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ARTÍCULO ORIGINAL / ORIGINAL ARTICLE / ARTIGO ORIGINAL

 

As representações sociais de enfermeiros sobre a autonomia profissional e o uso de tecnologias no cuidado a portadores de feridas

 

Social representations of nurses about professional autonomy and the use of technologies in the care of patients with wounds

 

Representaciones sociales de los enfermeros sobre la autonomía profesional y el uso de tecnologías en el cuidado a personas con heridas

 

 

Érick Igor dos Santos1; Jéssica Grativol Aguiar Dias de Oliveira2

 

1Enfermeiro Estomaterapeuta, Ph.D. Professor, Universidade Federal Fluminense, UFF, Rio das Ostras, Rio de Janeiro, Brasil. email: eigoruff@gmail.com

2Enfermeira, Estudante de pós-graduação. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, UERJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. email: jessicagrativol@yahoo.com.br

 

Fecha de Recibido: Octubre 1, 2015. Fecha de Aprobado: Abril 28, 2016.

 

Artículo vinculado a investigación: Autonomia profissional do enfermeiro e suas representações sociais.

Conflicto de intereses: Ninguno.

Cómo citar este artículo: Santos ÉI, Oliveira JGAD. Social representations of nurses about professional autonomy and the use of technologies in the care of patients with wounds. Invest. Educ. Enferm. 2016; 34(2):387-395.

doi:10.17533/udea.iee.v34n2a19

 


RESUMO

Objetivo.Identificar as representações sociais elaboradas por enfermeiros sobre autonomia profissional no cuidado a portadores de feridas e analisar suas interfaces com a constante incorporação de tecnologias neste cuidado. Métodos. Trata-se de uma pesquisa qualitativa delineada a partir da teoria e método das representações sociais em sua abordagem processual e realizada com 31 enfermeiros de um hospital municipal da Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro (RJ, Brasil). As entrevistas foram submetidas à análise de conteúdo temática instrumentalizada pelo software Nvivo 10. Resultados. Os conteúdos representacionais sobre autonomia estão ligados, sobretudo, ao nível de conhecimento, poder de decisão, formação profissional e a fatores institucionais. Os sujeitos posicionam-se favoravelmente à incorporação de tecnologias de cuidado na prática profissional, que envolve elementos como custo-benefício, estrutura, treinamentos e outros recursos. Conclusão. A autonomia se configura como um pré-requisito para a utilização plena da tecnologia e a tecnologia configura-se como um elemento facilitador para que o enfermeiro se torne mais autônomo.

Palavras chave: enfermagem; tecnologia biomédica; autonomia profissional; ferimentos e lesões; psicologia social.


ABSTRACT

Objectives.To identify the social representations by nurses about professional autonomy in the care of patients with wounds and analyze their interfaces with the constant incorporation of technologies in this care. Methods. This is a qualitative research, outlined from the Theory and method of social representations in its procedural approach and performed with 31 nurses. The interviews were submitted to thematic content analysis software NVivo instrumentalized by 10. Results. The representational content on autonomy is linked mainly to the level of knowledge, power of decision, vocational training and institutional factors. The subjects are positioned favorably to the incorporation of care technologies in professional practice, which involves elements such as cost-effective structure, training, and other resources. Conclusion. It is concluded that autonomy is configured as a prerequisite for the full use of technology and technology is configured as a facilitator for nurses to become more autonomous

Key words: nursing; biomedical technology; professional autonomy; Wounds and injuries; psychology, social.


RESUMEN

Objetivo.Identificar las representaciones sociales elaboradas por los enfermeros sobre la autonomía  profesional y  el uso de tecnologías en el cuidado a personas con heridas, analizando sus interfaces con la constante incorporación de  tecnologías en este cuidado. Métodos. Investigación cualitativa, delineada a partir de la teoría y método de las representaciones sociales en su abordaje procesual, realizada con 31 enfermeros de un hospital municipal de Região dos Lagos,  estado de Rio de Janeiro (RJ, Brasil). Las entrevistas se sometieron a análisis de contenido temático instrumentalizado por el software Nvivo 10. Resultados. Los contenidos representacionales sobre autonomía están ligados, sobretodo, al conocimiento, poder de decisión, formación profesional y a factores institucionales. Los sujetos se posicionan favorablemente en la incorporación de tecnologías de cuidado en la práctica profesional, que envuelve elementos como el costo-beneficio, los entrenamientos y otros recursos. Conclusión. La autonomía se configura como un prerrequisito para la utilización plena de la tecnología y  esta se configura como un elemento facilitador para que los enfermeros se vuelvan más autónomos.

Palabras clave: enfermería; tecnología biomédica; autonomia professional; heridas y traumatismos; psicologia social.


 

INTRODUÇÃO

A realidade prática do enfermeiro, principalmente contextualizada no cuidado a portadores de feridas, é frequentemente permeada por conflitos técnicos. Apesar deste profissional possuir formação de nível superior sustentada pelo tripé ensino-pesquisa-extensão, ao menos nas universidades brasileiras públicas federais, frequentemente não consegue executar suas atividades livremente em determinadas instituições de saúde. Em alguns casos, a prescrição da cobertura e tratamento para a lesão fica sob a responsabilidade médica ou, ainda, engessada por protocolos inflexíveis, que restringem as possibilidades de atuação do enfermeiro. A autonomia profissional do enfermeiro é um tema complexo, que carece de análise sob diversos referenciais teóricos e metodológicos. Recebe influências dos processos histórico, cultural e social atravessados pela profissão. Os preconceitos e estereótipos ligados à enfermagem se relacionam com o fato desta ser vista como uma profissão de desempenho manual, de caráter religioso e exercida predominantemente por mulheres. Estes fatores contribuíram para desvalorização da enfermagem enquanto profissão em sua trajetória e desenvolvimento.1

Conceitualmente, a autonomia associa-se à noção de liberdade enquanto autodeterminação, possibilidade de escolha ou ausência de interferência. Entende-se que o processo de construção da autonomia implica na possibilidade do enfermeiro definir as prioridades da assistência2, sendo assim, pressupõe competência e liberdade para realizar escolhas conscientes, dentre as opções possíveis.3-4 A autonomia profissional no cuidado a feridas é, portanto, objeto fecundo de discussão e que reflete diretamente na qualidade da assistência de enfermagem. Postula-se que existem aspectos fundamentais à construção da autonomia do enfermeiro, dentre eles o conhecimento das práticas de enfermagem e a segurança na prática profissional. Estes tornam-se desfavorecidos face a falta de formação teórico-prática adequada, desatualização destes profissionais e descontextualização do ensino no âmbito do sistema de saúde vigente no país, já que a autonomia profissional é fruto da expressão do conhecimento científico.

As feridas podem ser conceituadas como qualquer interrupção na continuidade da pele, em maior ou menor extensão, causada principalmente, por trauma ou afecções clínicas. O tratamento de feridas envolve aspectos sistêmicos e locais, que são, preferencialmente, desenvolvidos pela equipe multiprofissional.5 A autonomia profissional no tratamento de feridas tem sido, ao longo do tempo e da evolução da enfermagem, um tema importante à compreensão por parte da profissão. Nos últimos anos nota-se aumento progressivo da visibilidade social das funções do enfermeiro em virtude da atuação especializada desse profissional, particularmente no tratamento de lesões cutâneas.6

Um aspecto a ser discutido dentro do contexto autonomia na prevenção e tratamento de feridas é a constante incorporação de novas tecnologias de cuidado. O cuidado a pessoas com feridas sempre se deu de maneira recorrente na enfermagem e modifica-se ao compasso do surgimento de novos tratamentos tecnológicos e coberturas aparentemente promissoras, cujo objetivo é o de acelerar o processo de cicatrização e/ou promover maior qualidade de vida ao portador de feridas crônicas, mesmo que a cicatrização não seja a finalidade da assistência. Isto, sob o ponto de vista de alguns profissionais, em princípio, pode ser visto como um fator que dificulta a plenitude da assistência, principalmente para aqueles recém-formados, que necessitam lidar com o novo.7-9 A tecnologia em enfermagem no cuidado a portadores de feridas compreende o conhecimento (científico e humanístico) sistematizado, que se concretiza no ato de cuidar.7-10 A tecnologia não se resume apenas no que é palpável e material, mas também nos recursos subjetivos que norteiam a atuação do profissional que está à frente do cuidado. Desta forma, é relevante pensar o termo tecnologia como um conceito abrangente, que vai muito além da utilização de máquinas. A tecnologia é um processo que envolve diferentes dimensões, do qual resulta um produto que pode ser um bem durável, uma teoria, bens ou produtos simbólicos.11

Quanto à classificação, as tecnologias podem ser leve, leve-dura ou dura. As tecnologias podem ser classificadas como leves quando se referem às relações, acolhimento, gestão de serviços, vínculos; em leve-duras quando se referem aos saberes estruturados, como o processo de enfermagem; e duras quando envolvem os equipamentos tecnológicos como maquinários.11Progressivamente a tecnologia provoca impacto importante e mudanças significativas no mundo do trabalho, de modo geral. Em especial no trabalho da enfermagem, principalmente no âmbito de setores de cuidado clínico, semi-intensivo e intensivo. As principais mudanças são marcadas, de um lado, pela introdução de novos materiais e pela intensificação do uso da tecnologia eletrônica, e, de outro, por mudanças nas formas de organização e gestão do trabalho. A utilização dessas tecnologias tem facilitado o trabalho provocando menos desgaste da força de trabalho, mas pode, também, aumentar os níveis de estresse e tensão, prejudicando a saúde dos trabalhadores.12

As representações sociais são uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e compartilhada, tendo visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. Equivale dizer que representar socialmente é atribuir conhecimentos de caráter coletivo a alguma coisa ou alguém. Confere-se a estas representações uma definição de ciências coletivas, destinadas à interpretação e à elaboração do real.13 A representação é constituída por um conjunto de crenças, informações, opiniões e atitudes a propósito de um dado objeto social. A Teoria das Representações Sociais (TRS) é abrangente, e permite a ressignificação das dimensões da realidade.4 Este trabalho possui como questão norteadora quais os conteúdos representacionais elaborados por enfermeiros sobre sua autonomia profissional no tratamento e prevenção de feridas e a incorporação de tecnologias de cuidado neste contexto?

Objetivou-se, portanto, identificar as representações sociais elaboradas por enfermeiros sobre autonomia profissional no cuidado a portadores de feridas e analisar suas interfaces com a constante incorporação de tecnologias neste cuidado. As representações sociais guiam os comportamentos e as práticas e, desta forma, justificam as tomadas de posição e os comportamentos dos indivíduos.15 Logo, a relevância deste estudo reside na assertiva de que a teoria das representações sociais pode ser utilizada a fim de entender o processo de formação de conhecimentos sobre uma dada profissão, seus aspectos técnicos e limites de atuação, como esta consegue estruturar-se histórica e socioculturalmente, bem como é ressignificada por um determinado grupo social, considerando as dificuldades, dilemas e os desafios atuais enfrentados pela profissão para sua afirmação.4,14-16

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo e exploratório, delineado a partir da teoria das representações sociais (RS) em sua abordagem processual. A coleta de dados ocorreu entre janeiro e março de 2015. Os critérios de inclusão para este estudo foram enfermeiros que trabalhavam no cenário do estudo há, no mínimo, seis meses, e que aceitaram voluntária e conscientemente a participar desta pesquisa. Os critérios de exclusão estabelecidos foram qualquer enfermeiro que por motivos de afastamento, férias, licença maternidade ou outros, não apresentassem disponibilidade para participar da pesquisa.

Os participantes do estudo foram enfermeiros que trabalhavam em um hospital municipal da Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro (RJ, Brasil). Houve a tentativa de alcance de 100% dos enfermeiros, no universo de 50 profissionais. Destes, apenas 31 enfermeiros se encaixaram nos critérios de inclusão e de exclusão, sendo um número aceitável para trabalhos com representação social na perspectiva da abordagem processual.17 A participação dos sujeitos foi facultativa, sendo os mesmos convidados por meio de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foi esclarecido aos participantes que a participação ou não na pesquisa não causaria nenhum tipo de dano, ônus ou bônus ao profissional.

Seguiu-se as normativas presentes na Resolução 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, que prevê os aspectos éticos e legais para pesquisa em humanos. O trabalho foi aprovado por Comitê de ética em Pesquisa (CEP) e submetido e aprovado pelo gestor da instituição em questão. O número do parecer de aprovação é 924.334 e o Certificado de Apresentação para Apreciação ética (C.A.A.E.) é 37502914.8.0000.5243.

Aplicou-se o questionário sociodemográfico e a entrevista semiestruturada para identificar o perfil dos sujeitos e as suas representações acerca da sua autonomia no tratamento de feridas e a constante incorporação de tecnologias de cuidado nesse contexto. Realizou-se a análise de conteúdo temática, que propõe segmentações do discurso em unidades de registro (UR), seguidas de categorizações temáticas, possibilitando sua classificação e quantificação.18 A operacionalização da análise ocorreu por meio do software QSR Nvivo versão 10, que permite que se reúna, organize e analise conteúdos de entrevistas, discussões em grupo, revisões de literatura, áudios e vídeos. Não requer preparo prévio do corpus de análise. Possui capacidade de operar e agrupar dados que possuem algo em comum, possibilitando acrescentar, modificar, associar e cruzar dados.19,20

 

RESULTADOS

Os sujeitos eram, em sua maioria, do sexo feminino (90%), enquadram-se nas faixas etárias de 25 a 34 anos (39%) e 35 a 44 anos (39%), de religião católica (52%), tem companheiro (68%), possuem pós-graduação lato sensu (94%), com tempo de atuação institucional de, no máximo, 5 anos (65%), com igual tempo de atuação profissional como enfermeiro (38%), possuindo renda pessoal inferior ou igual a 6 salários mínimos (42%), tendo apenas um emprego (64%), trabalhando em carga horária semanal de 24h (84%) sem outra formação fora da área da enfermagem (81%), desenvolvendo função de enfermeiro assistencial à época de coleta de dados (68%) e informando ter total acesso a informações científicas (100%). Dos 31 enfermeiros 58% relataram ter autonomia profissional. O resultado da análise instrumentalizada pelo NVivo 10 obteve 573 Unidades de Registro (URs), distribuídas em quatro categorias e que reúnem 100% do corpus analisado. As categorias identificadas foram: categoria 1 - definições de autonomia profissional no contexto do tratamento e prevenção de feridas; categoria 2 - facilidades e dificuldades para estabelecer autonomia profissional; categoria 3 - imagem e formação profissional para autonomia profissional; e categoria 4 - as tecnologias e suas relações com a autonomia profissional do enfermeiro. As UR mais expressivas em cada categoria serão mencionadas seguidas de colchetes, o número de registro de identificação dos participantes e o seu sexo.

Categoria 1. Definições de autonomia profissional no contexto do tratamento e prevenção de feridas

Esta categoria possui 192 URs distribuídas em 47 temas e que equivalem a 33.5% do corpus. Reúne os conteúdos representacionais dos enfermeiros quanto a sua definição de autonomia. As principais temáticas presentes nesta categoria são autonomia profissional do enfermeiro está ligada ao nível de conhecimento e autonomia profissional de acordo com o poder de decisão. Os enfermeiros afirmam que, para ter autonomia profissional no cuidado a feridas, é necessário adquirir conhecimentos técnicos e científicos pertinentes às coberturas. O conhecimento, se você não souber, você não consegue ter autonomia. Infelizmente nós pegamos muitos colegas que não estão tão interessados em adquirir esse conhecimento [Participante 6 - feminino].

Os participantes do estudo posicionam-se favoravelmente à necessidade de buscar novos conhecimentos, dominar as coberturas, suas indicações, especificações e composições químicas para poder protagonizar os cuidados no tratamento e prevenção de feridas e, então, estabelecer autonomia profissional neste contexto. A relação que eu vejo é que a partir do momento em que eu conheço as coberturas, tenho autonomia para trabalhar com elas e quando eu não conheço não tenho autonomia. A partir do momento que eu conheço a indicação e prazo de troca eu tenho autonomia para trabalhar com essa cobertura [Participante 14 - masculino].

Categoria 2.Facilidades e dificuldades para estabelecer autonomia profissional

Esta categoria apresenta 151 URs distribuídas em 72 temas e que equivalem a 26.3% do corpus. Esta categoria reúne os principais fatores facilitadores e dificultadores para estabelecer autonomia profissional para os enfermeiros. Alguns destes fatores referem-se à instituição, a equipe de saúde e de enfermagem e a (in)disponibilidade de materiais. As principais temáticas abordadas e que possuem maior representatividade são valorização da comissão de curativos para a atualização dos enfermeiros, a instituição é um fator interveniente na autonomia profissional do enfermeiro e a autonomia do enfermeiro no trabalho em equipe não é respeitada por interferência médica.

Os enfermeiros expressam o quão relevante é a designação de uma comissão de curativos por parte da instituição de saúde para que haja educação permanente e constante atualização no cuidado a feridas, o que torna comissão de curativos e a instituição hospitalar fatores facilitadores da autonomia profissional do enfermeiro no tratamento e prevenção de feridas. Por que com a comissão de curativos nós temos mais capacitação e estamos sempre nos atualizando. Assim, podemos encurtar o tempo de fechamento de uma ferida [Participante 4 - feminino]. Os sujeitos explicitaram as influências negativas que a instituição pode exercer sobre o trabalho do enfermeiro e de sua equipe, configurando-se como uma variável importante no contexto da autonomia profissional. Na perspectiva dos sujeitos, a instituição pode restringir a atuação do enfermeiro, apesar do conselho de classe da profissão aprovar uma determinada conduta/atuação. Desta forma, a instituição influi negativamente no estabelecimento da autonomia profissional do enfermeiro. As dificuldades vêm das instituições, que, muitas das vezes, nós nos colocamos contra o que administração quer. O Coren (Conselho Regional de Enfermagem) nos dá autonomia para exercer algumas funções, mas a administração do hospital diz que isso não é serviço da enfermagem [Participante 4 - feminino].

Nota-sea dificuldade em estabelecer condutas e tomar decisões frente à equipe de enfermagem e do cuidado com os pacientes devido à interferência médica. Eu não tenho autonomia diante do paciente porque, às vezes, precisamos seguir a prescrição médica apesar de também existir a prescrição de enfermagem. Às vezes existe um confronto pelo nosso conhecimento técnico, nós vemos que não é bem aquilo que o médico está prescrevendo e temos outra visão. Então nós precisamos convencê-lo do contrário [Participante 25- feminino].

Categoria 3. Imagem e formação profissional para autonomia profissional

Esta categoria possui 182 URs distribuídas em 54 temas e que equivalem a 31.7% do corpus. Nela estão os conteúdos representacionais referentes à imagem, identidade profissional, o perfil e o papel do enfermeiro no tratamento e prevenção de feridas. Aborda, também, as questões que permeiam a formação profissional e que refletem na autonomia dos enfermeiros. As temáticas destacadas dentro dessa categoria são distanciamento entre teoria e prática no curso de graduação em enfermagem e imagem do enfermeiro como essencial no tratamento e prevenção de feridas.

Os enfermeiros relatam haver grande distanciamento entre o que se aprende durante os anos de faculdade e sua real prática profissional.Nas representações dos participantes, o distanciamento entre a teoria da prática ocorre devido às carências de material, de profissionais e de uma formação na graduação mais voltada para a realidade dos profissionais, pois a formação existente é, em muitos casos, basicamente teórica. Vejo muita diferença porque na teoria temos os materiais, tudo funciona e na prática é muito diferente. Não temos o material, não temos profissionais, não temos a colaboração de outros profissionais... é muito diferente! [Participante 13- feminino].

Apesar da formação deficitária para o exercício da autonomia profissional, os enfermeiros revelam a importância do enfermeiro frente ao cuidado, tratamento e prevenção de feridas. Eu acho que o enfermeiro no cuidado e tratamento de feridas é essencial. Não é porque eu sou enfermeira, mas ele é a peça principal porque ele cuida mais do paciente, ele orienta mais do que os outros profissionais e acaba sendo uma referência para o paciente [Participante 29-feminino].

Categoria 4. As tecnologias e suas relações com a autonomia profissional do enfermeiro

Esta categoria possui 48 URs distribuídas em 20 temas e que equivalem a 8.3% do corpus de análise. Esta categoria contém as representações dos enfermeiros quanto a constante incorporação de tecnologias de cuidado no cotidiano hospitalar e as suas relações com a autonomia profissional. Os participantes desta pesquisa posicionam-se favoravelmente à incorporação de tecnologias, desde que recebam treinamentos específicos. Os sujeitos estabelecem relações entre os fatores tecnologia de cuidado, conhecimento, informação e autonomia profissional. Eu acho que com a chegada de novas tecnologias, chega mais informação e, sob esse ponto de vista, nós temos mais autonomia [Participante 26- feminino].

Nota-se que, em sua discursividade, os enfermeiros referem que deter autonomia é condição para o uso pleno das tecnologias de cuidado. Percebe-se que, no pensamento social do grupo, existe um elo entre conhecimento, autonomia e uso de tecnologias de cuidados, sendo estes fatores interdependentes. Até porque para utilizarmos a tecnologia temos que ter autonomia [Participante 18- feminino]. Nos dados obtidos, ficou evidenciada a atitude favorável dos enfermeiros à introdução das tecnologias de cuidado no âmbito na prática profissional. Eu acho muito válida [a tecnologia]. Eu acho que todo hospital deveria começar a trabalhar com coberturas mais avançadas, coberturas de ponta. Infelizmente nem todo hospital as usa [Participante 11-feminino].

Nos conteúdos representacionais dos participantes, para que seja utilizada a tecnologia são necessários treinamentos específicos, de maneira que, frequentemente, o emprego de tecnologias de cuidado é diretamente dependente de ações de capacitação profissional. Eu acho que [a tecnologia] facilita bastante, mas eu acho que no uso de tecnologias tem que haver treinamento. Muitas das vezes temos a tecnologia, mas não temos o profissional adequado e capacitado para usá-la. é preciso acompanhar essa tecnologia, mas eu a acho importantíssima! [Participante 18 - feminino].

 

DISCUSSÃO

As representações sociais, como evidenciadas ao longo da pesquisa, são consideradas como fruto de um processo mental, através da qual um grupo reconstitui a realidade com a qual se confronta e para a qual atribui um significado específico. As RS são, portanto, uma forma de conhecimento, tendo visão prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social. Deste modo, representar socialmente é atribuir conhecimentos de caráter coletivo a alguma coisa ou alguém. é a interpretação e elaboração do real.13

Quanto às representações dos enfermeiros em relação à autonomia profissional os dados da pesquisa demonstram que, de acordo com os participantes, ser autônomo é ter liberdade para atuação. Eles a concretizam no poder de decisão sobre quais condutas estabelecer e evidenciam que esta é diretamente ligada ao nível de conhecimento destes profissionais. é necessário conhecer para cuidar melhor, cuidar para confrontar, onde conhecimento, poder e autonomia se tencionam para libertar o fazer humano das amarras que o impedem de concretizar ações possíveis.21 Um dos grandes obstáculos à autonomia profissional do enfermeiro, segundo os participantes, é a interferência de outros profissionais, principalmente médicos, no cuidado prestado pela enfermagem em âmbito hospitalar. Os participantes referem não ter autonomia plena no cuidado de feridas no cenário de estudo pela tensão que persiste entre o saber médico e o do enfermeiro. Durante história da organização das profissões de saúde existiu um processo de institucionalização da medicina como detentora legal do saber em saúde e elemento central do ato assistencial.22 A excessiva interferência médica na assistência de enfermagem e as dificuldades no relacionamento entre a equipe, ambas vivenciadas cotidianamente, resultam em desgaste físico e psíquico da enfermagem, comprometendo a saúde do trabalhador enfermeiro e, consequentemente, a assistência que ele presta.23

Nas representações dos entrevistados, um fator facilitador à sua autonomia é a implementação de uma comissão de curativos. O estabelecimento de uma comissão de curativos é de responsabilidade das instituições de saúde e tem como objetivos diminuir, prevenir e tratar as feridas; além de ser responsável pela capacitação e atualização dos profissionais, elaboração de protocolos e instrumentos para avaliação das feridas a fim de monitorar as medidas tomadas e suas respostas aos cuidados prestados.24 Quanto à formação profissional os participantes consideram existir um distanciamento entre o que é proposto como teoria e o cotidiano de prática do profissional. Os enfermeiros, por estarem envolvidos no cuidado humano, necessitam de uma formação diferenciada que faça com que esse profissional detenha criticidade suficiente para autocrítica e busca por cada vez melhor qualificada prática profissional.25 Neste contexto, sugere-se necessidade de artifícios mais práticos durante a graduação, como o uso de simulação enquanto método de ensino, realização de práticas de enfermagem em laboratórios e treinamento de habilidades em manequins.

O enfermeiro, como líder da equipe de enfermagem, possui um papel relevante no tratamento de feridas, uma vez que tem maior contato com o paciente, acompanha a evolução da lesão, orienta e executa o curativo, bem como detém maior domínio intelectual desta técnica, em virtude de ter na sua formação componentes curriculares voltados para esta prática. Sob a égide das representações sociais identificadas, as interfaces entre autonomia profissional e tecnologia de cuidado são pautadas na intercessão entre ambas. Esta intercessão reúne sólida formação profissional de base, treinamento específico e contínuo, presença da comissão de curativos e disponibilidade de recursos humanos e materiais.

Com relação a necessidade de treinamento para a utilização de tecnologias de cuidado, os participantes colocam em evidência tecnologias leve-duras e duras, como equipamentos, coberturas sofisticadas e protocolos institucionais, em detrimento das tecnologias leves que também fazem parte do trabalho do enfermeiro.11 Os processos de inovação tecnológica em saúde têm se constituído como um problema considerável devido ao aumento de custos por meio do impacto que geram sobre a formação e atualização de recursos humanos. Por outro lado, para os participantes desta pesquisa, apesar dos elevados custos, o uso destas tecnologias quando realizado de forma correta proporciona grande benefício à assistência prestada e, consequentemente, diminui o tempo de internação do paciente.

Existem, no pensamento social dos enfermeiros, associações entre os equipamentos médicos com o cuidado de enfermagem. Tais associações possivelmente bebem da tentativa de manter o equilíbrio entre a dimensão objetiva e subjetiva do cuidado de enfermagem, sendo este mediado pela tecnologia. A dimensão objetiva abarca a aplicação de saberes estruturados e diz respeito à manipulação das máquinas e interpretação das informações oriundas dessas de tal forma a direcionar as ações, enquanto a subjetiva ganha força a partir da expressividade do cuidar.

Conclui-se que os conteúdos representacionais sobre autonomia estão ligados, sobretudo, ao nível de conhecimento, poder de decisão, formação profissional e a fatores institucionais. Os sujeitos posicionam-se favoravelmente à incorporação de tecnologias de cuidado na prática profissional, que envolve elementos como custo-benefício, estrutura, treinamentos e outros recursos. Conclui-se que nas construções psicossociais dos enfermeiros a autonomia profissional se configura como um pré-requisito para a utilização plena da tecnologia e a tecnologia configura-se como um elemento facilitador para que o enfermeiro se torne mais autônomo. Este estudo possui como limitações a sua realização em apenas um determinado contexto e com número restrito de profissionais. Essas limitações podem suscitar o desenvolvimento de novas pesquisas de caráter multicêntrico, que refutem ou reiterem os dados aqui obtidos, mas em contexto mais amplo, seja ele nacional ou internacional. Logo, as expressões psicossociais da autonomia profissional do enfermeiro na prevenção e tratamento de feridas se trata de uma lacuna do conhecimento a ser explorada de maneira mais aprofundada e sob diversos olhares teóricos e metodológicos.

Enquanto potencialidades, esta pesquisa - que alcançou o objetivo inicialmente proposto -, desvelou nuanças específicas sobre os saberes e práticas dos enfermeiros sobre sua autonomia no cuidado a portadores de feridas não desveladas anteriormente. Com isto, as instituições de saúde e de ensino superior em enfermagem, seja de nível de graduação ou pós-graduação, podem debruçar-se sobre os resultados reunidos nesta pesquisa para reformular e fortalecer suas estratégias pedagógicas para fomentar o exercício da autonomia profissional de futuros enfermeiros.

 

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Abstract : 1109

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