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Desenvolvimento de cobertura e sua avaliação no tratamento de feridas crônicas

Marcia Diana Umebayashi Zanoti (1)

Helena Megumi Sonobe (2)

Sidney José Lima Ribeiro (3)

Ana Maria Minarelli Gaspar (4)

Objectivo

Descrever o desenvolvimento da cobertura de celulose bacteriana com anti-inflamatório Ibuprofeno (CB/Ibu) e avaliar o processo de cicatrização com a sua utilização em pacientes com feridas crônicas de e tica.

Métodos

Estudo descritivo longitudinal. A membrana de celulose, cultivada com bactérias Gluconacetobacter xylinus e com incorporação do Ibuprofeno, foi utilizada no tratamento de pacientes com feridas crônicas em serviços de atendimento público de um município brasileiro. Foram avaliadas as características de cobertura ideal mediante testes físicos, químicos e de proliferação celular.

Resultados

A amostra foi constituída por 14 pacientes (10 mulheres e 4 homens), sendo 8 com úlcera venosa, 5 com pé diabético e um com ferida mista. Houve redução da área e da dor em 9 lesões; cicatrização total de 3 feridas; e o debridamento do tecido desvitalizado em 5 feridas com aumento da área. O uso da membrana além da diminuição da dor, da exsudação e facilidade na realização do curativo.

Conclusão

A CB/Ibu favoreceu o processo cicatrização dos pacientes com feridas crônicas vasculogênicas.

Descritores

pé diabético; úlcera varicosa; celulose; ibuprofeno; cicatrização; Gluconacetobacter xylinus.


Development of coverage and its evaluation in the treatment of chronic wounds

Objective

To describe the development of the bacterial cellulose coating with anti-inflammatory Ibuprofen (BC/Ibu) and to evaluate the cicatrization process with its use in patients with chronic wounds of venous and diabetic etiology.

Methods

Longitudinal descriptive study. The cellulose membrane, cultivated with bacteria Gluconacetobacter xylinus and with incorporation of Ibuprofen, was used in the treatment of patients with chronic wounds in public health services in a Brazilian municipality. The ideal coverage characteristics were evaluated through physical, chemical and cell proliferation tests.

Results

The sample consisted of 14 patients (10 women and 4 men), 8 with venous ulcer, 5 with diabetic foot and one with mixed wound. There was reduction of area and pain in 9 lesions; total healing of 3 wounds; and debridement of the devitalized tissue in 5 wounds with increased area. The use of the membrane was important in the reduction of pain, exudation and ease in the accomplishment of the curative.

Conclusion

BC/Ibu favored the cicatrization process of patients with chronic vasculogenic wounds.

Desctriptors

diabetic foot; varicose ulcer; cellulose; ibuprofen;wound healing; Gluconacetobacter xylinus.


Desarrollo de cobertura y su evaluación en el tratamiento de las heridas crónicas.

Objectivo

Describir el desarrollo de la cobertura de celulosa bacteriana con antiinflamatorio Ibuprofeno (CB/Ibu) y evaluar el proceso de cicatrización en la utilización en pacientes con heridas crónicas de etiología venosa y diabética.

Métodos

Estudio descriptivo longitudinal. La membrana de celulosa, cultivada con bacterias Gluconacetobacter xylinus y con incorporación del Ibuprofeno se utilizó en el tratamiento de pacientes con heridas crónicas en servicios de atención pública de un municipio brasileño. Se evaluaron características de cobertura ideal mediante pruebas físicas, químicas y de proliferación celular.

Resultados

La muestra fue constituida por 14 pacientes (10 mujeres y 4 hombres): 8 con úlcera venosa, 5 con pie diabético y uno con herida mixta. Se redujo el área y el dolor en 9 lesiones; la cicatrización total de 3 heridas; y el debridamiento del tejido desvitalizado en 5 heridas con aumento del área. El uso de la membrana de celulosa disminuyó el dolor de la exudación y facilitó la realización del vendaje.

Conclusión

La CB/Ibu favoreció el proceso de cicatrización de los pacientes con heridas crónicas vasculogénicas.

Desctriptores

pie diabético; úlcera varicosa; celulosa; Ibuprofeno; cicatrización de heridas; Gluconacetobacter xylinus.


Introdução

A assistência à pessoa com ferida envolve aspectos como tipos de lesões ou traumas, com suas respectivas especificidades; no entanto, é necessário avaliar o paciente, nos diferentes contextos socioculturais e de assistência à saúde aos quais estão inseridos, identificando as características de cada ferida. Mediante análise integral é possível planejar a assistência de enfermagem e da equipe multiprofissional para a resolução da demanda de necessidades de saúde da clientela.1

As feridas crônicas são resultantes das ausências do processo de reparação tecidual ordenada e temporal ou da restauração anatômica e funcional.2 Dentre as feridas crônicas trabalhamos com as feridas vasculares, a úlcera venosa (UV) e a lesão do pé diabético (PD), por constituírem um problema de saúde pública importante, tanto no Brasil como no mundo, com repercussões fisiológicas, psicossociais e culturais.(2

O tratamento envolve vários fatores e pode ser difícil, em razão das alterações próprias da doença, como comorbidades associadas, idade avançada, eczema e dermatoesclerose3 e a terapêutica se relaciona a correção da condição de base e o uso de medidas locais para ocorrer à cicatrização.4) Dentre as várias coberturas utilizadas no tratamento estão o carvão ativado, carvão com sais de prata para lesões com grande quantidade de exsudato; hidrocolóides nas lesões pequenas e médias; antibióticos e colagenase.5)

Os fármacos de administração tópica têm sido indicados frequentemente, por exercem efeito periférico adjacente,6 sendo que dentre os anti-inflamatórios não hormonais na prática clínica, temos o Ibuprofeno. O seu mecanismo de ação consiste na inibição da enzima ciclo-oxigenase tipo 1 e 2, reduzindo a síntese de prostaglandinas e da sensibilização de terminações nervosas periféricas, sítio comum de dor e inflamação. A sua aplicação tópica promove concentrações terapêuticas no tecido alvo, contudo os níveis séricos não geram reações adversas.6 Por outro lado, o Ibuprofeno é praticamente solúvel em água e facilmente solubilizado em álcool, acetona, éter e em cloreto de metila.7

O objetivo desta pesquisa foi de descrever o desenvolvimento da cobertura de CB/Ibu e avaliar o processo de cicatrização com a sua utilização no tratamento de feridas crônicas, de etiologia venosa e diabética de membros inferiores, de pacientes em seguimento clínico nos serviços de assistência pública de um município brasileiro.

Métodos

Este trabalho foi desenvolvido como tese de doutorado do Instituto de Química, Programa de Biotecnologia da UNESP de Araraquara-SP, no período de março de 2013 a fevereiro de 2017, as mantas de CB foram preparadas no Laboratório de Materiais Fotônicos do Instituto de Química da UNESP, cujo cultivo das bactérias Gluconacetobacter xylinus ocorreu em 72 horas a 28ºC, em meio de cultura estática.

Para a remoção das bactérias, a membrana foi tratada com uma solução diluída de hidróxido de sódio a 80°C por 20 minutos, com posterior lavagem exaustiva com água destilada. Após esta preparação, as mantas de CB foram imersas no anti-inflamatório Ibuprofeno, que foi diluído com 1 ml de água destilada na concentração de 0.5mg/cm² e colocado em estufa a 28°C por 24 horas. Estas membranas, também foram analisadas e caracterizadas por meio de diferentes testes físicos, químicos como Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV), Difração de raios X, Análise Termogravimétrica (TG), Calorimetria Exploratória Diferencial (DSC), Infravermelho, Espectroscopia Eletrônica na região do UV-Visível (UV-vis) e de proliferação celular.

Após a secagem, as membranas de CB/Ibu, foram embaladas em papel grau cirúrgico e esterilizadas por raios gama pela empresa Embrarad, de Cotia (SP). A cobertura de CB/Ibu foi aplicada em uma amostra não probabilística, por conveniência, de pacientes em seguimento clínico nos serviços de assistência pública de um município brasileiro. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa por meio do registro CAAE: 36527414.7.0000.5512, e com Parecer número: 911.647. Foi solicitada autorização dos participantes para o registro fotográfico da evolução da ferida com a utilização da cobertura CB/Ibu. A avaliação das úlceras foi realizada com as imagens fotográficas de uma câmera digital (Sony Cyber-shot 14.1 mega pixels), sendo a análise de sua área total mensurada com o software ImageJ 1.46, de domínio público. Assim, foram calculadas as áreas de cada úlcera pelo software ImageJ, com a definição do índice de cicatrização das úlceras (ICU), onde ICU-1, reepitelização total; ICU-0 sem sinais de reepitelização; 0<ICU<1-redução da área ulcerada; ICU<0-aumento da área ulcerada, calculada pela fórmula: área inicial menos a área final, dividido pela área inicial.

Estudo quantitativo, descritivo longitudinal, participaram indivíduos de ambos o sexo, maiores de 18 anos, portador de feridas crônicas de etiologia vasculogênicas, UV e/ou PD, em qualquer estágio de cicatrização, na fase crônica da ferida, que frequentam os serviços de assistência pública de um município brasileiro; foram excluídos da pesquisa, pacientes que não eram portadores de feridas vasculogênicas ou que não estavam em fase crônica. O tratamento foi interrompido após cicatrização total ou no máximo de 120 dias ou quando o mesmo mudou a conduta por solicitação médica ou por sua vontade.

Os curativos dos pacientes esclarecidos foram realizados por eles e supervisionado pela pesquisadora, após treinamento e os demais a própria pesquisadora realizava diariamente nas unidades de saúde e/ou em seus domicílios. Essa ferida foi avaliada no primeiro dia do tratamento e semanalmente, através da mensuração da área total através de registros fotográficos, sendo que o próprio paciente era o controle. A dor foi avaliada semanalmente através da escala de intensidade da dor.

Após os dados foram analisados estatisticamente (média, mediana, porcentagem) e as áreas das feridas com o software ImageJ 1.46.

Resultados

As membranas de CB/Ibu, mediante as técnicas físico-químicas de MEV, Difração de raios X, TG, DSC, Infravermelho, UV-vis, os ensaios de proliferação celular com fibroblastos cultivados, bem como os testes de liberação do Ibuprofeno e os testes de permeação e retenção de Ibuprofeno, apresentaram todas as propriedades necessárias e ausência de reações adversas, que constituem características de uma cobertura ideal.

Dentre os 14 participantes que constituíram a amostra deste estudo, 8 (57.10%) apresentavam UV, 5 (35.70%) PD e 1 (7.20%) úlcera mista, 2.483 dias é a média do tempo de existência da ferida, representando 6.8 anos; 47.30 dias foi o tempo médio de tratamento, das 17 feridas no total, 9 (52.94%) tiveram redução da área, 3 (17.65%) cicatrização total e 5 (29.41%) desbridamento com aumento da área (Tabela1 ).

Tabela 1: Caracterização da ferida, segundo tipo, tempo de existência e de tratamento com CB/Ibu e dimensões das áreas inicial e final, durante o seguimento domiciliário da amostra do estudo.

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A amostra do estudo foi composta por 14 pacientes, sendo 10 (71.50%) do sexo feminino e 4 (28.50%) do sexo masculino. A idade dos participantes teve uma variação entre 43 e 86 anos, cuja média foi de 64.7 anos e a mediana de 53 anos. Quanto ao estado civil 6 (43.0%) eram casados, 4 (28.60%) viúvos, 2 (14.20%) solteiros e 2 (14.20%) divorciados. Em relação à escolaridade, 2 (14.30%) eram analfabetos; 7 (50.0%) estudaram um número de anos que atualmente são classificados como fundamental I; 1 (7.10%) fundamental II; e 4 (28.60%) no ensino médio. Quanto as comorbidades,10 (71.43%) pacientes eram diabéticos e hipertensos, 3 (21.43%) hipertensos e 1 (7.14%) somente diabético. A renda dos participantes do estudo 11 (78.57%) estavam afastados por problema de saúde ou aposentados com média de um a dois salários mínimos, 2 (14.29%) não tinham nenhuma renda, dependiam da família e 1 (7.14%) trabalhava sem carteira assinada, recebendo menos que um salário mínimo.

Apresentamos a evolução descritiva dos participantes durante o seguimento deste estudo.

Participante 1. Mulher, 59 anos, diagnóstico médico de Diabetes mellitus, (DM) hipertensão arterial sistêmica, hipotireoidismo e UV, ferida com 10 anos de existência, que no início do tratamento, com presença de grande quantidade de exsudato seroso, sendo que ao final do tratamento de 120 dias, houve uma diminuição da área em 57.90%, ausência de exsudato, de odor e dor, facilidade na aplicabilidade da cobertura e de permanência do curativo.

Participante 2. Mulher, 57 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e UV. O tempo de existência da ferida era de 20 anos. No início do tratamento apresentava grande exsudação serosa, de odor fétido, com presença de esfacelo e dor intensa. Ao final de 50 dias de tratamento, houve piora do quadro clínico, com hipertermia, algia intensa na perna e solicitação da participante para interrupção do tratamento com CB/Ibu, houve redução da área em 33.07%. Quando o tratamento com CB/Ibu foi interrompido, a paciente relatou facilidade na aplicação da cobertura, mas queixava-se de dor intensa.

Participante 3. Homem, 65 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e PD, com tempo de existência da ferida de 2 anos, posteriormente à amputação de 2 dedos (devido a complicações da diabetes). Inicialmente ao tratamento, a ferida apresentava grande quantidade de exsudação purulenta. Após 20 dias de tratamento com CB/Ibu houve diminuição da área em 15.47% e de exsudação, além do debridamento de esfacelo na borda periférica, com tecido de granulação. Contudo, o participante solicitou interrupção do tratamento alegando que não estava notando melhora.

Participante 4. Homem, 65 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e UV, com tempo de existência da ferida, de cerca de 1. No início do tratamento verificou-se média de quantidade de exsudação serosa e relato de dor leve. Ao final do tratamento com CB/Ibu aos 120 dias, constatou-se diminuição da área da ferida de 8.48%, com ausência de exsudação, de odor e relato de satisfação pela ausência de dor, facilidade na aplicação desta cobertura e manutenção do curativo sem extravasamento.

Participante 5. Mulher, 86 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e PD, apresentava ferida há 20 dias, em decorrência de lesão pelo uso de um chinelo cuja alça de borracha foi substituída por um pedaço de arame. Na avaliação inicial da ferida havia presença de pequena quantidade de exsudação e dor, de moderada a intensa. Com 28 dias de tratamento, houve reepitelização total, sendo que a mesma relatou ausência de dor, facilidade na aplicação da cobertura e felicidade pela cura da ferida em pouco tempo.

Participante 6. Homem, 57 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e PD, com ferida de um (1) ano. Inicialmente ao tratamento, havia grande quantidade de exsudato seroso. Após 28 dias de tratamento, quando houve diminuição da área de ferida de 34.45%, ausência de exsudato, contudo, iniciou um quadro de hipertermia e mal-estar, que resultou em internação e realização de abordagem cirúrgica da ferida. Quando o nosso seguimento foi interrompido, o paciente relatou ausência de dor, facilidade na aplicação da cobertura e curativo.

Participante 7. Mulher, 63 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistemica e UV, sendo a primeira ferida ocorreu há mais de 30 anos, sem causa aparente; a atual ferida tinha 1 ano e 9 meses. A ferida apresentava média quantidade de exsudação serosa, hiperemia local e edema, além de grande quantidade de esfacelo em toda a extensão da ferida; relatava muita dor local e no membro inferior esquerdo. O tratamento foi interrompido aos 38 dias, quando foi verificada uma diminuição da área de ferida de 29.31%, crescimento de tecido de granulação em toda a extensão da ferida relato de dor no momento da aplicação da cobertura, mas melhora logo em seguida, ausência de uso de analgésico via oral, além da facilidade na aplicação da cobertura e curativo, sem extravasamento de exsudato.

Participante 8. Mulher, 43 anos, diagnóstico médico de hipertensão arterial, sistêmica, hipotireoidismo e UV, há 1 ano e meio. No início havia presença de média quantidade de exsudação serosanguinolenta na ferida, de odor, presença de tecido necrótico em crosta (escara). Após 15 dias de tratamento, na consulta médica de retorno vascular, visualmente havia uma exposição de todo o leito da ferida, com um aumento em 32.25%, devido ao debridamento total do tecido necrótico e desvitalizado (escara), com exposição total da extensão de área da ferida, que corresponde a fase importante do processo cicatricial e não ausência de melhora. Quando o tratamento foi interrompido, foi relatada melhora da dor, facilidade na aplicação da cobertura, curativo sem extravasamento de exsudato e de odor, além da melhora no aspecto da ferida devido ao debridamento da área necrótica (Figura 1).

Participante 9. Mulher, 63 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e úlcera mista (UM) há 7 anos, com presença de grande quantidade de exsudação serosanguinolenta e de esfacelo em toda a extensão da borda da ferida, ausência de esfacelo no leito da ferida, além de relatos de dor intensa, tomava analgésicos diversas vezes ao dia. Após 37 dias de tratamento, constatou-se diminuição da área de ferida de 7.86% e ausência de exsudato. Contudo, foi diagnosticado que a UM e não só venosa e o tratamento foi interrompido, mas a mesma relatou melhora significativa da dor, facilidade na aplicação da cobertura.

Participante 10. Mulher, 84 anos, afásica após um acidente vascular encefálico (AVE), diagnóstico médico de hipertensão arterial sistêmica e UV há 10 anos, que surgiu após fazer uma angioplastia. Ferida com média quantidade de exsudação serosanguinolenta e relato dor intensa. Após 120 dias, houve aumento da área em 159.50%, devido ao debridamento de esfacelo em toda a extensão de borda da ferida e crescimento de tecido de granulação em todo o leito da ferida com diminuição da profundidade. Ao final do tratamento com a CB/Ibu, o filho relatou melhora da dor significativa, pois a mesma tomava medicamento para a dor diariamente e reduziu a frequência para um analgésico a cada 3 dias, facilidade na aplicação da cobertura e curativo, sem extravasamento de exsudato no curativo.

Participante 11. Homem, 66 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e UV há 40 anos, após um acidente de carro, com duas fraturas na perna. No início do tratamento apresentava grande quantidade de exsudação serosanguinolenta além de hiperemia periférica e em toda a extensão da porção mediana inferior ao joelho direito, edema dos membros inferiores e três (3) feridas, duas na perna direita e uma na perna esquerda. Após 15 dias de tratamento foi interrompido por solicitação do paciente. Em relação às feridas, havia tido diminuição da área da ferida na perna esquerda de 5.21% e aumento nas outras duas, da perna direita, uma em 49.49% e outra em 66.09%, devido ao debridamento e a ausência de esfacelo em toda a extensão de borda e no leito das feridas. Além disso, houve ausência total do edema nos membros inferiores e da dor. Quando o tratamento foi interrompido, o participante relatou ausência de dor, facilidade na aplicação da cobertura, sem extravasamento de exsudato.

Participante 12. Mulher, 62 anos, diagnóstico médico de hipertensão arterial sistêmica, obesidade e UV há 5 meses, com presença de pequena quantidade exsudação serosa, esfacelo em toda a extensão da ferida, edema (++/++++) e relatos de muita dor. Após 35 dias, o tratamento foi interrompido por solicitação do participante, havia aumento da área em 53.57% devido ao debridamento total de esfacelo, além da regressão do edema no membro inferior esquerdo. Apesar do relato de persistência da dor, foi identificado facilidade na aplicação e manuseio da cobertura e ausência de extravasamento de exsudato no curativo.

Participante 13. Mulher, 56 anos, do lar, diagnóstico médico de DM e PD há 6 meses, com grande quantidade de exsudação serosa, relatos de dor constante e piora da mesma durante o procedimento do curativo. Após 15 dias de tratamento houve diminuição da área da ferida de 11.37%, da exsudação serosa e melhora da dor após o curativo. Apesar destes resultados, o profissional de enfermagem modificou a cobertura utilizada no curativo. Assim, quando o tratamento foi interrompido, foi relatada persistência da dor durante o curativo, mas que melhorava após o término, facilidade na aplicação da cobertura e ausência de extravasamento de exsudato no curativo.

Participante 14. Mulher, 80 anos, diagnóstico médico de DM, hipertensão arterial sistêmica e PD há 10 dias. Na avaliação inicial, havia pouca exsudação serosa, pele frágil e fina ao redor. Ao final de 14 dias de tratamento com CB/Ibu, no pé esquerdo houve diminuição da área em 100% e no pé direito houve diminuição da área em 100% com 10 dias. Foram relatados ausência de dor, facilidade na aplicação e no manuseio da cobertura, além da ausência de extravasamento de exsudato e odor (Figura 2).

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Figura 1: Foto do primeiro e do último dia da aplicação da cobertura de CB/Ibu.

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Figura 2: Foto do primeiro e do último dia da aplicação da cobertura de CB/Ibu.

Discussão

A predominância dessas feridas no sexo feminino, em geral está relacionada aos hormônios femininos e a gestação, pois as alterações hormonais predispõem à insuficiência venosa crônica e, consequentemente, à formação de UV. Dados descritos em literatura indicam uma proporção de 2.3 vezes maior de feridas vasculares em mulheres em relação aos homens.8-10 Quanto a idade, dados encontrados em um estudo11 na cidade de Niterói demonstrou a média de 63.5 anos, dados semelhantes encontrados nesse estudo.

A escolaridade é um item fundamental para que as pessoas possam ter acesso e buscar informações de uma forma geral, além de possibilitar melhor entendimento sobre as orientações dadas pelo profissional da saúde. Dados semelhantes foram encontrados em outro estudo, onde o baixo nível de escolaridade limitou o acesso às informações, dificultando sua compreensão quanto à alimentação, atividade física, dosagem das medicações, entre outros fatores.12

O processo de cicatrização de feridas depende de uma multiplicidade de fatores, relacionados aos aspectos fisiológicos, sociais, de acessibilidade ao sistema de assistência à saúde e à alimentação, entre outros. Portanto, para a análise do perfil da amostra deste estudo, utilizamos o conceito de Determinantes Sociais de Saúde (DSS), que as condições de vida e de trabalho dos indivíduos e de grupos da população, relacionados com sua situação de saúde.13,14 Portanto, ao analisarmos os dados sociodemográficos e clínicos, considerando os DSS na perspectiva da Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais de Saúde, que amplia a discussão com maior detalhamento sobre os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais, verificamos que o perfil da amostra deste estudo, apresenta características, que constituem os grandes desafios na prestação da assistência à saúde.13,14) Neste estudo, a especificidade se refere à indicação de cobertura e a realização da intervenção de curativo. É importante ressaltarmos que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mede o nível de desenvolvimento humano dos países utilizando como critérios indicadores de educação (alfabetização e taxa de matrícula), longevidade (esperança de vida ao nascer) e renda (PIB per capita). Países com IDH até 0.499 têm desenvolvimento humano considerado baixo, os países com índices entre 0.500 e 0.799 são considerados de médio desenvolvimento humano e países com IDH superior a 0.800 têm desenvolvimento humano considerado alto.15

A pesquisa foi realizada no município do interior paulista em Araraquara, cujo IDH é de 0.815, que indica um desenvolvimento humano alto. Contudo, o perfil da nossa amostra não corrobora este IDH, pois temos desde pacientes analfabetos, com renda familiar de um salário mínimo e com desesperança de vida, por ter problemas de saúde há anos e com uma ferida que não cicatriza. Estas considerações podem auxiliar no entendimento das dificuldades para o gerenciamento dos fatores na amostra deste estudo, que influenciaram a ocorrência de problemas de saúde e riscos para possíveis complicações em pessoas com feridas vasculogênicas, bem como na avaliação da utilização da CB/Ibu. Dentre estes, identificamos a idade, comorbidades, temporalidade de existência da ferida, uso de medicamentos orais com vários princípios ativos, bem como a renda familiar, acesso ao estudo formal, vínculo empregatício, que interferem no surgimento ou a manutenção de uma lesão.

Sob o ponto de vista clínico, os participantes deste estudo apresentavam predomínio de DM e Hipertensão arterial sistêmica, sendo que a ferida vasculogênica, quer seja PD ou UV, são respectivamente, as complicações destes diagnósticos, o que compromete ainda mais o processo cicatricial. Ressaltamos ainda que, a temporalidade da lesão variou entre 10 dias e 40 anos, com histórico de insucessos de outras terapias, principalmente as tópicas, com utilização com diferentes medicamentos. Além disso, observamos que estes indivíduos não tinham possibilidades de manutenção adequada de alimentação, de higiene e de curativo diário eficaz, bem como apresentavam dificuldades para a adesão total ao tratamento.

A condição nutricional é outro fator decisivo na evolução do processo cicatricial devido à especificidade de ação como as proteínas por favorecer a resposta inflamatória e a síntese de colágeno com a remodelação da úlcera; os carboidratos e as gorduras por fornecer energia; a vitamina K por atuar no processo da coagulação, o complexo B no metabolismo do colágeno, o zinco na proliferação celular e epitelização; e o manganês, o cobre, o magnésio e as vitaminas A e C por contribuir na síntese do colágeno.16,17 Desta forma, estes fatores nutricionais poderiam explicar o fato dos participantes apresentarem úlceras com maior dificuldade de cicatrização (P8, P10, P11 e P12), pois relataram fazer uso de carboidratos e frituras predominantemente, o que não é adequada, considerando-se que, praticamente todos, tem outras comorbidades como DM ou hipertensão arterial sistêmica. Por outro lado, o aumento área das feridas destes indivíduos pode estar vinculado com o fato da CB/Ibu apresentar as características de uma cobertura ideal, mantendo a umidade no leito da ferida, que favorece a ocorrência do processo de cicatrização, o controle do processo inflamatório, bem como o debridamento natural, conforme resultados da análise das características química e bioquímica deste estudo.

O surgimento de feridas crônicas, em especial ao PD e UV, interfere na qualidade de vida destes indivíduos, sendo que o impacto socioeconômico desses pacientes é significativo devido aos gastos com os tratamentos, internações prolongadas e recorrentes, incapacitações físicas e sociais, com perda de emprego e da produtividade. Para a pessoa, há repercussão na sua vida pessoal, afetando sua autoimagem, sua autoestima e seu papel na família e na sociedade, e, se houver limitação física, pode levar ao isolamento social e depressão.18,19 Esse impacto dependerá da percepção do paciente e de sua família, de como lidar com o autocuidado e com a doença. Os amigos são fundamentais nesse momento, pelo apoio social.20 As complicações físicas ocorrem a curto e em longo prazo, com mudanças no estilo de vida, polarização do tempo do cotidiano para tratamentos e os eventos adversos das medicações.21 O emocional pode ser comprometido em decorrência de frustração e desesperança com a doença e suas complicações; cansaço ou desânimo com manejo do tratamento, além de baixa autoestima, sentimento de inferioridade e depressão22, que constituem os grandes desafios aos profissionais na prestação da assistência a esta clientela.

As limitações deste estudo foram relacionadas à obtenção de maior amostra em decorrência da dificuldade de seguimento longitudinal pelo comprometimento clínico dos participantes e a manutenção de sua adesão ao tratamento.

Conclusão

Através do tratamento com a cobertura de CB/Ibu obtivemos resultados promissores como a cicatrização total de 3 feridas, redução da área de 9 feridas e desbridamento de esfacelo em 5 feridas; relatos de ausência e ou diminuição da dor e de uso de analgésicos orais. Com a permeação do Ibuprofeno, que atinge a circulação sanguínea diminuindo ou aliviando a dor, sem causar reações gastrointestinais melhorou a vida social dos pacientes, bem como pela ausência de extravasamento do exsudato das feridas, pela manutenção do curativo seco e pela facilidade de utilização dessas coberturas pelos pacientes. A cobertura de CB/Ibu para as feridas vasculogênicas como PD e UV manteve-se íntegra no leito da ferida dos pacientes; permitiu troca gasosa e facilidade para a realização do curativo.

Para a enfermagem e saúde pública este estudo é um avanço, pois contribui como uma alternativa no tratamento de feridas crônicas, nunca relatados pela literatura, da associação entre a membrana de celulose e o Ibuprofeno, desde a sua produção e a implementação de sua utilização em usuários do sistema público de saúde com alcance de resultados promissores.

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Notes

Conflict of interest: none.

Funding: CAPES.

How to cite this article: Zanoti MDU, Sonobe HM, Ribeiro SJL, Gaspar AMM. Development of coverage and its evaluation in the treatment of chronic wounds. Invest. Educ. Enferm. 2017; 35(3):330-339.

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Abstract : 898

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