PT02

Proteção a crianças e adolescentes vítimas de violência: olhares dos professionais de um serviço especializado

Priscila Arruda da Silva(1)

Valéria Lerch Lunardi(2)

Rodrigo Dalke Meucci(3)

Simone Algeri(4)

Objectivo

Conhecer os obstáculos enfrentados pelos profissionais para atuação em rede e desafios da atuação dos profissionais no Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS) de um município do extremo sul do Brasil.

Métodos

Trata-se de um estudo qualitativo, desenvolvido com doze profissionais de um CREAS. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevista semiestruturada, no período de abril a maio de 2016. Os depoimentos foram submetidos à análise de conteúdo.

Resultados

A fragmentação, entre os diversos serviços que compõem a rede de atendimento às vítimas, se constitui em obstáculo para os profissionais à medida que eles não conseguem dar continuidade às ações de recuperação e promoção da saúde dessas famílias. Os trâmites burocráticos, o acúmulo de funções e a falta de recursos humanos e financeiros são apontados pelos profissionais como um problema rotineiro e que seriamente dificulta o andamento do serviço.

Conclusão

Para os profissionais, a rede de proteção apresenta fragilidades que comprometem a garantia de direitos de crianças e adolescentes.

Descritores

adolescente, criança, exposição à violencia, defesa da criança e do adolescente, pesquisa qualitativa.


Protection of children and adolescents victims of violence: the views of the professionals of a specialized service

Objective

To know the obstacles faced by the professionals to work in network and challenges of the work of the professionals in the Reference Center Specialized in Social Assistance (CREAS) of a municipality in the extreme south of Brazil.

Methods

It is a qualitative study, developed with twelve professionals of a CREAS. Data collection was performed through a semi-structured interview, from April to May 2016. The interviews were submitted to content analysis.

Results

The fragmentation among the various services that make up the victim assistance network is an obstacle for professionals as they are unable to continue the recovery and health promotion actions of these families. The professionals point out the bureaucratic procedures, the accumulation of functions and the lack of human and financial resources as a routine problem and that seriously hinders the progress of the service.

Conclusion

For the professionals, the protection network presents weaknesses that compromise the guarantee of the rights of children and adolescents.

Desctriptors

adolescent, child, exposure to violence, child advocacy qualitative research.


Protección a niños y adolescentes víctimas de violencia: miradas de los profesionales de un servicio especializado

Objectivo

Conocer la problemática de la violencia intrafamiliar contra niños y adolescentes a partir de la percepción de los profesionales de un Centro de Referencia Especializado en Asistencia Social (CREAS) de un municipio del extremo sur de Brasil.

Métodos

Se trata de un estudio cualitativo desarrollado con doce profesionales de un CREAS. La recolección de datos se realizó mediante una entrevista semiestructurada, en el período de mayo a junio de 2016. Los testimonios se sometieron al análisis de contenido.

Resultados

Entre los diversos servicios que componen la red de atención a las víctimas, la fragmentación es el principal obstáculo para los profesionales en medida que no logran dar continuidad a las acciones de recuperación y promoción de la salud de familias afectadas. Los trámites burocráticos, la acumulación de funciones y la falta de recursos humanos y financieros son destacados por los profesionales como un problema rutinario que dificulta seriamente la prestación del servicio.

Conclusión

Para los profesionales, la red de protección presenta fragilidades que comprometen la garantía de los derechos de niños y adolescentes.

Desctriptores

adolescente, niño, exposición a la violencia, defensa del niño, investigación cualitativa.


Introdução

A violência intrafamiliar tem se tornando um problema social e global cada vez mais comum em nossa sociedade. Por se tratar de um fenômeno com raízes profundas, implicando em danos imediatos e futuros para saúde física e mental de suas vítimas,1-3 como também pela possibilidade de sua reprodução a futuras gerações,3 sua abordagem tem se caracterizado como uma questão de saúde pública. A partir da implantação da Lei Federal Brasileira n. 8069 de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente-ECA),4 que dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente, foi estabelecido que crianças e adolescentes sejam prioridade, devendo o estado, sociedade, comunidade, família e poder público assegurar seus direitos, assim como, colocá-los a salvos de toda forma de violência.

Destarte, demanda a articulação de uma rede que atenda às necessidades da abordagem do problema em sua complexidade, por meio de ações interdisciplinares e intersetoriais.5 A rede de proteção às vítimas e suas famílias, representada como “o conjunto de sistemas de pessoas significativas que compõem os elos de relacionamento recebidos e percebidos do indivíduo”,(5:247) é composta pelos diversos órgãos, tais como Conselhos de Direito, Conselho Tutelar (CT), promotoria pública e juizado da infância e adolescência, bem como as demais instituições que prestam atendimento, a exemplo de escolas, unidades de saúde, unidades de acolhimento, entre outras redes de apoio social. Dentre os diversos serviços que atendem situações de violência, o Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS), escolhido como lócus desta pesquisa, se constitui como um espaço importante de referência no atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência. É uma unidade pública estatal, criado pelo governo federal em parceria com os municípios para atender a determinação da Constituição Federal, do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da lei Orgânica da Assistência Social - Portaria nº 878 de 03/12/2001.6

O referido serviço tem como papel constituir-se em referência, nos territórios, da oferta de trabalho social especializado no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) a famílias e indivíduos em situação de risco pessoal ou social, por violação de direitos. Seu papel no SUAS define, igualmente, seu papel na rede de atendimento.7 Para o exercício de suas atividades, os serviços ofertados nos CREAS devem ser desenvolvidos de modo articulado entre instituições e agentes que atuam em determinado território compartilhando objetivos e propósitos em comum, sendo um processo contínuo de circulação de informação e diálogo permanente.7

Considerando a importância do trabalho do CREAS na tentativa de minimizar os danos causados pela violência sofrida e de romper o ciclo de violência, este estudo busca a resposta para a seguinte questão: Quais os obstáculos e desafios que você enfrenta no seu cotidiano de trabalho? A resposta a essa questão pode subsidiar ações que preconize a organização da rede, efetividade e interações do trabalho em rede, além de propiciar soluções e a tomada de decisões como, por exemplo, a criação de políticas públicas direcionadas para os problemas identificados. Nesta perspectiva, o estudo tem o objetivo de conhecer os obstáculos enfrentados pelos profissionais para atuação em rede e desafios da atuação dos profissionais no CREAS de um município do extremo sul do Brasil.

Métodos

O município onde foi realizado o presente estudo, caracteriza-se como especialmente vulnerável a situação de violência e exploração sexual contra crianças e adolescentes. É uma cidade portuária com aproximadamente 207 mil habitantes, localizada na metade sul do Rio Grande do Sul, com o segundo maior porto em movimentação de cargas do Brasil.8 Atualmente, Rio Grande é caracterizado como um dos pontos mais vulneráveis à exploração sexual nas rodovias federais, destacado pela Childhood Brasil e a Organização Internacional do Trabalho (OIT).9) O CREAS, instalado no município em 2002, foi um dos pioneiros na implantação desse serviço. Atendem diariamente denúncias das mais variadas modalidades de violência contra crianças e adolescentes entre zero a dezoito anos, idosos e mulheres. É um serviço que desenvolve, entre outras ações, a proteção social de jovens em cumprimento de medida socioeducativa de liberdade assistida e de prestação de serviços comunitários.

Participaram do estudo cinco assistentes sociais, cinco psicólogos, uma secretária e uma educadora social. Todos os doze participantes vinculados ao serviço aceitaram participar do estudo, mediante a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. Foram seguidas as recomendações da Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde, e o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Grande, sob o CAAE: 49775415.8.0000.5324. Após a autorização da coordenadora do serviço, os profissionais que atuam no CREAS foram convidados a participar da pesquisa, sendo então esclarecidos quanto à garantia do sigilo da identidade dos entrevistados, à confidencialidade dos dados e à possibilidade de desistência a qualquer momento da pesquisa. Foi esclarecida, ainda, a maneira como seriam identificados no trabalho: através da letra “E” e o número de sequência das entrevistas (E1, E2...E12), sendo assim preservado seu anonimato.

A coleta de dados ocorreu entre abril e maio de 2016, as quais foram previamente agendadas no local de trabalho dos profissionais. Os depoimentos foram gravados e, posteriormente transcritos. Na análise dos dados, utilizou-se a técnica de análise de conteúdo inspirado em Bardin,10 tendo sido os dados inicialmente organizados, depois analisados e categorizados com vistas a responder ao objetivo do estudo.

Resultados

No processo de análise de dados emergiram duas categorias, desenvolvidas a seguir, a saber: Obstáculos enfrentados pelos profissionais para atuação em rede e Desafios da atuação dos profissionais no CREAS.

Obstáculos enfrentados pelos profissionais para atuação em rede

Dificuldade de articulação

Os trabalhadores do CREAS referiram dificuldades nos diferentes serviços que compõe a rede de proteção, como a falta de articulação e comunicação entre os serviços, conforme evidenciam os depoimentos que se seguem. Existe uma dificuldade muito grande de parceria, não há ligação dessa rede, algo que pudéssemos conversar, discutir os problemas que chegam até o serviço (E8). Em muitas situações, o profissional do CREAS se vê sozinho, não temos o suporte que precisamos dos serviços, principalmente de serviços essenciais que deveriam garantir junto a nós a proteção das vítimas, mas infelizmente em alguns casos, a criança fica exposta, desprotegida (E12). Para os profissionais entrevistados há falta de articulação e comprometimento da rede para que se possa efetivar o atendimento no serviço. A fragmentação, entre os diversos serviços que compõem a rede (Conselho Tutelar, Juizado da Infância e da Juventude, Delegacia de proteção à Criança e adolescente, serviços de sociais e de saúde, educação, ONGs), se constitui em obstáculo para os profissionais à medida que eles não conseguem dar continuidade às ações de recuperação e promoção da saúde das famílias. A inexistência de comunicação efetiva entre os diferentes serviços que integram a rede de atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência, torna o trabalho do CREAS pouco eficaz, conforme os relatos a seguir: quando uma criança chega até o serviço e, após avaliarmos, encaminhamos esta criança para diferentes dispositivos da rede de atendimento, mas infelizmente não temos o retorno (E7). Além da dificuldade nos encaminhamentos, não há a referência e a contra referência dos casos (E5). Quando precisamos encaminhar uma criança precisamos entrar na fila de espera, então não podemos resolver o problema de imediato (E1).

Atuação eficaz na garantia de direitos a crianças e adolescentes

Conforme o relato dos profissionais, quando as famílias buscam ajuda nos serviços de atendimento especializado, a primeira dificuldade enfrentada está no atendimento de forma rápida e resolutiva, o que corrobora para a violação dos direitos das crianças e adolescentes. Muitas vítimas permanecem em filas de espera para atendimento aqui no CREAS criando obstáculos e até mesmo a perda do contato dessa família (E1). A quantidade de processos acumulados, os tramites burocráticos, são apontados pelos profissionais como um problema rotineiro da rede de atendimento especializado e que seriamente dificulta o andamento do CREAS. De acordo com a coordenadora do serviço, a morosidade da justiça contribui para a violação de direitos de crianças e adolescentes pois a resposta não vem a tempo e a hora, enquanto isso a criança fica desamparada, muitas vezes há evasão da família e consequentemente da vítima, o que pode levar além da impunidade, uma possível revitimização da criança e ou adolescente (E11). O problema é ainda maior quando exige medidas especificas de proteção a vítima, como o afastamento da família, devido a insuficiência de programas de acolhimento institucional para crianças e adolescentes em situação de violência (E4). Segundo E8, o atendimento ao abusador ainda não é realidade no município por inúmeros problemas, incluindo a falta de um profissional habilitado para atender esse tipo de clientela e de investimentos neste tipo de profissional como capacitações e condições de trabalho (E8).

Desafios da atuação dos profissionais no creas

Falta de investimento na capacitação dos profissionais

Os profissionais entrevistados referem que embora capacitados para identificar famílias em situação de vulnerabilidade e risco de violência intrafamiliar não há o apoio da gestão municipal em cursos de atualização e capacitações periódicas para o atendimento a essa clientela (E4). Para os profissionais, trabalhar com a violência é um tema que de fato exige muito preparo técnico, o qual exige conhecimento atualizado sobre o tema e a troca de saberes entre os diferentes dispositivos (E1). Caracterizado como um ambiente com elevada sobrecarga emocional, é notório na fala dos profissionais, a falta de um cuidado e valorização desses trabalhadores pelos gestores. O profissional E2, refere que a equipe se sente desmotivada por falta de valorização profissional e, muitas vezes, sem perfil para o tipo de trabalho. E3, percebe uma gestão autoritária e cobradora, distante da equipe e deficitária quanto às necessidades dos servidores. Já E8 sente a necessidade de trabalhar as frustrações, já que o trabalho depende de outras instituições e esses apresentam resistência.

Insuficiência de recursos materiais e humanos

O acúmulo de funções e a falta de recursos humanos, tem comprometido o bom andamento do serviço, segundo o relato dos profissionais. As narrativas revelam como vem se configurando esse processo: A imposição do jurídico nas questões de produzir provas, é uma dificuldade que enfrentamos, precisamos fazer relatórios de avaliação psicológica (E2). A realização de avaliação psicológica não está prevista como atividade na política do CREAS, e sim na realização do acompanhamento psicossocial, e o fato de realizarmos as avaliações, ficamos muito expostos (E5). Precisamos atender todo o território e não temos recursos humanos suficientes para atender a demanda (E9). As dificuldades quanto a repasses financeiros provenientes de recursos do município, também atinge o serviço. De acordo com os profissionais, não há computadores para todos os colaboradores, o que inviabiliza o andamento, principalmente no que se refere a agilidade e qualidade do serviço (E4). Muitas vezes a dificuldade em trabalhar no CREAS é a falta de material de expediente como jogos didáticos, testes psicológicos, bibliografias (E1). Sentimos a falta de uma impressora, pois temos que deslocar para outro dispositivo para utilizar a impressora (E10). Ressalta-se que já se passaram quinze anos da implantação do serviço no município e ainda não se tem um sistema informatizado para o registro das informações do CREAS, corroborando assim para que a morosidade no atendimento seja ainda maior.

Discussão

A realidade encontrada permite trazer à tona um problema que acontece no cotidiano de muitas famílias, o que pode corroborar para que o silêncio se sobreponha à revelação da violência. Os resultados deste estudo mostram que as vítimas são atendidas no serviço, porém, nem sempre consegue garantir a efetividade dos encaminhamentos realizados. A fragmentação dos serviços que compõe a rede de atendimento a crianças e adolescentes tem comprometido o andamento do CREAS e, ainda, expondo a vítima a possível risco de morte e de agravos, capazes de afetar seu desenvolvimento. O trabalho em rede é uma estratégia que fortalece a defesa, a responsabilização e o apoio as vítimas de violência. Nesse interim, a literatura revela que atores das redes de atenção às situações de violência do país também reconhecem que a atuação interinstitucional, mais que um princípio, é absoluta necessidade perante a complexidade do problema.11

Os depoimentos dos sujeitos vão ao encontro dos achados de diversos estudos que afirmam que um cuidado efetivo e resolutivo diante de um caso de violência contra crianças e adolescentes, vai além dos aspectos individual, institucional e social, sobretudo no estabelecimento de sistemas de referência e contra referência entre setores que atendem essa clientela.12-14 Entretanto, essa rede de atendimento, mesmo sendo bastante valorizada, é considerada insuficiente, sobretudo em ações dirigidas a crianças e adolescentes vítimas de violência. Entende-se que os documentos oficiais relacionados à violência estão postos à sociedade, porém sem uma ampla e suficiente discussão e mobilização dos protagonistas, favorecendo a manutenção de possíveis barreiras conforme apontados no estudo. Existe todo um movimento no sentido de aprovar leis, portarias e decretos relacionados à violência, entretanto, não basta somente sua aprovação, se a rede de atendimento à violência mostra-se desarticulada, com falta de insumos e estratégias, fragilidade do conhecimento e gestão incipiente nessa esfera de combate à violência.12,13

O descrédito nos instrumentos jurídicos, nos órgãos de justiça e nas autoridades policiais, bem como a desqualificação dos profissionais no atendimento especializado a crianças e adolescentes vítimas de violência são realidades também apontadas em outros estudos,15,16 e que possivelmente vem contribuindo para que muitas famílias optem por não buscar o atendimento priorizando proteger-se “em um muro de silêncio”, enquanto isso, crianças e adolescentes ficam desprotegidas. A atuação eficaz dos órgãos policiais e do Judiciário é fundamental. Entretanto, a responsabilização penal não significa garantir a paz nas relações familiares ou sociais. Em determinadas situações, a punição legal do agressor deverá se somar a outras medidas que contribuam para a promoção de uma cultura de cidadania, responsabilização e proteção da criança e do adolescente.17 O atendimento integral a vítima, incluindo o agressor talvez seja um importante passo, na tentativa de ruptura da violência, assim preconiza-se o atendimento qualificado com vistas a ressocialização dos agentes causadores da violência, evitando assim, a reincidência dos casos de violência.18 Embora preconiza-se que a intervenção seja direcionada não somente a vítima, mas também a família como foco de atenção, os resultados mostram que os profissionais têm enfrentado limitações estruturais e econômicas, o qual restringe a atuação profissional no âmbito da intervenção. Sabe-se que essa não é uma dificuldade exclusiva do município, é também identificada em outros estudos as dificuldades intersetoriais no que tange a articulação com a rede assistencial, processos de referência e contra referência e interlocução dos profissionais envolvidos.14,19

A valorização da capacitação profissional no atendimento a situações de violência foi uma das ações julgada por parte dos entrevistados como importante, já que a tomada de decisão em relação ao diagnóstico, atendimento, notificação e encaminhamento da situação de violência parece estar fortemente relacionada ao saber do profissional sobre o seu dever de proteger a vítima, representado através da legislação, mas também como uma questão ética do profissional pela proteção da criança que está sob os seus cuidado.20) O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê a criação e o investimento em qualificação e capacitação dos profissionais para acolher e poder assistir a demanda de atendimento.4 Embora os profissionais tenham construído e desenvolvido um conhecimento específico ao longo da sua trajetória profissional, muitos são inseridos no serviço, sem haver qualquer preparo, o que consideram como algo negativo para o serviço, pois a sua ausência aumenta as chances de falha no atendimento. Todavia, o que se tem observado é a busca por iniciativa própria realizar cursos e se especializarem na área, discutir os casos e as demandas profissionais em equipe.

O suporte aos profissionais é essencial para o funcionamento de um serviço. Esse suporte abarca todo o investimento necessário para uma política acontecer, e envolve os profissionais que a ela se relacionam. Assim, entende-se que o fortalecimento da rede de atendimento passa não somente pela ampliação dos serviços especializados, mas também pela formação permanente dos profissionais de forma a assegurar um atendimento qualificado as vítimas de violência.21,22) Considera-se que a violência não se limita apenas ao cuidado direcionado aos agravos, mas também a um conhecimento que permita manejar este problema de maneira mais segura e qualificada, o que vem ao encontro do que os profissionais relataram, ou seja, a necessidade de capacitação das equipes que trabalham com essa clientela. Assim, reforça-se a necessidade de “dar voz” a esses profissionais no sentido de apontar não somente aos seus anseios em relação ao trabalho desempenhado, mas também quanto aos cuidados com a saúde, para que eles possam estar fortalecidos diante dos casos de violência que enfrentam no seu cotidiano de trabalho. Assim, fortalecido poderá ter uma intervenção de maior sucesso com melhor atendimento.

Conclusão

A efetivação da proteção e garantia de direitos da criança e do adolescente é uma realidade que precisa ser enfrentada, assim como a superação das situações que violam seus direitos, requerem o conhecimento e a reflexão na forma como os municípios estão se articulando diante dos casos de violência contra crianças e adolescentes. Evidenciou-se nesse estudo que os serviços que compõe a rede de proteção ainda apresentam fragilidades no município investigado. O despreparo sobre como trabalhar em rede, através da falta de comunicação entre os trabalhadores, ausência de retorno dos serviços para as quais o usuário foi referenciado e a falta de responsabilização dos profissionais envolvido no cuidado, pode sinalizar, além do descomprometimento na garantia de direito de crianças e adolescentes, limitações da gestão e organização do conjunto de serviços que compõe essa rede.

Destarte, a desarticulação da rede, de fato, é uma fragilidade que requer uma atenção especial da gestão municipal, haja vista a necessidade que órgãos de proteção e instituições estejam articulados e fortalecidos, para que as suas ações sejam efetivas. Assim, para qualificar a rede são necessários profissionais capacitados e qualificados, além da valorização dos envolvidos.

O presente estudo teve como limitação a sua realização em um único cenário, podendo as análises ser limitadas, por representarem percepções de um grupo particular, não sendo possível fazer generalizações dos resultados. Ainda, é importante salientar que, embora os profissionais de saúde não façam parte desses serviços, devem sempre atuar de forma articulada, em um trabalho multiprofissional, seja no atendimento e na formulação de um plano de cuidados voltado para as reais necessidades das famílias. Embora o estudo apresente limitações, os dados apontam para a necessidade de novas investigações, considerando a percepção de trabalhadores de outros setores do município estudado, o que ampliaria a discussão sobre os obstáculos e os desafios enfrentados e possibilitaria o planejamento de ações.

Este estudo avança na produção do conhecimento na medida em que a garantia de direitos a crianças e adolescentes é uma necessidade urgente que precisa ser combatida. Sugere, além do planejamento de ações com vistas ao trabalho em rede, a necessidade de educação permanente a fim de qualificar os serviços de proteção do município investigado.

References

1 

Hillis S, Mercy J, Amobi A, Kress H. Global Prevalence of Past-year Violence Against Children: A Systematic Review and Minimum Estimates. Pediatrics. 2016; 137(3):1-13.

S HillisJ MercyA AmobiH. KressGlobal Prevalence of Past-year Violence Against Children: A Systematic Review and Minimum Estimates.Pediatrics.20161373113

2 

Walsh J, Spangaro J, Soldatic, K. Global understandings of domestic violence. Nurs. Health Sci. 2015; 17(1):1-4.

Spangaro J Walsh JK. SoldaticGlobal understandings of domestic violence.Nurs. Health Sci.201517114

3 

World Health Organization. Global status report on violence prevention [Internet]. 2014 [cited 20 Dec 2016]. Available from: Available from: http://www.who.int/violence_injury_prevention/violence/status_report/2014/en/ .

World Health OrganizationGlobal status report on violence prevention201420 Dec 2016Available from: http://www.who.int/violence_injury_prevention/violence/status_report/2014/en/

4 

Brasil. Estatuto da Criança e do adolescente: lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990, e legislação correlata. 9. ed. - Brasília: Câmara dos Deputados, Edições Câmara; 2010. Available from: http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/camara/estatuto_crianca_adolescente_9ed.pdf.

Estatuto da Criança e do adolescente: lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990, e legislação correlata.9. edBrasíliaCâmara dos Deputados, Edições Câmara;2010http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/camara/estatuto_crianca_adolescente_9ed.pdf

5 

Rosa EM, Lira MOSC. Intrafamiliar violence against children and adolescents: support and overcoming network. J Hum. Growth Dev. 2012; 22(2):246-52.

EM RosaMOSC. LiraIntrafamiliar violence against children and adolescents: support and overcoming network.J Hum. Growth Dev2012222246252

6 

Brasil. Ministério da Previdência e Assistência Social. Portaria nº 878/2001, de 03 de dezembro de 2001, Estabelece diretrizes e normas do Programa Sentinela, e dá outras providências. Republicada, no Diário Oficial da União, Brasília.

Brasil. Ministério da Previdência e Assistência Social.Estabelece diretrizes e normas do Programa Sentinela, e dá outras providênciasRepublicada, no Diário Oficial da UniãoBrasília.

7 

Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) 2013. CREAS Institucional. [cited 12 Nov 2014]. Available from: Available from: http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/suas/creas/creas_institucional.pdf

Ministério do Desenvolvimento Social2013CREAS Institucional12 Nov 2014Available from: http://www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/suas/creas/creas_institucional.pdf

8 

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. População estimada para o Município do Rio Grande. 2014 [cited 2017 Oct 12]. Available from: Available from: http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=431560&search=riogrande-do-sul|rio-grande

Instituto Brasileiro de Geografia e EstatísticaPopulação estimada para o Município do Rio Grande20142017 Oct 12Available from: http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=431560&search=riogrande-do-sul|rio-grande

9 

Childhood Brasil. 6º Mapeamento de Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Rodovias Federais Brasileiras.2014 [cited 2017 Nov 20]. Available from: Available from: http://www.namaocerta.org.br/pdf/Mapeamento2013_2014.pdf

Childhood Brasil6º Mapeamento de Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Rodovias Federais Brasileiras20142017 Nov 20Available from: http://www.namaocerta.org.br/pdf/Mapeamento2013_2014.pdf

10 

Bardin L. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70; 2011.

11 

Pelisoli C, Pires JPM, Almeida ME. Violência sexual contra crianças e adolescentes: dados de um serviço de referência. Temas Psicol. 2010; 18(1):85-97.

12 

Cardoso AVM, Teixeira SM. Políticas de atenção à criança e ao adolescente em situação de risco social. Emancipação. 2017; 17(1):45-57.

13 

Ribeiro JP, Silva MRS, Cezar Vaz MR, Silva PA, Silva BT. The protection of children and adolescents: an analysis of public policies and their relationship with the health sector. Invest. Educ. Enferm. 2013; 31(1):133-41.

14 

Lopes CS, Brisola EMA. Trabalhadores do centro de referência especializado em assistência social: dificuldades vividas no cotidiano profissional. Rev. Ciênc. Humanas. 2017; 10(20):134-47.

15 

ohendorff JV, Patias ND. Violência sexual contra crianças e adolescentes: identificação, consequências e indicações de manejo. Barbarói. 2017; 49(1):239-57.

16 

Souza AMF, Sousa FJP. Avaliação do enfrentamento às violências contra crianças e adolescentes: a experiência da Comissão de Prevenção aos Maus-Tratos em uma Unidade de Saúde da Família da SER V. Rev. Avaliação Polit. Publicas. 2014; 2(14):128-47.

17 

Deslandes S, Mendes CHF. Quem avalia, atua melhor! Guia para análise avaliativa dos municípios no enfrentamento da violência intrafamiliar e exploração sexual de crianças e adolescentes. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2011.

18 

Vieira MS, Grossi PK, Costa RG. O enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes: os caminhos para a municipalização das ações em Porto Alegre. Anais 2º Encontro Internacional de Política Social 9º Encontro Nacional de Política Social; 2014. Available from: http://repositorio.pucrs.br/dspace/bitstream/10923/9469/2/o_enfrentamento_a_violencia_sexual_contra_criancas_e_adolescentes_os_caminhos_para_a_municipalizacao_das_acoes_em_porto.pdf

19 

Gonçalves CFG, Silva LMP, Pitangui ACR, Silva CC, Santana MV. Atuação em rede no atendimento ao adolescente vítima de violência: desafios e possibilidades. Texto Contexto Enferm. 2015; 24(4):976-83.

20 

Silva PA, Lunardi VL, Ribeiro JP, Oliveira AMN, Vasquez TCS. A notificação da violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes por profissionais de saúde no Brasil. Av. Enferm. 2015; 33(1):142-50.

21 

Deslandes SF, Mendes CHF, Pinto LW. Proposição de um índice do enfrentamento governamental à violência intrafamiliar contra crianças e adolescentes. Cad. Saúde Pública. 2015; 31(8):1709-20.

22 

Deslandes SF, Mendes CHF, Luz ES. Análise de desempenho de sistemas de indicadores para o enfrentamento da violência intrafamiliar e sexual contra crianças e adolescentes. Cien. Saude Colet. 2014; 19(3):865-74.

Notes

Conflict of interest: none

Article linked to research: Silva PA, Lunardi VL, Meucci RD, Algeri S. Protection of children and adolescents victims of violence: the views of the professionals of a specialized service. Invest. Educ. Enferm. 2018; 36(3):e02./p>

How to cite this article: 

Affiliations

Info

Abstract : 270

Article Metrics

Metrics Loading ...

Metrics powered by PLOS ALM


Esta publicación hace parte del Sistema de Revistas de la Universidad de Antioquia
¿Quieres aprender a usar el Open Journal system? Ingresa al Curso virtual
Este sistema es administrado por el Programa Integración de Tecnologías a la Docencia
Universidad de Antioquia
Powered by Public Knowledge Project