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ARTÍCULO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE / ARTIGO ORIGINAL

 

Fatores de risco para doenças cardiovasculares em adolescentes

 

Risk factors for cardiovascular disease in adolescents

 

Factores de riesgo para la enfermedad cardiovascular en adolescentes

 

Naira Lígia de Araújo Rodrigues1; Luisa Helena de Oliveira Lima2; Elaine de Sousa Carvalho3; Paula Valentina de Sousa Vera4; Karoline de Macêdo Gonçalves Frota5; Marcos Venícios de Oliveira Lopes6; Edina Araújo Rodrigues Oliveira7

 

1Enfermeira. Universidade Federal do Piauí –UFPI-; Picos, Piauí, Brasil. email: nairaligia@hotmail.com.

2Enfermeira, Doutora. Professora, UFPI; Picos, Piauí, Brasil. email: luisahelena_lima@yahoo.com.br.

3Nutricionista. Núcleo de Atenção em Saúde da Família de Padre Marcos; Piauí, Brasil. email: elaine.sc@bol.com.br.

4Enfermeira, Especialista em Saúde da Mulher. Professora UFPI; Picos, Piauí, Brasil. email: paulinhavalentina@hotmail.com.

5Nutricionista, Doutora. Professora UFPI; Teresina, Piauí, Brasil. email: karolfrota@ufpi.edu.br.

6Enfermeiro, Doutor. Professor, Universidade Federal do Ceará; Fortaleza, Ceará, Brasil. email: marcos@ufc.br.

7Enfermeira, Mestre. Professora, UFPI; Picos, Piauí, Brasil. email: edinarasam@yahoo.com.br.

 

Fecha de Recibido: Abril 7, 2014. Fecha de Aprobado: Abril 15, 2015.

 

Artículo vinculado a investigación: Fatores de risco para doenças cardiovasculares em crianças e adolescentes do município de Picos – PI.

Subvenciones: Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica/UFPI/CNPq.

Conflicto de intereses: Ninguno.

Cómo citar este artículo: Rodrigues NLA, Lima LHO, Carvalho ES, Vera PVS, Frota KMG, Lopes MVO, et al. Risk factors for cardiovascular diseases in adolescents. Invest Educ Enferm. 2015; 33(2): 315-324.

DOI: 10.17533/udea.iee.v33n2a14

 


RESUMO

Objetivo. Identificar los factores de riesgo de enfermedad cardiovascular en adolescentes. Metodología. Estudio descriptivo de tipo transversal, llevado a cabo entre mayo y septiembre de 2012, en las escuelas públicas del municipio de Picos (Estado de Piauí, Brasil). La muestra estuvo constituida por 320 adolescentes de 10 a 19 años. Resultados. El 60% de los participantes era de sexo femenino. El 15.3% de los participantes presentó valores de presión arterial alterados (6.9% con hipertensión arterial). Con relación al estado nutricional, el 15.6 tuvo sobrepeso y el 5.3% obesidad. En ninguna de las dos variables se observaron diferencias estadísticamente significativas por sexo. Existe correlación entre las variables: historia familiar de hipertensión con la circunferencia del brazo y pliegue tricipital; educación de la madre con el espesor del pliegue cutáneo tricipital y con la presión arterial diastólica; el tiempo de actividad con el índice de masa corporal, la circunferencia del brazo tasa, la relación y el corazón cintura-cadera; el peso al nacer con el índice de masa corporal y la circunferencia del brazo. Conclusión.Una proporción importante de los adolescentes encuestados tienen factores de riesgo para enfermedad cardiovascular. Enfermería debe liderar la adopción de intervenciones que propendan por el mejoramiento de los estilos de vida saludables en la adolescencia, previniendo de esa forma, no solo las enfermedades cardiovasculares, sino también otras enfermedades crónicas que pueden ser desarrolladas.

Palabras claves: factores de riesgo; enfermedades cardiovasculares; enfermería; adolescente.


ABSTRACT

Objective. Identify risk factors for cardiovascular disease in adolescents. Methodology. Descriptive cross-sectional study, conducted from May to September 2012, in the public schools of the city of Picos (Piaui State, Brazil). The sample consisted of 320 adolescents 10-19 years. Results. As to gender, 60% were female. With regard to blood pressure values, 15.3% of participants had altered blood pressure values (6.9% with hypertension) and, in relation to nutritional status, 15.6% were overweight and 5.3% obese. None of the variables showed statistically significant differences according to sex. Correlation were found between the variables: family history of hypertension with arm circumference and triceps skinfold; maternal education with triceps skinfold thickness and diastolic blood pressure; uptime with body mass index, arm circumference, waist-hip ratio and heart rate; birth weight with body mass index and arm circumference. Conclusion. A significant proportion of adolescent respondents had risk factors for cardiovascular disease. Nursing should lead the adoption of interventions that promote the improvement of healthy lifestyle in adolescence, thus avoiding not only cardiovascular disease, but also other chronic diseases that can develop.

Key words: Risk factors; cardiovascular diseases; nursing; adolescent.


RESUMEN

Objetivo. Identificar los factores de riesgo de enfermedad cardiovascular en adolescentes. Metodología. Estudio descriptivo de tipo transversal, llevado a cabo entre mayo y septiembre de 2012, en las escuelas públicas del municipio de Picos (Estado de Piauí, Brasil). La muestra estuvo constituida por 320 adolescentes de 10 a 19 años. Resultados. El 60% de los participantes era de sexo femenino. El 15.3% de los participantes presentó valores de presión arterial alterados (6.9% con hipertensión arterial). Con relación al estado nutricional, el 15.6 tuvo sobrepeso y el 5.3% obesidad. En ninguna de las dos variables se observaron diferencias estadísticamente significativas por sexo. Existe correlación entre las variables: historia familiar de hipertensión con la circunferencia del brazo y pliegue tricipital; educación de la madre con el espesor del pliegue cutáneo tricipital y con la presión arterial diastólica; el tiempo de actividad con el índice de masa corporal, la circunferencia del brazo tasa, la relación y el corazón cintura-cadera; el peso al nacer con el índice de masa corporal y la circunferencia del brazo. Conclusión.Una proporción importante de los adolescentes encuestados tienen factores de riesgo para enfermedad cardiovascular. Enfermería debe liderar la adopción de intervenciones que propendan por el mejoramiento de los estilos de vida saludables en la adolescencia, previniendo de esa forma, no solo las enfermedades cardiovasculares, sino también otras enfermedades crónicas que pueden ser desarrolladas.

Palabras claves: factores de riesgo; enfermedades cardiovasculares; enfermería; adolescente.


 

 

INTRODUÇÃO

As doenças do aparelho circulatório constituem a primeira causa de morte no Brasil há mais de três décadas. Embora conhecidos alguns de seus fatores de risco, a redução da morbimortalidade cardiovascular não tem sido uma tarefa fácil, tendo em vista a sua complexidade e a necessidade de iniciar precocemente o controle da hipertensão arterial, do tabagismo, da hipercolesterolemia e da obesidade. Além desses fatores, a Organização Mundial da Saúde propõe a redução e o controle de outros, como o alto consumo de álcool, a inatividade física e a dieta inadequada, dentro de uma abordagem integrada e em todas as faixas etárias.1

As doenças cardiovasculares (DCV) constituem uma importante causa de morte nos países desenvolvidos e também naqueles em desenvolvimento. Em geral, as manifestações clínicas das DCV têm início a partir da meia-idade. No entanto, estudo recente indica que o processo aterosclerótico começa a se desenvolver na infância. Estrias gordurosas, precursoras das placas ateroscleróticas, aparecem na camada íntima da aorta aos três anos de idade e nas coronárias durante a adolescência.2 A probabilidade de alguma das DCV ocorrer aumenta na presença de múltiplos fatores de risco estabelecidos para aterosclerose. As DCV têm origem na presença e/ou agrupamento de fatores de riscos inerentes ao próprio indivíduo (gerais, comportamentais e biológicos) ou à comunidade em que se encontra inserido (condições socioeconômicas, ambientais, culturais e de urbanização). Nesse sentido, a infância e adolescência se caracterizam como um período propício para o desenvolvimento de estratégias intervencionistas voltadas ao combate das doenças cardiovasculares, uma vez que há evidências de que estas doenças podem se originar neste período de vida. Além disso, diversos fatores de risco de origem biológica adquiridos na infância e adolescência tendem a persistir até a maioridade, acentuando o risco de morbimortalidade na vida adulta.3

A demonstração de que as doenças cardiovasculares podem ter sua origem na infância e adolescência leva à necessidade de que esses fatores de risco sejam amplamente investigados nesse período, com o objetivo de planejar intervenções cada vez mais precoces e, possivelmente, mais efetivas sobre esses fatores, reduzindo, no futuro, a morbidade e mortalidade. Em estudo realizado em Santiago de Cuba com adolescentes de 15 a 17 anos foi encontrada a prevalência de pressão arterial alta de 7.5% entre os meninos e 2.4% entre as meninas. 4 Em outro estudo a prevalência de hipertensão foi 4.3% e a de pré-hipertensão 1.9% em crianças e 1.7% em adolescentes. 5 Já em uma pesquisa desenvolvida no Chile com adolescentes de 15 a 17 anos, 18.8% tinham pré-hipertensão, 17.3% tinham HTA estágio 1, e 3.1% HTA estágio 2.6

Os enfermeiros são os profissionais de saúde ideais para coordenar a equipe de redução de risco de doenças cardiovasculares e integrar campanhas multifatoriais em ambientes hospitalares, ambulatórios e unidades comunitárias de saúde. Assim, deve ter interesse e compromisso com as diferenças e singularidades em populações de pacientes com base na idade, raça, etnia, cultura, características sociodemográficas e alfabetização. O enfermeiro em posse da educação em saúde e da sua proximidade da comunidade possui um papel fundamental tanto na prevenção como na identificação precoce e controle dos fatores de risco cardiovasculares na população. Nesta perspectiva, este estudo teve como objetivo investigar os fatores de risco para doenças cardiovasculares em adolescentes.

 

METODOLOGIA

Estudo de natureza descritiva do tipo transversal, em que foram investigados os fatores de risco para doenças cardiovasculares em adolescentes do Município de Picos (estado do Piauí, Brasil. O estudo foi realizado nas 41 escolas públicas de ensino fundamental e médio do município. Para o cálculo do tamanho da amostra, utilizou-se a fórmula para estudos transversais com população finita,7 resultando assim numa amostra de 320 adolescentes. Os participantes foram proporcionalmente selecionados de acordo com o número de alunos matriculados em cada escola, de forma aleatória entre todos os adolescentes que preencheram os critérios de elegibilidade, com a utilização do software R.

Para participar os adolescentes tinham que estar regularmente matriculados e possuírem idade entre 10 e 19 anos. Este intervalo de idade é o que a OMS define como adolescente.8 Foram considerados critérios de exclusão o adolescente morar na zona rural de Picos, pois isto dificultou o acesso aos pais do mesmo; e aqueles que eram filhos adotivos, pois algumas informações envolviam os dados dos pais biológicos do adolescente. Para a coleta de dados, foram utilizados um formulário e um questionário adaptado de outro estudo.1 O formulário continha informações sobre identificação do adolescente, antropometria, hábitos alimentares e atividade física. O questionário tinha informações sobre dados de saúde dos pais biológicos e história de nascimento do adolescente.

No que se refere à avaliação antropométrica, identificaram-se: peso, comprimento, prega cutânea tricipital (PCT), circunferências da cintura e do quadril (CC e CQ). A altura foi medida com uma fita métrica fixada em parede lisa. A aferição desta foi realizada com os adolescentes descalços, de costas, com pés unidos e em paralelo, em posição ereta e olhando para frente, com o apoio de uma régua colocada sobre a cabeça dos participantes, para assegurar a exatidão da medida na fita métrica.8 A mensuração do peso foi feita com o indivíduo descalço e com roupas leves. Utilizou-se uma balança portátil digital com capacidade para registrar 120 kg e uma precisão de 0.1 kg, display automático acionado com o toque dos pés. O Índice de Massa Corporal (IMC) foi calculado a partir dos valores de peso e altura, definido pelo cálculo do peso corporal, em quilogramas, dividido pelo quadrado da altura, em metros quadrados. Para a classificação do estado nutricional foram adotados os critérios propostos pela OMS9 sendo utilizados os indicadores de IMC/idade, estatura/idade, peso/idade, segundo escore Z. Foi classificado por idade e gênero como magreza extrema (< -3 escore z), magreza (≥ -3 escore z e < -2 escore z), eutrofia (≥ -2 escore z e +1 ≤ escore z), sobrepeso (> +1 escore z e ≤ +2 escore z) e obesidade (> +2 escore z).

A medida de circunferência de braço (CB) foi realizada por meio de fita flexível com precisão de 0.1cm. O local de medida da CB foi determinado pelo ponto médio da distância entre o acrômio da escápula e o olecrano. Para a realização desta medida o participante permaneceu na posição em pé, com os braços relaxados ao lado do corpo. Foi utilizada, para classificação, os parâmetros descritos na literatura.10 A prega cutânea tricipital (PCT) foi medida na parte posterior do braço, no ponto médio, entre o acrômio e o olecrano. Foi utilizado o adipômetro científico da marca Cescorf, com precisão de 0,1mm. Foram necessárias duas aferições para realizar a média das medidas. Para a classificação foi utilizada os percentis estabelecidos pelo National Council Health Statistics11 em que o padrão de normalidade se localiza entre P15 a P85. Na realização das medidas de CC e CQ utilizou-se fita métrica inelástica e flexível e a aferição foi feita estando o indivíduo em posição ereta, abdômen relaxado, braços dispostos ao longo do corpo e os pés juntos. Para obtenção dos valores de CC circundou-se com a fita a parte mais estreita do tronco entre a última costela e a crista ilíaca, sendo a mesma colocada com firmeza, sem comprimir ou esticar excessivamente. A CQ foi medida na extensão máxima das nádegas.12 A relação cintura-quadril (RCQ) foi calculada dividindo a CC pela CQ.

Com relação aos dados hemodinâmicos, foram verificadas pressão arterial (PA) e frequência cardíaca (FC). A PA foi verificada pelo método auscultatório clássico, em uma sala tranquila da escola. A verificação da PA seguiu os procedimentos recomendados nas VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão.13 Foram utilizados manguitos de tamanho apropriado à circunferência do braço dos adolescentes. Para a classificação da pressão foram consideradas as curvas para determinação do percentil da estatura do adolescente de acordo com a idade e o sexo e a tabela de percentil da pressão arterial referenciada pela V Diretrizes de Hipertensão Arterial.14 Foram feitas duas medições, com intervalo de 1 minuto entre elas. Utilizou-se a classificação de hipertensão arterial segundo as tabelas para medir a pressão arterial em crianças e adolescentes (para ambos sexos). - Normotenso: Pressão arterial menor que o percentil 90; - Normal/alta: Pressão arterial entre os percentis 90 e 95; - Hipertensão arterial: Pressão arterial superior ao percentil 95.4 Verificou-se a FC através da ausculta cardíaca durante um minuto com estetoscópio localizado no foco mitral, localizado no quinto espaço intercostal esquerdo na linha hemiclavicular.

Os dados foram organizados em tabelas e analisados por meio da estatística descritiva e inferencial, com base em frequências absolutas e percentuais, em medidas de tendência central e de dispersão e testes de associação, Rho de Spearman e Mann-Whitney. Na realização do estudo foram seguidos todos os princípios éticos contidos na Resolução 466/1215 que rege pesquisas envolvendo seres humanos. O projeto foi devidamente aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Piauí (CAAE: 0094.0.045.000-11).

 

RESULTADOS

No que diz respeito ao sexo, houve um predomínio de adolescentes do sexo feminino (60%). Na caracterização antropométrica dos adolescentes do sexo masculino, conforme apresentado na Tabela 1, observou-se que a média de idade foi de 13,41 anos, o peso de 50.75 kg e altura de 1.59 m, além disso, apresentaram mediana do índice de massa corpórea de 18.84 kg/m², pressão arterial sistólica de 100 mm/Hg, pressão arterial diastólica de 67.5 mm/Hg e frequência cardíaca com média de 79.66 bpm.

Tabela 1. Caracterização da amostra de acordo com idade, indicadores antropométricos e hemodinâmicos dos 128 adolescentes do sexo masculino. Picos, 2012

Tabela 1.

De acordo com a Tabela 2, observou-se que as adolescentes do sexo feminino apresentaram uma mediana de idade de 13.46 anos, a média de peso foi de 46.16 kg e mediana de altura de 1.55 m, dados divergentes ao sexo masculino. A média do IMC foi de 19.58 kg/m², a PAS apresentou mediana de 100 mm/Hg, PAD de 64.75 mm/Hg e uma FC com média de 80.00 bpm.

Tabela 2. Caracterização da amostra de acordo com idade, indicadores antropométricos e hemodinâmicos dos 192 adolescentes do sexo feminino. Picos, 2012

Tabela 2.

Com relação à pressão arterial, 15.3% dos participantes (18.7% dos meninos e 13.1% das meninas) apresentaram valores pressóricos alterados, sendo 6.9% com hipertensão arterial (7.0% dos meninos e 6.8% das meninas) (Tabela 3). O IMC mostrou que 21% dos adolescentes apresentaram sobrepeso e obesidade (20.3% dos meninos e 21.4% das meninas), sendo 5.3% obesidade (7.0% dos meninos e 4.2% das meninas). Não houve diferença estatisticamente significativa por sexo com relação à classificação da pressão arterial (c2=3.02, p=0.220), nem por IMC (c2=2.36, p=0.669).

Tabela 3. Distribuição da amostra por classificação da pressão arterial e do IMC por sexo e total. Picos, 2012

Tabela 3.

Os dados da Tabela 4 mostraram uma correlação negativa e estatisticamente significante entre o tempo de atividade e o IMC. Verificou-se ainda correlação positiva e significante entre o IMC e o peso ao nascer. A RCQ também mostrou correlação positiva e com o tempo de sono diário do adolescente. A circunferência do braço apresentou correlação significativa inversa com o tempo ativo, e direta com o peso ao nascer. A PCT esteve correlacionada com a escolaridade materna, indicando que quanto menor a escolaridade maior foi a PCT. A PAD mostrou relação significativa e inversa com a escolaridade materna e tempo de amamentação. Nos adolescentes do sexo masculino, ter mãe hipertensa foi fator de risco para apresentar valores maiores de circunferência do braço.

Tabela 4. Correlação entre as variáveis antropométricas e escolaridade materna, tempo de amamentação, tempo de AMEX, tempo ativo, tempo inativo, sono e peso ao nascer nos adolescentes do sexo masculino. Picos, 2012

Tabela 4.

Os dados da Tabela 5 mostraram que o tempo de amamentação exclusiva pode ser protetor para doenças cardiovasculares, já que foi observada correlação negativa significativa entre tempo de amamentação exclusiva e IMC. O RCQ mostrou relação significativa e direta com o tempo gasto com atividades físicas. Novamente, o tempo de amamentação exclusiva mostrou-se protetor nas doenças cardiovasculares, pois correlação negativa significativa foi observada entre tempo de AMEX e PAS nas adolescentes. O sedentarismo é um dos fatores de risco clássico para as doenças cardiovasculares. O que se observou foi correlação negativa entre PAD e tempo inativo e frequência cardíaca e tempo de atividade. Nas adolescentes do sexo feminino, ter pai hipertenso foi fator de risco para apresentar valores maiores de prega cutânea tricipital

Tabela 5. Correlação entre as variáveis antropométricas e escolaridade materna, tempo de amamentação, tempo de AMEX, tempo ativo, tempo inativo, sono e peso ao nascer nos adolescentes do sexo feminino. Picos, 2012

Tabela 5.

Foram investigadas também as relações entre IMC, RCQ, PAS, PAD, FC, CB e PCT com: antecedentes familiares de diabetes e cardiopatia; cor da pele; tabagismo materno e idade gestacional ao nascer. No entanto, não foram identificadas relações estatisticamente significantes entre essas variáveis.

 

DISCUSSÃO

A detecção de fatores de risco cardiovasculares em adolescentes é fundamental para a prevenção de DCV e futuras complicações. A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é um potente fator de risco cardiovascular, estando intimamente associado ao sobrepeso/obesidade e tem aumentado entre os adolescentes. Neste estudo, foi verificada a presença de valores aumentados de pressão arterial (PA) em indivíduos de ambos os sexos, estando os valores maiores que o percentil 95. A HAS é considerada um fator de risco independente em qualquer faixa etária.16 O problema torna-se mais complexo em crianças e adolescentes por causa de seu crescimento e desenvolvimento, que há um aumento dos níveis pressóricos e tende a permanecer na fase adulta.17 A medida da pressão arterial em nosso estudo foi verificada duas vezes, mas apenas em uma ocasião, o que pode ter contribuído para esse resultado. Alguns estudos mostram que é possível que, se repetidas numa segunda ocasião, algumas dessas medidas alteradas passassem para a faixa de normalidade.18

Outro fator de risco associado é a história familiar de HAS que parece ter um efeito sinérgico ao impacto da obesidade sobre os níveis tensionais na adolescência. Nesse estudo verificou-se associação entre ter mãe hipertensa e maiores valores de CB, nos meninos. Já nas meninas a associação foi entre ter pai hipertenso e valores maiores de PCT. Ao estudarem a influência da hereditariedade na origem da HAS, alguns pesquisadores referem que os componentes de uma mesma família, além de partilharem entre si os genes, compartilham também o mesmo ambiente cultural e doméstico o que contribui significativamente para o estilo de vida adotado por esses indivíduos, já que muitas vezes são dependentes das decisões dos pais.19

Ao caracterizarmos os adolescentes através do índice IMC/I, verificou-se uma prevalência de sobrepeso e obesidade de 13.2% e 7%, respectivamente, no sexo masculino e 17.2% e 4.2% no sexo feminino. Apesar da maior prevalência de indivíduos eutróficos, o número de adolescentes com excesso de peso é significativo, cerca de 1/5 da população estudada. Estes dados corroboram com os encontrados na Pesquisa de Orçamento Familiar (POF 2008-2009)20 em que a incidência de excesso de peso nos adolescentes do sexo masculino foi 21.5% e 18.4% para adolescentes do sexo feminino. A POF (2008-2009) mostrou que a obesidade foi mais prevalente no gênero masculino (5.8%) quando comparado ao gênero feminino (4.9%).

O estado nutricional durante a adolescência se comporta como fator determinante da situação nutricional de adultos e o excesso de peso na adolescência relaciona-se a maiores prevalências de dislipidemias na vida adulta,21 ou seja, é necessária maior atenção à saúde desse grupo, com maior monitoramento para um diagnóstico precoce, a fim de lhes assegurar uma vida mais saudável no momento atual e futuro. Sobrepeso e obesidade tem sua origem a partir de uma alimentação inadequada associada ao sedentarismo que pode ter início já na infância. Atualmente, a alimentação da maioria dos adolescentes é caracterizada por baixo consumo de hortaliças e frutas, e alta ingestão de guloseimas, frituras e carboidratos. A baixa escolaridade materna pode influenciar negativamente os hábitos alimentares dos adolescentes, tendo em vista o conhecimento deficiente das mães sobre a importância de uma alimentação balanceada. Isso pode explicar a relação significativa e inversa encontrada entre escolaridade materna com prega cutânea tricipital e PAD, nos meninos.

O sedentarismo é um importante fator de risco para a aterosclerose e consequente DCV, assim como o exercício físico regular é de grande relevância na prevenção e no controle das DCV, influenciando quase todos os seus fatores de risco, como a obesidade, as dislipidemias, o diabetes mellitus e a HAS.22 Neste estudo verificou-se que a mediana do tempo de atividade foi de apenas 125 minutos, enquanto o tempo de inatividade foi de 240 minutos. Além disso, o tempo de atividade nos adolescentes do sexo masculino mostrou uma relação estatisticamente significante e inversa com o IMC e com a CB. Nas meninas, o tempo gasto com atividades físicas mostrou relação significativa e direta com a RCQ e inversa com a FC; a PAD mostrou relação significativa e inversa com o tempo inativo. Isto demonstra a importância de atividades físicas para a redução e controle do peso corporal e gasto energético, além de melhorar o controle pressórico e FC.

Os principais motivos que tem deixado os adolescentes menos ativos são o aumento do tempo em frente à television, a utilização da internet e do videogame, menos aulas de educação física nas escolas, menos opções de lazer ativo em função da violência e da preocupação dos pais com a segurança dos filhos.23 Alguns estudos tem demostrado o surgimento de novos fatores de risco para DCV como a prematuridade, o baixo peso ao nascer e o pouco tempo de aleitamento materno.

O baixo peso ao nascer (BPN) tem sido relacionado, em alguns estudos, a um risco aumentado de desenvolvimento de hipertensão arterial, obesidade e DCV. Os resultados de outra investigação24 contribuem com mais evidências neste sentido, pois as crianças pré-púberes com BPN apresentaram PA mais elevadas do que aquelas com peso normal ao nascer. Além disso, encontraram alteração no ritmo circadiano da PA (menor descenso da PA durante o sono). Deve-se ressaltar que essa alteração é reconhecidamente relacionada a um maior risco de desenvolvimento de doença cardiovascular e de mortalidade na vida adulta. No presente estudo, entre os meninos, identificou-se uma relação significante e direta entre o peso ao nascer com o IMC e com a CB.

Alguns autores têm relacionado o tempo de amamentação exclusiva e o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade. Eles constataram um efeito dependente entre a duração do aleitamento materno e a incidência de sobrepeso e obesidade em crianças e adolescentes.24-25 Neste estudo, entre os meninos, o tempo de amamentação mostrou relação significativa e inversa com a PAD, enquanto entre as meninas, o tempo de amamentação exclusiva mostrou uma relação estatisticamente significante e inversa com o IMC e com a PAS. Entre os possíveis mecanismos biológicos, que influenciam a função protetora do leite materno contra a obesidade, encontram-se a composição única do leite, como também as respostas metabólicas e fisiológicas do leite materno. A composição única dos nutrientes do leite materno é qualitativa e quantitativamente diferente de qualquer fórmula infantil, pois, contém substâncias bioativas, que afetam a diferenciação e proliferação dos adipócitos, podendo influenciar o crescimento e desenvolvimento dos tecidos.25

Corroborando com esses achados, a literatura26 afirma que o aumento da obesidade em lactentes é resultado de um desmame precoce e incorreto; decorrente de erros alimentares no primeiro ano de vida, principalmente, nas populações urbanas as quais abandonam precocemente o aleitamento materno e o substituem por alimentação com excesso de carboidratos, em quantidades superiores às necessárias para seu crescimento e desenvolvimento. Um elemento que está frequentemente presente no cenário da amamentação ineficaz e também se relaciona ao ganho excessivo de peso nos lactentes, é o uso de fórmulas lácteas artificiais. A interrupção precoce da amamentação em detrimento da adoção de uma alimentação artificial eleva o consumo energético infantil em 15% a 20% quando comparado ao consumo energético de criança em aleitamento materno exclusivo.26

Conclusão. Assim, os dados apresentados neste trabalho indicam que os fatores de risco cardiovasculares constituem um problema de prevalência elevada em adolescentes de Picos. O conhecimento da frequência dos FRC nesses adolescentes permite a adoção precoce de intervenções para o desenvolvimento de hábitos alimentares e estilos de vida saudáveis já na adolescência, prevenindo dessa forma as DCV, além de outras doenças crônicas que possam ser desencadeadas.

Apresenta-se como limitação desse estudo a avaliação da PA em um único momento, bem como a quantificação do tempo de aleitamento materno exclusivo por meio da utilização de questões onde se recorria à memória dos responsáveis, que pode ter levado a um viés de esquecimento por parte dos pais. Por meio do Programa de Saúde na Escola, as enfermeiras podem assumir papeis de liderança, relevantes para a prática baseada em evidência, com a realização de atividades de educação em saúde cardiovascular integral e adequada à idade. Além disso, a Associação Nacional de Enfermeiros Pediatras dos Estados Unidos ratificam a importância do enfermeiro no controle precoce dos fatores de risco cardiovasculares por meio da implementação de currículos escolares sensíveis sobre as mudanças dos padrões de dieta dos alunos, ingestão calórica, atividade física, tabagismo e hábitos de vida em geral; rastreio e encaminhamento de crianças identificadas como de risco para DCV; e estabelecimento de ligações com os recursos da comunidade e infraestruturas necessárias para apoiar o ambiente escolar em promover a saúde cardiovascular de crianças e jovens no bairro, na escola e na família.27

Sugere-se que, por meio da consulta de enfermagem, possam ser identificados os fatores de risco cardiovasculares e as suas complicações, além de realizar a educação em saúde, que constitui um dos principais elementos para melhorar as condições de vida de pessoas com fatores de risco para doenças cardiovasculares. Nesta perspectiva, o monitoramento da prevalência dos FRC pode contribuir para o planejamento e direcionamento de estratégias intervencionistas, em especial na fase da adolescência, momento no qual os indivíduos estão mais propensos às mudanças de hábitos inadequados de vida.

 

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Abstract : 173

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