faltar" (OA9).

O exercício do vir a ser

O exercício da autonomia, ou o "ser para si" para "vir a ser" deve acontecer através do próprio ato de aprender do aluno e na tomada de decisão a qual inclui onde, como e o que estudar. Na disciplina, o aluno tem um horário disponível na carga horária para gerenciar o estudo conforme suas necessidades, e pode ser visto nos registros a seguir: 1a Semana de EI - Não tenho horário livre à tarde para estudar. Apesar de existir no cronograma um período para estudos independentes, em virtude do meu trabalho, nesse período estou trabalhando. Pelas 21h fui à biblioteca universitária (BU) pesquisar sobre os termos que me chamaram atenção. Peguei dois livros e posteriormente fui para casa dar uma lida. Além disso, pesquisei sobre cuidado (descrito no item 5.2) (PA7). O estímulo a leitura sem direcionamento imposto pelo professor permite o afloramento da curiosidade do aluno, bem como um exercício da reflexão sobre aquilo que lê: 1a Semana de EI -Após muita pesquisa decidi ir buscar um artigo cientifico que tivesse uma visão de cuidado da uma forma mais ampla, ao invés de simplesmente relatar alguma técnica de cuidado com o paciente, e decidi ler o (...) esse artigo de reflexão visa compreender o valor do cuidado de enfermagem, que requer uma visão ampla, valorização da própria vida para poder respeitar o outro em todos os aspectos (PA27)".

O exercício da autonomia vivenciado pelos sujeitos do estudo é compreendido como um processo de busca por ele mesmo. Até alcançar esta compreensão ele espera que o professor lhe ensine, como pode ser visto no registro da observação de campo seguir: Discussão em Pequeno grupo (DPG) – Uma aluna fala de sua experiência e relata situações em que iam fazer perguntas a professora, nas vivências no cenário de cuidado que dizia "então?" 'todas as vezes". E não respondia. Aí em um momento do estágio foram pesquisar. "agora entende o que é trabalhar com metodologias ativas". É diferente. O aluno tem que correr atrás. Agora a gente está entendendo! (OA5). Na medida em que vão exercendo sua liberdade para decidir, agir, compartilhar pensamentos constroem a percepção sobre si, sobre o mundo e sobre si no mundo, ou seja, sobre ser acadêmico de enfermagem, o que sabe, o que não sabe e o que precisa saber: Discussão em pequenos grupos (DPG)-Levantamento de questões de aprendizagem "[..] enquanto vamos respondendo uma das perguntas, vem surgindo várias outras. Mas acho que isto é o ponto crucial para a construção do nosso conhecimento para a vida. É a partir das questões de aprendizagem que saímos a procura de mais conhecimento. Tenho certeza que várias dessas perguntas vão se respondendo ao longo das aulas, das práticas e dos estudos independentes" (PA18).

Nestes momentos de aprendizagem os alunos observam a si, ao mundo e a si no mundo como seres inacabados e que precisam "ser mais", pois percebem o que ainda não sabem e precisam estudar: Socialização -Alguns colegas estavam com medo, outros nervosos, ansiosos, mas eu, pelo contrário me mantive tranquila, mas é claro que com um pouco de ansiedade, referente a aceitação de nossa atividade pelas professoras e pelo grupo.[...] Passei parte da tarde elaborando nossos slides para a apresentação. Queria estender além do campo prático, para mim não pode faltar a teoria, mesmo que a atividade fosse um pouco mais focada pra parte prática. […]Recebemos muitos elogios, os quais nos motivarão a dedicar cada vez mais nossa atenção para a disciplina e nos fez ter a percepção de como é importante introduzir a teoria na prática, ou vice versa. (PA17); DPG - a professora questiona 'o que pode ser colocado?'. A10 fala que 'pode ser acrescentado o banho no leito, pois a paciente do estudo toma banho sozinha'. A2 sugeriu 'colocar as questões discutidas dos curativos. Sobre a limpeza dos lençóis'. Ao voltar vi uma aluna escrever no quadro um site onde fez suas pesquisas. Outras alunas também foram (O5). O desenvolvimento da autonomia é um processo que acontece de forma articulada entre a liberdade, a curiosidade e a tomada de decisão.

Ao observar o objeto, ações e reações de pessoas, o aluno, cuja curiosidade ingênua transita para a epistemológica6-8, exercita a reflexão que pode gerar uma ação de "ser mais" para "vir a ser". Este ato pode ser percebido no registro em portfólio da Reunião com a coordenação "[...] Após um tempo em silêncio, uma aluna do nosso grupo de tutoria falou chorando tudo o que estava sentindo. Após a fala da aluna, novo silêncio. Eu quebrei esse novo silêncio falando aos demais alunos e a Pc, que não queria falar a respeito do nosso grupo de tutoria, pois nós tínhamos um contrato no grupo e nesse contrato estava acordado em resolvermos no grupo o que dissesse respeito ao mesmo. Disse também acreditar que essa fosse a razão do silêncio dos meus colegas. (PA2).

 

DISCUSSÃO

O desenvolvimento da autonomia, ou seja, a busca do "ser para si" para "vir a ser", na DFCP inicia a partir da liberdade que o aluno apresenta em suas escolhas tanto para estudo quanto para os cuidados realizados. Estas escolhas fazem parte da rigorosidade presente em ser livre e que implica na aventura, no risco e na criação.6 O enfermeiro educador quando estimula o uso da imaginação, exposição de sentimentos, sonhos e desejos para o exercício da criação permite ao aluno arriscar-se a fazer interpretações, produzir conhecimento, fundamental para o desenvolvimento de significados.11 Apesar das palavras dos sujeitos nos registros e nas observações serem ainda resquícios que indicam a experiência de ser acomodado4 demonstra que ele tem consciência sobre a importância de sua participação e é um indicativo de que está aprendendo a ser (DCN, 2001). Apesar de na introdução da disciplina ter sido apresentada a proposta na qual o aluno deve ser o protagonista da aprendizagem ele interpreta esta mensagem ainda como aquele que adquire o conhecimento "passado" pelo professor.4 Seu compromisso é de estar atento, prestar atenção! Consciência ingênua construída.

A liberdade para quem não a vivenciou ao longo de seu processo de educação formal pode não ser percebida como algo positivo para o seu aprendizado, mas como algo que trás insatisfação pela acomodação e condicionamento4. A insatisfação deve-se ao fato de ser a aprendizagem na disciplina algo não imposto e sem transmissão de conteúdos pelo professor, exigindo do aluno trilhar seu próprio caminho, tomando a decisão sobre como irá aprender. Alunos dos primeiros semestres na graduação em enfermagem tendem a demonstrar maior dependência do professor do que os do último semestre.4 Esta é uma dificuldade que representa a acomodação ensinada pelo modelo de ensino tradicional,13 e que mantem o aluno na passividade,11 na subordinação e sua curiosidade ingênua, à sombra do mundo. Entretanto, ao longo de sua formação, mesmo com receio, esta pode ser substituída pela curiosidade epistemológica, quando a proposta pedagógica, mediada pela atuação do professor, permite a ele "ser para si" e demonstra vontade de aprender.

A pedagogia da autonomia centra-se em experiências que estimulam a tomada de decisão e da responsabilidade. Porém, esta centralidade somente ocorre quando estas experiências respeitam a liberdade do aluno para "ser mais".15 Isso significa sem opressão, autoritarismo ou dominação por parte de quem educa. Na medida em que o aluno se sente livre tem a possibilidade de agir conforme aquilo que acredita e substitui a imagem assustadora do novo aprender por algo motivador de sua curiosidade. Os fragmentos revelam que o aluno, ao iniciar sua vivência na proposta pedagógica da DFCP, demonstra aceitar o desafio, mesmo que de forma ainda receosa. Percebem que este momento é de adaptação ao novo e a liberdade para a busca do conhecimento é animadora. Esta animação pode ser interpretada como motivação, nas ideias de Freire. Para este aluno o ânimo demonstrado acontece ao ser apresentada a proposta da disciplina, pois neste momento ele se imagina tendo a liberdade apresentada. Neste momento a motivação é externa ao aluno, mas ao mesmo tempo um gatilho para reflexão sobre o ato de aprender. Trata-se de uma motivação que em nenhum momento pode ocorrer fora da prática pedagógica, ou antes, dela,9 pois ela faz parte da prática. Desta forma, o aluno se motiva a partir do momento em que atua, no próprio ato de estudar, de reconhecer a importância que o conhecimento tem para ele.

Por isso, este momento é um espaço para reaprender a aprender. É um requerimento das tendências pedagógicas atuais e reconhecida pela UNESCO, desde 1998. Projetos político-pedagógicos fundamentados na pedagogia emancipatória, libertadora, crítica propõem ao aluno uma nova forma de aprender, assim como de ensinar. O professor não mais transmite o conhecimento, mas compartilha com o aluno o qual tem a autonomia para autogerir o seu aprendizado.15 A autonomia sendo uma atitude que se desenvolve dia-a-dia, nas experiências pelas quais o sujeito passa ao longo da vida, é exercitada, apreendida e não ensinada, exige disciplina, por isso precisa ser oportunizada. Esta é conquistada pelo aluno na medida em que a assume e a exercita, fortalecendo-o contra as ameaças expostas, como a tentação para outras atividades. Para ser disciplinado, corpo e mente precisam sentir o prazer na leitura, sem isso não é possível estudar.11

Seu desenvolvimento envolve: liberdade, curiosidade, a tomada de decisão. Entretanto, para que haja uma tomada de decisão o aluno precisa de liberdade para, a partir de sua curiosidade pelo observado realizar uma reflexão e tomar decisão. É um processo que acontece de forma articulada. O ato de refletir sobre a experiência é um momento que permite ao aluno ler e reler aquilo o que observa e a construir o seu conhecimento. Neste exercício consegue analisar os detalhes da situação através da sua conscientização e tomar decisão, assumindo uma responsabilidade que pode ser a de encorajar-se para resolver conflitos, assim como para contribuir para o controle de infecção, através da lavagem das mãos como nas situações destacadas. Estes são exemplos do processo de desenvolvimento da autonomia, no qual envolve a observação do contexto, reflexão, tomada de decisão e ação. É uma forma de exercício de atualização, de simplificação e de melhora do que foi feito.8,9,15 É um ato de construção do conhecimento sobre o contexto o qual gera novos conhecimentos.16

Os resultados corroboraram para fortalecer a convicção de que é possível desenvolver a autonomia do aluno criando ambientes de ensino nos quais a liberdade está presente. A liberdade deve existir como forma de possibilitar ao aluno agir sem medos e assumir a responsabilidade por sua aprendizagem. Ao sentir-se livre pode observar aquilo que desperta a sua curiosidade, indagar, duvidar, indignar-se e assim agir transformando a si e ao mundo ao qual pertence. Os alunos dessa disciplina conseguiram se perceber enquanto pessoas e alunos em formação, suas dificuldades, facilidades e superações. Demonstraram expressar suas decisões diante do que vivenciaram em sala de aula e decidem como agir. Este processo revela uma autonomia apreendida pelo inacabamento. Aprenderam a se organizar para estudar, a ler, a escrever e a se comunicar através de atividades de escrita em porta-fólios e da oralidade nas discussões teóricas e das vivências nos cenários de cuidado. O ensino superior tem como finalidade estimular o pensamento reflexivo formando diplomados nas diferentes áreas de conhecimento com competência para se inserirem nos setores profissionais assumindo a responsabilidade pela participação no desenvolvimento da sociedade e na formação continuada. Desenvolver a sociedade significa preocupar-se com ela por meio do desenvolvimento da investigação científica, divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos, assim como a prestação de serviços especializados à comunidade.17

Para tanto, desenvolver um aluno com tais competências e que estão relacionadas com a autonomia funda-se na necessidade de criar estratégias de ensino que possibilitem o seu exercício. Por ser um processo precisa ser exercitado no dia-a-dia da sala de aula, para que se torne uma atitude permanente e pertencente a ele. Não é somente a sala de aula o espaço em que a autonomia deve ser estimulada, mas também os espaços para além da universidade, como a família, os outros ambientes de ensino formal, assim como o espaço de trabalho.

Este estudo fortalece o campo da pesquisa de educação em enfermagem, principalmente, ao retratar a questão do desenvolvimento da autonomia do aluno. A autonomia requer do aluno a decisão de ser participativo em seu processo de aprendizagem. Para possibilitar esta tomada de decisão, estratégias de ensino organizadas para este objetivo precisam ser incentivadas e se tornarem concretas a partir do planejamento do processo pedagógico pelo enfermeiro educador. Além disso, evidencia através da prática experiências que podem contribuir para uma reflexão-ação-reflexão dos enfermeiros educadores sobre o processo de ensinar e aprender não somente no Brasil, mas também em outros contextos. O enfermeiro educador apresenta um papel essencial e insubstituível neste processo e desta forma precisa se apropriar do conhecimento sobre o ato pedagógico e suas relações, incluindo, as diferentes formas de aprender do aluno.

As universidades como representantes da formação de indivíduos competentes para atuarem na sociedade requerem educadores qualificados de tal maneira que respondam às necessidades dos alunos, assim como da sociedade em geral. Desta forma, destaca-se a importância da formação de professores a qual deve envolver a compreensão e o domínio das novas tendências de ensino e aprendizagem como uma estratégia de mudança de paradigma e o abandono das atitudes tradicionais limitadoras da atitude autônoma do aluno. O ensino crítico somente será parte da história se existir e para isso precisa ser uma prática permanente.

 

REFERÊCIAS

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Abstract : 268

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