de Mesquita Silva, Sampaio de Almeida, Giorgi, and de Carvalho Castro: De Cumbe a Run for It : traducción y cuestiones étnico-raciales



1. Introdução

Iniciamos este artigo com o pensamento de que a tradução não é um mero processo de transposição linguística de uma língua para outra. Nela estão envolvidos fatores ideológicos, históricos, culturais, editoriais, entre outros, os quais exercem um papel preponderante na elaboração do produto final. Além disso, se consideramos a diversidade cultural em que vivemos, mesmo diante de um mundo globalizado, surgem inúmeros desafios no que diz respeito à tradução de determinados gêneros discursivos. É o caso das histórias em quadrinhos (hqs), que possuem característica multimodal por serem compostas de texto verbal e visual, linguagens que atuam conjuntamente na construção de sentidos da narrativa. O mesmo se pode dizer dos romances gráficos, também conhecidos como novelas gráficas, gênero de quadrinhos que caracteriza a obra foco desta pesquisa.

Foi no fim da década de 1970 que surgiram obras que se apresentavam explicitamente como Graphic Novels. Estas causaram um efetivo impacto editorial, destacando-se a publicação em 1978 de A Contract with God, de Will Eisner. Posteriormente, 1986 foi marcado pelo lançamento de Batman: o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller e Maus, de Arnoul Spielgeman. Esses produtos quadrinhísticos se tornaram sucessos de venda e representaram uma verdadeira ruptura com o que tinha sido feito antes, por serem mais ousados do que as hqs anteriores do ponto de vista discursivo e estético, devido à forma adulta com que trataram temas humanos e sociais. Como consequência, as produções -em formato de um livro em quadrinhos- passaram a contar com mais sofisticação, fato que possibilitou às editoras vender esse material com preço mais elevado. Foi nesse contexto que a designação romance gráfico foi construída como uma marca segmentada, distinguindo-se, assim, das hqs mais tradicionais.

O romance gráfico Cumbe foi escrito e ilustrado pelo brasileiro Marcelo D’Salete, publicado em 2014 e reeditado em 2018 pela Editora Veneta. Essa obra se constitui de quatro narrativas que retratam a luta dos escravizados durante o período colonial brasileiro -entre os séculos xvi e xix- a partir de seus próprios pontos de vista. Tal temática se desenvolve no livro pelas imagens, que demonstram uma postura ativa das personagens: os negros no movimento de resistência ao sistema de trabalho forçado; bem como pelo uso de uma linguagem verbal que mistura termos da língua portuguesa com vocábulos de origem africana, vinculados principalmente às línguas congo e angola.

Assim, os desafios para a tradução se relacionam não apenas ao fato de Cumbe ser um romance gráfico, como também por se tratar de uma obra engajada em questões étnico-raciais. Sobre a relação de tais questões com a atividade tradutória, Denise Carrascosa (2017) afirma que a linguagem é um elemento preponderante na construção de culturas afrodiaspóricas e, devido a isso, torna-se importante acionar características desse elemento, tais como formas, ritmos, ritos, gestos e imagens no texto traduzido. Nas palavras da autora: “esse conjunto de traços que derivaram, dentre tantos outros, da força cultural afrodiaspórica, são fundamentais no exercício político de tradução de seus textos literários, mesmo porque eles estão aí intimamente imbricados, fazendo parte dessa matriz de produção” (Carrascosa, 2017, p. 72).

Por conseguinte, com o objetivo de investigar de que modo essas questões foram trabalhadas na tradução da obra para a língua inglesa e, além disso, como se configurou seu contexto de publicação, propomos o presente artigo. Dessa forma, trazemos para este texto reflexões sobre Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom (2017), traduzido por Andrea Rosenberg e publicado pela Editora Fantagraphics Books. Para isto, utilizamos como arcabouço teórico os Estudos Descritivos da Tradução (edt). Entretanto, tendo em vista que os edt são um campo em expansão e com possibilidades de abertura de conexões com diferentes áreas de estudos, defendemos a necessidade da introdução de discussões interdisciplinares. Por essa razão, consideramos igualmente os Estudos Culturais, os Estudos do Discurso, entre outros. Afinal, como afirma Lambert (2017), ainda que a pesquisa em tradução esteja muito vinculada a questões de língua(s), não se podem deixar de lado as sociedades e os tradutores que compõem essas línguas, as ideologias, a religião, a mídia e as editoras com suas políticas editoriais.

Nesse sentido, como somos um grupo formado por pesquisadores tradutores, linguistas aplicados e psicólogos sociais, procuramos refletir acerca de questões de tradução que transcendem os limites disciplinares, que refutam verdades únicas e investigadores neutros. Alinhamo-nos, portanto, a uma lógica investigativa que propõe como exigência: “que se trabalhe em grupo, que se respeite o outro, que se trate o conhecimento como atividade e não como mercadoria, que se tenha humildade para ouvir o outro e para expor perguntas e dúvidas ingênuas” (Bicudo, 2008, p. 146).

Na próxima seção, discorremos sobre as relações entre os edt e aspectos socioculturais, ideológicos e de poder. Posteriormente, apresentamos uma discussão específica sobre as hqs, incluindo os romances gráficos. Em seguida, começamos a dialogar com Cumbe dentro do âmbito das questões raciais no Brasil. Depois, trazemos nossas análises relativas ao contexto de tradução e publicação de Run for It e terminamos com as considerações finais.

2. Estudos Descritivos da Tradução, questões socioculturais, ideológicas e de poder

Um dos principais autores dos Estudos Descritivos da Tradução (edt), Gideon Toury (1995) , parte do princípio de que todo texto que circulou ou que foi aceito como tradução em um contexto cultural e em um momento histórico específico é considerado uma tradução. Além disso, para ele, a cultura-meta, ou seja, a cultura em que a tradução é publicada, orienta não apenas a escolha dos textos que serão traduzidos, como também os procedimentos tradutórios que serão empregados e a função que será exercida pela tradução. Esse cenário, portanto, é marcado por regularidades nas conexões entre a função, o processo e o produto, ou seja, entre o objetivo da tradução na cultura receptora, as estratégias de tradução adotadas e o resultado final. Como a construção do produto se propõe a atender a demandas ou preencher lacunas em um sistema literário, algumas características do texto-fonte são conservadas na tradução não por serem relevantes por si sós, mas sim devido à sua importância para a cultura-meta (Toury, 1995). Entre as contribuições de Toury para o desenvolvimento dos edt, na visão de Gentzler (2001) , estão o abandono de ideias como a noção tradicional de equivalência linguística e literária e a existência de uma mensagem original contendo uma identidade fixa; a observação de tendências literárias do sistema de recepção na produção do texto traduzido; e a interseção do texto-fonte com o texto-meta por meio de uma rede de sistemas culturais que se relacionam.

Assim como Toury, José Lambert e Hendrik Van Gorp (1985) tornaram-se referências importantes para os edt. Segundo os autores, no que diz respeito à comparação entre texto-fonte e texto-meta, ela deve ser considerada em uma dimensão mais abrangente do que o simples cotejo linguístico entre os dois textos. Soma-se a isso o fato de que toda comparação entre textos é/será submetida a seleções por parte do pesquisador, uma vez que não há como realizar esse procedimento somente colocando-os lado a lado. Desse modo, especificamente na análise da tradução de Cumbe para a língua inglesa, escolhemos trechos de Run for It que, ao nosso ver, se constituem como elementos relevantes para uma reflexão acerca dos modos de construção da função, do processo e do produto em questão no contexto de chegada.

Ainda considerando os pensamentos de Lambert e Van Gorp, eles propuseram a criação de uma metodologia para descrever e explicar traduções, fundamentada em ideias como a relevância de diferentes sistemas, além do literário, na composição de determinada cultura; a relação complexa e dinâmica entre o autor, o texto e o leitor da cultura-fonte e o autor, o texto e o leitor da cultura-meta; e as escolhas do tradutor moldadas pelas normas vigentes no contexto de recepção. Estas são as etapas que constituem a metodologia em questão (Lambert e Van Gorp, 1985): a) dados preliminares: títulos, paratextos (capa, quarta capa, prefácio, posfácio, notas, entre outros), metatextos (apresentações, ensaios, críticas sobre a obra) e composição estrutural da tradução; b) macronível: segmentação do texto, títulos de capítulos e seções, constituição interna da narrativa e comentários do autor; c) micronível: mudanças em níveis fônicos, gráficos, gramaticais e estilísticos; d) contexto sistêmico: oposições entre micro e macroníveis, relações intertextuais e intersistêmicas. Dessa maneira, os autores defendem um estudo de literatura traduzida que se caracterize por uma perspectiva ampla e sistêmica e leve em conta as especificidades de cada contexto cultural.

Bassnett e Lefevere (1990), por sua vez, afirmam que a tradução é uma forma de reescrita e “[...] como todas as (re)escritas nunca é inocente. Há sempre um contexto em que a tradução ocorre, sempre uma história da qual um texto emerge e para a qual um texto é transposto” (tradução nossa)2. Com essa concepção, a tradução passa a ser vista como uma representação do texto-fonte fundamentada em determinados valores ideológicos (Tymoczko, 2007) que irão definir a construção do produto final. Nesse sentido, realizada a serviço do poder, a tradução está submetida a mecanismos de controle internos ou externos. Conforme Lefevere (1992), os mecanismos de controle internos são representados por reescritores -tradutores, críticos, professores de literatura e revisores-, os quais tendem a manipular as obras literárias de acordo com a poética e a ideologia dominantes em dada cultura e em dado momento histórico. Já os mecanismos de controle externos se relacionam à patronagem: indivíduos ou instituições com autoridade para regular a produção, a divulgação, a leitura e a reescrita da literatura. Entre eles se encontram partidos políticos, associações religiosas, editoras e veículos midiáticos. A patronagem é constituída por um componente ideológico, que determina o desenvolvimento tanto da forma quanto do conteúdo do produto final; um componente econômico, por meio do financiamento dos trabalhos de escritores e reescritores; um componente de status, a partir do qual submeter-se à patronagem significa integrar-se a um grupo e a um estilo de vida.

Bassnett e Lefevere, desse modo, colaboram para o pensamento sobre tradução ao considerarem fatores como quem reescreve, por que motivo, sob quais circunstâncias e para que público-alvo. As palavras de Marcia Martins (2002) demonstram a relevância dos autores mencionados para o campo dos edt:

Suas ideias com respeito à interação do texto traduzido com a cultura e suas estruturas de poder são fundamentais para se entender o papel das editoras e das instituições que, através de incentivo e patrocínio, interferem nas decisões editoriais e na implementação de políticas culturais. (Martins, 2002, p. 41)

Além disso, é importante ressaltar que as contribuições dos teóricos em questão foram determinantes para a chamada “virada cultural” nos Estudos da Tradução (Bassnett e Lefevere, 1990).

Com respeito às relações entre a abordagem descritivista dos Estudos da Tradução e os Estudos Culturais, Tymoczko (2007) tece importantes considerações: a) a tradução apresenta registros de interações entre culturas que podem ser analisados por pesquisadores; b) a tradução é marcada por uma interface de línguas e produtos culturais, tornando visíveis as similaridades e diferenças entre eles; c) a tradução revela o uso de determinadas atitudes ideológicas, o que é assunto de interesse dos Estudos Culturais; d) assim como grande parte dos objetos de análise dos Estudos Culturais, as traduções são geralmente marginalizadas; e) o aspecto econômico, bem como os sistemas de patronagem e de poder são evidentes nos processos de tradução e considerados também no âmbito dos Estudos Culturais. Susan Bassnett (1998) já havia feito referência a essas ideias ao destacar, por exemplo, a importância de se observar não só a manipulação existente em produções textuais, como também as condições em que um texto é escrito, vendido, divulgado e lido. Nesse diálogo entre os edt e os Estudos Culturais, é relevante destacar os estudos que conectam teorias pós-coloniais a tradução literária, abordando questões de poder e de ideologia.

Como uma maneira de ilustrar esse cenário, Tymoczko (1999) trata das dificuldades enfrentadas pelo tradutor ao lidar com textos provenientes de culturas marginalizadas -geralmente situados à distância dos cânones literários- visto que eles são carregados de particularidades linguísticas, históricas e culturais. Assim, o tradutor terá que tomar decisões sobre o que irá traduzir ou buscar um modo de constituição do produto que abra espaço para o uso de elementos paratextuais, incluindo prefácios, posfácios e notas de rodapé. O tradutor, nesse sentido, deve fazer escolhas, o que irá levar a perdas e ganhos no trânsito entre diferentes línguas e culturas, escolhas essas que serão baseadas em parâmetros ideológicos específicos e fatores externos como os seguintes: “[...] a identidade e as afiliações do autor, a identidade e as afiliações do tradutor, as conexões do tradutor com movimentos sociais e políticos, o contexto de recepção (tais como críticas, censura, ações legais) da tradução” (tradução nossa)3. Valente e Silva (2015) ilustram esse pensamento de Tymoczko ao abordarem determinados desafios para a tradução de obras afrodiaspóricas, tais como as das escritoras Conceição Evaristo e Toni Morrison, marcadas por elementos dialetais e culturais específicos. Com relação às literaturas da diáspora negra:

[...] independentemente da língua em que sejam escritas, esses elementos culturais são itens de grande importância, uma vez que fazem parte do universo de um povo historicamente subjugado e relegado à marginalidade e revelam uma postura de resistência ao padrão branco e eurocêntrico por parte de autoras como Morrison e Evaristo. (Valente e Silva, 2015, p. 432)

Ainda conforme Tymoczko (1999), “[...] certos aspectos ou atributos do texto-fonte acabam representando o texto-fonte como um todo na tradução. Por definição, portanto, a tradução é metonímica” (tradução nossa)4.Tymoczko ressalta, com isso, que, para o público leitor no contexto de recepção, a tradução, sendo metonímica, constrói uma imagem -como já tinha sido observado por Lefevere (1990)-, uma tradição literária, uma cultura e um povo ao se constituir de determinados elementos que caracterizarão um conjunto. Gentzler e Tymoczko (2002) ampliam essa discussão e asseveram que, ao reconhecer a natureza fragmentária da tradução, o pesquisador deve se preocupar tanto com os elementos do texto-fonte que foram conservados no texto-meta, quanto com os apagamentos textuais e a ausência de algumas traduções em um dado sistema cultural. Observar o contexto histórico de uma tradução, no sentido de verificar os possíveis mecanismos de poder vigentes, também deve ser um fator a ser considerado, de acordo com os autores. Dessa forma, a “virada cultural” nos Estudos da Tradução abriu caminho para uma “virada do poder” (Gentzler e Tymoczko, 2002, p. 16).

Considerando, então, essa necessária articulação entre tradução e relações de poder, recorremos, no campo dos Estudos do Discurso, à concepção de linguagem-intervenção proposta por Rocha (2014), para quem o discurso não caracteriza uma simples representação do mundo, mas um modo de intervir e inventar esse mundo, produzindo formas de vida e subjetividades. Paralelamente, usamos a noção de discurso descrita como prática discursiva (Maingueneau, 2008), isto é, a produção simultânea de textos e comunidades por um viés que relaciona o linguístico ao social. Desse modo, o texto-meta, produzido pelo processo tradutório, pode ser entendido como prática discursiva que desloca os sentidos de uma língua a outra considerando as tensões culturais e as relações de poder que se instauram.

Na próxima seção, discutimos as histórias em quadrinhos (comics), em geral, e os romances gráficos, em específico, como gêneros discursivos multimodais e intersemióticos, relacionando-os ao seu contexto de produção e circulação. Ainda refletimos sobre como sua especificidade, a relação entre verbal e visual, atua na produção de sentidos.

3. Histórias em quadrinhos como práticas intersemióticas

A tradução de histórias em quadrinhos em geral -bem como a de romances gráficos- enseja algumas especificidades que decorrem do caráter multimodal desse gênero discursivo5. Como explica Silva (2014, p. 129): “o texto traduzido deve caber nos espaços que não foram feitos para ele, mas sim para o texto de partida, ou seja, os espaços dos balões, as onomatopeias, as palavras desenhadas”. O autor ainda destaca que na tradução da hq a intervenção do tradutor não se dá sobre a imagem, mas sobre o texto verbal, e às vezes, sobre o texto verbal tratado como imagem. Esse também é o pensamento de Assis (2016). Para ele:

a grande maioria das traduções de quadrinhos contemporâneas evita ou é coagida6 a não realizar alterações nos desenhos do texto de partida. A concatenação entre desenhos e material linguístico é, contudo, propriamente o texto quadrinístico. O tradutor, porém, comumente só terá ingerência sobre o material linguístico. (Assis, 2016, p. 17)

Além dessas particularidades relativas ao universo das hqs e dos romances gráficos, é necessário levar em consideração a importância da subjetividade na interpretação de textos dos referidos gêneros discursivos. Desse modo, como afirma Aragão (2012, p. 44): “elementos culturais e ideológicos, então, podem ser identificados diversamente, ainda mais quando um determinado quadrinho é inserido, pela tradução, em uma outra cultura”.

Portanto, torna-se fundamental compreender como o texto hq, sendo multimodal, se constitui e produz sentidos, com o intuito de analisar a tradução de Cumbe para o inglês. Desse modo, a partir de um diálogo com os edt, traremos as contribuições dos Estudos do Discurso (Bakhtin, 2000; Maingueneau, 2008) e dos estudos semióticos sobre quadrinhos (Eisner, 2010; Groensteen, 2015).

Ao tratar da produção de sentidos de textos que constituem uma determinada formação discursiva, Maingueneau (2008) usa o termo intersemiótico, ou mais especificamente prática intersemiótica, para descrever práticas discursivas que se constituem no encontro de duas ou mais formas de materialidade linguageira, imagem e texto verbal, por exemplo. No intuito de se contrapor a análises intuitivas de tipo impressionista e a abordagens insulares que visam isolar cada domínio em seu fechamento, Maingueneau (2008) propõe um desvio pela abstração, ao confrontar globalmente os termos postos em relação -os desenhos dos quadrinhos e a linguagem verbal- de modo a definir unidades mais amplas, por exemplo, temas que são ou não privilegiados. Para tal, o autor lança mão do conceito de prática discursiva: “como a unidade de análise pertinente, que pode integrar domínios semióticos variados: enunciados, quadros, obras musicais...” (Maingueneau, 2008, p. 139). Ele parte do pressuposto de que esses diversos domínios, longe de serem estruturalmente isomórficos, sofrem restrições semânticas de seu sistema de formação discursiva, com destaque para o papel dominante que as produções linguísticas aí desempenham.

Por comodidade, o autor propõe “chamar de ‘textos’ os diversos tipos de produções semióticas que pertencem a uma prática discursiva” (Maingueneau, 2008, p. 139). Ao ampliar o uso do termo, o autor pretende evidenciar a capacidade que qualquer texto verbal ou não verbal possui de ser investido por um mesmo sistema semântico. No caso em estudo, entendemos que a inserção do texto-fonte por meio da tradução em outro contexto sociocultural implica uma mudança em seu sistema semântico, uma vez que os valores ideológicos já não são os mesmos.

O linguista explica que não é qualquer domínio semiótico que pode se combinar com qualquer outro no interior de uma mesma formação discursiva. Há restrições relacionadas aos gêneros de práticas discursivas e do conteúdo de cada prática. O gênero, por sua vez, “impõe restrições que se relacionam com o contexto histórico e com a função social dessa prática” (Maingueneau, 2008, p. 139).

Desse modo, há uma questão sobre os interditos ao discurso implicados em hqs nos Estados Unidos (comics, em inglês) que precisa ser ressaltada neste artigo. Com a publicação do livro Seduction of the Innocent de Fredric Wertham, em meados dos anos 1950, uma forte tendência conservadora, com apoios reiterados inclusive de profissionais da saúde mental e congressistas americanos, passou a considerar a linguagem dos comics como alvo preferencial de críticas (Fernández Sarasola, 2016). Com isso, houve a criação de um ambiente sociocultural desfavorável para produção e venda desses produtos, o que poderia representar sérios prejuízos para a indústria cultural.

Nesse contexto e antes de sofrerem qualquer tipo de intervenção externa, as editoras de hqs criaram em 1954 uma associação denominada de Comics Magazine Association of America (cmaa), cuja principal função era a de estabelecer e zelar pela aplicação do Comic Code Authority. Na prática, isso oferecia a pais e educadores uma garantia de que os textos dos comics seriam alvo de controle e auditoria, a partir de um código de conduta, um procedimento de autocensura (Tilley, 2012). Contudo, o ponto de interesse nesta análise é que uma dentre as várias coisas que o código prescrevia era a rígida regulamentação quanto ao uso de temas e palavras, havendo contínua preocupação em atenuar todos os diálogos dos personagens.

Nos anos de 1980, época em que o Comic Code ainda estava em vigência nas editoras de comics americanas, o surgimento do romance gráfico como novo gênero de discurso possibilitou um escape desse controle no emprego da linguagem (Weiner, 2012). Romances gráficos, por exemplo, como “Batman: o Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller, lançavam mão de uma temática reprovável aos olhos da cmaa, mas não havia nenhum problema com isso, porque não eram efetivamente comics, mas romance gráfico, tipicamente direcionado a um público mais adulto, com temática mais séria e produção artística mais refinada (Assis, 2016).

Em uma análise bakhtiniana (Castro, Portugal, Jacó-Vilela, 2011), o campo discursivo que envolve hqs e romance gráfico deve ser interpretado sociologicamente a partir do meio sociocultural implicado, pois a comunicação no corpo social ocorre sob a forma de diferentes modos de discurso, que mantêm dialogismos na produção de sentidos. Nessa perspectiva, é preciso perceber que Cumbe se alinha a um procedimento discursivo esteticamente mais ousado do que as comics tradicionais estadunidenses, por conta da forma crítica com que esse gênero do discurso -romance gráfico- passou a tratar de temáticas sociais.

E, certamente, lidar com o romance gráfico, bem como outros gêneros de hqs, é confrontar-se com um texto que, de modo geral, coloca o leitor diante de imagens e palavras apresentadas simultaneamente para as quais uma teoria do discurso ligada estritamente ao verbal não daria conta. Portanto, torna-se fundamental recorrer a conceitos e modelos propostos no âmbito dos estudos em comunicação e artes que se voltam para a compreensão das hqs.

Tais estudos (Groensteen, 2015; Eisner, 2010) apontam uma tensão entre imagem e texto nas hqs, inclusive a imagem pode ser lida como linguagem pregnante, cuja primazia é constitutiva do gênero em questão, como afirma Groensteen (2015). Nesse sentido, considerando que não houve qualquer modificação na apresentação dos elementos do código visual em Cumbe, marcado espaço-temporalmente nos quadros ou vinhetas, traços e designs de personagens, poderíamos supor que a narrativa se mantém bastante estável e próxima ao texto em português. No entanto, uma compreensão discursiva em conformidade com os edt de que a construção de sentidos é um processo orientado por uma complexa relação de diálogos com outros textos e outros enunciadores (Bakhtin, 2000), que constitui assim uma rede nem sempre evidente sobre a qual transita o leitor, já seria impossível afirmar a existência de um mesmo texto, uma vez que o deslocamento contextual, por si só, já produziria efeitos outros na leitura da materialidade textual. Entretanto, entendemos que ao se fazer escolhas sobre o que e como traduzir o texto-fonte, o tradutor opera sobre um gênero essencialmente multimodal possibilitando outras leituras também do plano visual, uma vez que a separação entre palavras e imagens é arbitrária e serve apenas a demandas analíticas dos estudiosos da comunicação, como explica Eisner (2010). As palavras em sua inserção como texto verbal nas hqs (caracterizado pelo processo chamado letreiramento ou letreirização) são também lidas como imagens, uma vez que seu tratamento visual como arte gráfica é parte constitutiva do gênero. Para o autor: “quando se examina uma obra em quadrinhos como um todo, a disposição dos seus elementos específicos assume a característica de uma linguagem” (Eisner, 2010, p. 7). Uma linguagem comum entre criador e público que reitera a ideia de que “a compreensão de uma imagem requer uma comunidade de experiência” (Eisner, 2010, p. 13).

Nesse sentido, pode-se afirmar que o leitor de hqs possui uma competência discursiva (Maingueneau, 2008) para ler com facilidade os textos produzidos nesse gênero e essa leitura envolve o todo semiótico da articulação entre imagens e palavras. Como explica Eisner:

A configuração geral da revista de quadrinhos apresenta uma sobreposição de palavra e imagem, e, assim, é preciso que o leitor exerça as suas habilidades interpretativas visuais e verbais. As regências da arte (por exemplo, perspectiva, simetria, pincelada) e as regências da literatura (por exemplo, gramática, enredo, sintaxe) superpõem-se mutuamente. A leitura da revista de quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual. (Eisner, 2010, p. 7)

E, além disso, é preciso destacar que o texto-fonte é sempre produzido para um leitor-modelo (Maingueneau, 2002), um sujeito projetado que supostamente dispõe de um conjunto de saberes linguísticos e socioculturais que lhe possibilitariam “decifrar” o discurso. No caso de Cumbe, ressaltamos a relevância de se (re)conhecer a temática da escravização de negros africanos e das tensões raciais no Brasil colonial e seus efeitos na contemporaneidade para a produção de sentidos. Maingueneau (2008) cita os temas como um dos planos que, juntamente com a intertextualidade, o vocabulário, o estatuto do enunciador e do destinatário, a dêixis enunciativa, o modo de enunciação e o modo de coesão constituem dimensões analíticas para quem busca apreender o discurso com base em uma semântica global, conceito teórico que integra os diversos planos discursivos simultaneamente, na ordem do enunciado e da enunciação.

Assim, a tradução de hqs e do romance gráfico impõe certos desafios ao trabalho de tradução, uma vez que o tradutor precisa articular saberes sobre as relações entre o verbal e o não verbal em sua organização semiótica ou multimodal (quadros, vinhetas, balões, onomatopeias, textos visuais etc.), ao entender a arte sequencial dos quadrinhos como uma linguagem que será significada pelos leitores da versão traduzida. Assis (2016) entende que o processo de tradução de romances gráficos tende a ser mais complexo do que aquele relativo a uma obra literária composta apenas por uma linguagem verbal. Soma-se a isso o seguinte cenário:

Há estipulações em contrato que determinam, por exemplo, que a versão estrangeira deve ater-se ao formato gráfico da versão no idioma original, que a letreirização deve seguir determinada fonte tipográfica ou, ainda, que a letreirização deve ficar a cargo do autor original (geralmente para ser realizada de forma manual). (Assis, 2016, p. 21)

Na próxima seção, apresentamos o romance gráfico Cumbe em seu contexto de produção no Brasil, a partir do discurso racial com o qual dialoga.

4. O romance gráfico Cumbe e as questões raciais no Brasil

O romance gráfico Cumbe, publicado no Brasil pela Editora Veneta em 2014 e relançado em 2018, é composto por quatro narrativas sobre os negros escravizados no Brasil durante o período colonial sob domínio português entre 1500 e 1822. A obra foi aclamada pela crítica e concorreu a diversos prêmios como o Troféu hq Mix em 2015. Seu foco narrativo é o da resistência negra à escravidão, que foi construído a partir do ponto de vista dos próprios negros escravizados. O modo como a obra se constrói devolve aos protagonistas um lugar de sujeitos de discurso, de emoções, de práticas e de formas de vida; diferentemente da perspectiva racista e elitista construída no imaginário brasileiro, não só por meio da literatura canônica como também de filmes, novelas, séries de tv e livros didáticos que apresentam um escravo passivo e submisso ao colonizador.

As quatro histórias “Calunga”, “Sumidouro”, “Cumbe” e “Malungo” encenam esse contexto de outra perspectiva que possibilita uma reflexão sobre a resistência dos negros ao sistema escravocrata brasileiro e, desse modo, contribuem para a desconstrução de uma imagem estereotipada dos negros. Cumbe, portanto, ilustra a seguinte afirmação de Carrascosa:

Nas contraculturas afrodiaspóricas, em suas produções artístico-culturais, encontramos uma presença forte de rastros que nos endereçam genealogicamente aos processos mais delicados e invisíveis da escravidão e colonização, que deixaram marcas no corpo e imaginário das sociedades estruturadas por tais regimes, na medida em que nenhum gesto genocida elimina por completo a força da cultura que decide violentar, mormente se falamos de milhões e milhões de sujeitos traficados para territórios estrangeiros. (Carrascosa, 2017, p. 70)

Apresentamos, a seguir, um quadro com um resumo das quatro narrativas e apontamentos analíticos sobre as temáticas que constituem a obra. Conforme Maingueneau (2008) os temas são relevantes para uma análise discursiva, no sentido em que recaem diretamente sobre as articulações essenciais do modelo semântico em questão. E no que se refere a Cumbe, entendemos que D’Salete aborda as questões raciais do período colonial brasileiro a partir de uma formação discursiva contemporânea antirracista que se opõe ao que conhecemos como a narrativa “normal”, nos livros didáticos, nos discursos hegemônicos em geral (Silva, Souza e Almeida, 2018). A visão do autor se articula a produções mais recentes que dão visibilidade ao modo como negros escravizados, ainda desumanizados pela história e historiografias tradicionais, produziram formas de resistência. Em seguida, está presente o quadro:

Quadro 1

Análise temática das quatro narrativas de Cumbe. Fonte: Elaboração dos autores

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As temáticas presentes nas quatro histórias tensionam a narrativa tradicional, já que apresentam os escravizados como protagonistas de formas de resistências que se dão nos campos da afetividade, da organização social e da luta anti-escravocrata. Da mesma forma, as histórias mobilizam em seus temas diversos modos de violência -física, sexual, psicológica e simbólica- que o regime colonial impôs aos sujeitos negros.

D’Salete retrata questões relativas à temática da história e cultura negras no Brasil, fazendo uma releitura do período colonial do país e ressignificando esse contexto a partir do olhar e da atitude do sujeito explorado pelo sistema escravagista. Um sujeito que, como outros, não tem direito à voz numa sociedade branca, masculina e heteronormativa. Desse modo, é possível dizer que o discurso de Cumbe se constitui no interior de uma formação discursiva (Maingueneau, 2008) antirracista.

A obra tem como contexto de produção um momento da história contemporânea do Brasil no qual as questões étnico-raciais estão em ampla discussão em diversas instâncias da sociedade, principalmente desde 2003, ano em que foi promulgada a Lei Federal 10.639/03 que torna obrigatório o ensino de história e culturas africanas e afro-brasileiras em todo o currículo da educação básica, com as respectivas diretrizes curriculares que foram lançadas em 2004. No ano de 2018, Cumbe foi aprovado no Programa Nacional do Livro Didático Literário (pnld Literário) para aquisição e disponibilização em bibliotecas de escolas públicas pelo país.

Antes de seguirmos para a próxima seção sobre a tradução de Cumbe para a língua inglesa, acreditamos ser importante ressaltar, novamente, o quanto as especificidades linguísticas dessa obra afrodiaspórica estão diretamente ligadas à produção de significados de ordem social e racial. Diante desse cenário, no qual o português brasileiro se mistura a vocábulos das línguas congo e angola, dialogamos com o seguinte pensamento de Gian Luigi de Rosa (2017):

Querendo analisar a tradução desde a perspectiva sociolinguística, o problema central é o dos textos marcados sociolinguisticamente pela presença de mais variedades de língua(s), que, por definição, são portadoras de significados sociais e, portanto, da tradução do significado social associado aos elementos (formas, palavras, etc.) de uma (variedade de) língua que o veiculam. (Rosa, 2017, p. 3695)

Vejamos, a seguir, entre outros aspectos, o tratamento dispensado às variedades linguísticas em Run for It.

5. A tradução de Cumbe no contexto de língua inglesa: De Cumbe a Run for It

O romance gráfico Cumbe foi traduzido e publicado, até o momento, nos seguintes países: Portugal -Cumbe, publicado pela Editora Polvo em 2015; França-Cumbe, publicado pela Editora Çá et Lá em 2016; Itália-Cumbe: La Ribellione Degli Schiavi Africani in Brasile Raccontata Con Gli Occhi Degli Oppressi, publicado pela Editora Becco Giallo em 2016; Áustria-Cumbe, publicado pela Editora Bahoe Books em 2017 e Estados Unidos-Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom, publicado pela Editora Fantagraphics Books em 2017. Como discutimos anteriormente, a tradução é um fato característico da cultura-meta (Toury, 1995), cujo produto final visa atender aos interesses de um público leitor específico ou outro leitor-modelo (Maingueneau, 2002). Assim, a tradução realizada por Andrea Rosenberg na edição estadunidense de Cumbe teve seu título traduzido completamente para o inglês, além de ter sido acrescentado um subtítulo na mesma língua: Run for It: Stories of Slaves Who Fought for Their Freedom. Essa escolha tradutória enfatiza a fuga dos escravizados, bem como a luta pela sua liberdade, aspectos que poderiam passar despercebidos aos leitores de língua inglesa caso tivesse sido mantido o título Cumbe. Ao mesmo tempo, a hegemonia do inglês se sobressai nessa estratégia editorial, que demonstra uma resistência ao que é “estrangeiro” na tradução. Retomamos aqui Lambert e Van Gorp (1985) quando destacam a relevância da complexa e dinâmica relação existente entre autor-texto-leitor-da-cultura-fonte e autor-texto-leitor-da cultura-meta e o que disso implica nas escolhas do tradutor que rejeita o termo “estrangeiro” Cumbe, tendo em vista as normas predominantes no contexto de recepção.

Para ampliar nossas análises sobre as questões referentes à tradução de Cumbe para a língua inglesa, em diálogo com os Estudos do Discurso e os edt, iniciamos nossas reflexões com o intuito de compreender de que modo Run for It tem sido recebido pelo público leitor. Desse modo, utilizamos o site da Amazon®, a maior empresa de comércio virtual do mundo; e o site Goodreads®, considerado a maior comunidade de amantes de livros do mundo. De uma perspectiva metodológica discursiva, compreender o contexto de produção da obra contribui para a análise dos enunciados e das estratégias usadas na tradução enquanto prática discursiva.

No site da Amazon®, Run for It recebeu 4,6 de 5 estrelas e teve três avaliações de clientes. A primeira, de Cinnamone, apenas afirma que o livro foi recebido em um ótimo período de tempo. Já a segunda, de Joseph M. Reninger, tem este título: “Difícil, mas um olhar importante para a escravidão” (tradução nossa)7. Nela, Joseph destaca os horrores da escravidão, ilustrando essa ideia com as cicatrizes existentes nas costas dos negros, resultantes das chicotadas que levavam dos capatazes, e com o fato de as escravizadas terem filhos gerados após terem sido estupradas por seus proprietários. Em suas palavras, “a humanidade dos escravos transparece mesmo na desumanidade de suas condições. Esse é um testemunho sério e infeliz, mas importante para a história” (tradução nossa)8. Quanto à terceira avaliação, intitulada “muito bom: desenhos simples e questões complexas” (tradução nossa)9, ela foi escrita por Rebeca K., que salienta a beleza dos desenhos de D’Salete e a temática da resistência negra à escravidão no Brasil. Rebeca conclui seu pensamento ao afirmar: “E, possivelmente, a maior rebelião que os escravos conseguiam (às vezes) vencer era manter um senso de valor de suas próprias vidas e das vidas de seus amados” (tradução nossa)10. Tanto na avaliação de Joseph quanto na de Rebeca percebemos a importância de Run for It para ressignificar imagens passivas e submissas dos escravizados no Brasil, muitas vezes presentes na literatura de nosso país, e atribuir a esse grupo historicamente marginalizado um senso de humanidade. No site Goodreads®, há 63 avaliações sobre as diferentes edições de Cumbe, publicadas em vários países. De modo geral, foram atribuídas 3,64 estrelas (entre cinco) para o livro. Entre as avaliações, que podem ser constituídas apenas de estrelas ou adicionadas de comentários, algumas foram feitas pelos leitores de Run for It. São os casos de Dan Clark, Kurt, Dakota Gordan e Maggie Gordon. Dan Clark evidencia a expressão artística de D’Salete e ressalta a seguinte peculiaridade do livro: “Há um elemento de celebração do desejo humano nas piores circunstâncias possíveis e a quantidade de beleza que pode surgir do menor gosto de vitória” (tradução nossa)11. Kurt, por sua vez, define Run for It como um romance gráfico de partir o coração, com suas quatro histórias em que almas correm (referência ao título em inglês) de diferentes formas. Além disso, de acordo com ele, “as ilustrações são sobressalentes assim como as vidas dos personagens, com linhas fortes que não podem ser quebradas, e se configuram de tal forma que o leitor se sinta frequentemente envolvido” (tradução nossa)12. Em contraposição às opiniões de Dan e de Kurt, Dakota Morgan descreve o livro como um pacote de ilustrações medíocres e narrativas mal acabadas. Em sua visão, ainda que se tratem de histórias importantes sobre os escravizados no Brasil, “Run for It poderia ter sido mais poderoso e ter ajudado mais leitores a entenderem o que realmente aconteceu no Brasil se a construção das narrativas fosse mais clara” (tradução nossa)13. Já Maggie Gordon ressalta o fato de Run for It realçar a crueldade a que eram submetidos os escravizados, mas também traz duas críticas ao livro: a primeira crítica expressa a imagem das mulheres nas narrativas, as quais, na opinião de Maggie, são mostradas como meras vítimas da violência, além de exercerem papéis secundários nas rebeliões e acabarem mortas no final da maioria das histórias. A segunda crítica de Maggie é em relação ao fato de as narrativas terem poucas páginas para esclarecer o que realmente ocorreu em cada uma delas. Apesar desses pontos negativos, Maggie encerra sua resenha de Run for It enfatizando que “essa é uma obra importante, com histórias poderosas” (tradução nossa)14. É importante destacar que fontes como as mencionadas aqui são importantes para a análise da tradução e da sua recepção na cultura-meta.

Começamos nossas análises do texto do livro com a metodologia de descrição e análise de traduções (Lambert e Van Gorp, 1985). A capa dura possui fundo azul e contém desenhos de três negros: dois deles, na parte superior, em movimento, com lanças em suas mãos, e o outro, na parte inferior, segurando um ramo de folhas/flores. Entre essas imagens está o título, com letras brancas, no centro da capa.

Figura 1

Capa de Run For It. Fonte: D’Salete, 2017

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Quanto à quarta capa, no topo, estão presentes dois comentários sobre a obra: um deles publicado no site de notícias The Huffington Post e outro na revista online de artes Hyperallergic. Neles, é destacada a expressão artística de Marcelo D’Salete: “A jornada gráfica e ousada de D’Salete revela que mesmo que a expressão artística possa não mudar o passado, ela pode certamente manifestá-lo por meio de uma luz nova, mais precisa e generativa” (tradução nossa)15 / “Embora Run for It esteja enraizado na realidade, suas ilustrações duras e seu realismo mágico incitam brilhantemente a imaginação poética” (tradução nossa)16.

Além disso, há um pequeno parágrafo que ressalta os fatos de o livro ter sido aclamado mundialmente e de que se trata de um romance gráfico que aborda a resistência negra à escravidão no Brasil, a partir da perspectiva dos africanos e seus descendentes. Também estão presentes elementos como uma citação de Allan da Rosa, retirada do prefácio, e o nome da editora Fantagraphics Books que, desde 1976, tem publicado obras dos maiores cartunistas do mundo. Na parte inferior central da quarta capa, há uma imagem de duas pessoas, que remete a Nana e Valu, em “Kalunga”.

Figura 2

Quarta capa de Run for It. Fonte: D’Salete, 2017

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Acerca dos demais paratextos, Run for It apresenta uma introdução de dois parágrafos, que contextualizam o enredo da obra e trazem a explicação do vocábulo “cumbe”, baseada no glossário presente no livro. Também há um prefácio -“The Sun Rises on Brazilian Bantu Culture” [“O sol se levanta na cultura banto brasileira”, em português]- que se constitui como uma tradução de partes do posfácio escrito por Allan da Rosa em Cumbe, além de glossário, bibliografia, uma foto e pequena biografia de D’Salete: “um aclamado cartunista brasileiro, ilustrador e professor. Ele tem mestrado em História da Arte pela Universidade de São Paulo” (tradução nossa)17.

Sobre os metatextos relativos a Run for It, no site da Fantagraphics Books, o livro é apresentado como vencedor do Prêmio Eisner em 2018, na categoria de melhor publicação estadunidense de material estrangeiro. É importante enfatizar que o Eisner é considerado o Oscar dos quadrinhos, portanto, é o maior evento de premiação do mundo nessa área. Soma-se a essa informação um texto de apresentação que define o livro como um dos primeiros esforços artístico-literários para desvelar a história encoberta da escravidão no contexto brasileiro e evidencia o fato de ele ter sido indicado para três dos mais prestigiados prêmios de quadrinhos do Brasil, país onde a obra de D’Salete foi publicada originalmente. Nesse mesmo site, há diversos comentários sobre Run for It veiculados pela mídia. Entre eles podem ser citados: “Run for It é uma obra de arte linda, brutal e profunda que assegura que o legado de homens e mulheres corajosos que se recusaram a renunciar à sua humanidade não desaparecerá” (tradução nossa)18 (Publishers Weekly) / “Estes contos brutais e trágicos, relatados através dos olhos das vítimas, dão contexto à luta constante pelas liberdades individuais em todo o mundo” (tradução nossa)19 (Library Journal).

Trata-se de críticas sobre Run for It que apontam para aspectos positivos e, por isso, dentro de um mecanismo de patronagem promovido pela Fantagraphics Books, contribuem para atrair pessoas a adquirirem a obra.

No nível macrotexual, a tradução mantém os mesmos títulos para as histórias: “Kalunga”, “Sumidouro”, “Cumbe” e “Malungo”, estratégia que se contrapõe àquela relativa ao título Run for It, já que nesse contexto o vocábulo “cumbe” foi substituído por um título e um subtítulo em inglês. A única diferença dos títulos das histórias em relação ao texto-fonte é o fato de “Kalunga” ter sido grafado com “k” e não com “c”. As estruturas narrativas, bem como a estrutura geral da tradução, incluindo os números das páginas, são praticamente as mesmas em comparação à edição brasileira, como se poderia esperar ao considerar a característica do gênero em questão.

Quanto ao nível microtextual, é importante enfatizar que, “nas novelas gráficas, o quadrinho de status literário, é mais comum encontrar estes elementos de material linguístico trabalhados de forma rebuscada, com inovações de linguajar e explorações tipográficas” (Assis, 2016, p. 27), que é o que acontece em Cumbe. No caso de Run for It, diferentemente do que ocorre no título, em geral, foram mantidas as palavras de origem banto, tais como “kalunga” (ideia de grandeza, imensidão), “nsanga” (planta fundamental para os povos bakongo e umbundo, utilizada para revigorar as forças) e “mocambo” (quilombo). Buscamos considerar em nossas análises microtextuais, além dos textos verbais, os não verbais, já que ambas as estruturas fazem parte do gênero romance gráfico que, como mencionamos anteriormente, trata-se de um gênero caracterizado pela multimodalidade.

Passemos à análise discursiva e comparativa de escolhas tradutórias no texto-meta em relação ao material verbal do texto-fonte, tendo em mente a ideia de que o tradutor deve fazer escolhas sobre o que e como irá traduzir (Tymoczko, 1999). A seleção dos excertos considerou mudanças que, de modo mais direto, modificam a produção de sentidos construída na relação imagem-texto.

Fragmentos de “Kalunga”:

O capataz chama a atenção do escravizado Valu:

Figuras 3 e 4

Run for It / Cumbe. Fonte:D’ Salete, 2017, p. 17 / D’ Salete, 2014, p. 17

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Do ponto de vista do discurso racial que se materializa em Cumbe, entendemos que a escolha da expressão “Black boy” no lugar do termo “negro”, em português, implica um processo de amenização na tradução, visto que “Black boy” apaga sentidos de desqualificação e menosprezo do termo “negro” ao ser utilizado por um homem branco, capataz, no âmbito do sistema escravocrata, quando este se refere a um escravizado. Amenização que talvez não ocorresse se o contexto histórico tivesse sido levado em conta, como propõe Tymoczko (1999). A amenização da tradução propicia uma certa neutralização de efeitos discursivos mais polêmicos e modifica a relação entre as personagens, principalmente se consideramos que o leitor da língua-meta vive em um país que também passou por um período de escravização de negros africanos que deixou tensões raciais que permanecem até hoje naquela sociedade.

Nana recebe conselhos de uma escravizada mais velha:

Figuras 5 e 6

Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 24 / D’ Salete, 2014, p. 24

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Nesse caso, a amenização do texto original se mantém, a palavra “Blacks” foi novamente utilizada como tradução para “negro”, quando haveria a possibilidade do uso do termo “Negro”, uma vez que, conforme Richard B. Moore, nos países euro-coloniais, a palavra “Negro” tinha um significado específico que transcendia a uma mera questão de cor ou pele. Dizer “Ele é negro” era dizer “Ele é um escravo”. Ou seja, visto que como quase todos os escravos em certos países e épocas eram “negros”, “Negro” passou a ser sinônimo de escravo (Moore, 1972).

Além disso, o vocábulo “lambá” (trabalho duro), de origem banto, foi substituído por “working in the fields” (“que trabalham no campo”, em português). Apaga-se, assim, o efeito discursivo da intensidade do trabalho executado pelos negros escravizados na tradução e apenas ressalta-se o local em que os mesmos exerciam as atividades a que eram submetidos. Ainda que o texto seja ficcional, tal mudança impacta no modo como a linguagem intervém construindo versões de mundo (Rocha, 2014).

c) Valu vai ao encontro de Tata, que lhe pergunta:

Figuras 7 e 8

Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 29 / D’ Salete, 2014, p. 29

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Essa vinheta aparece após Valu supostamente ter matado Nana com uma faca. Ele corre até o local onde está Tata e pede a ele que abra a porta. Ao ver Valu, Tata se preocupa, porque era fugitivo, e pergunta sobre o sangue, que provavelmente se fazia visível em seu corpo. Na tradução em Run for It, essa questão é completamente retirada: a pergunta de Tata se resume a “What are you so worked up about, Valu?” [“Com o que você está tão preocupado, Valu?”, em português]. O plano visual apenas sugere que Valu tenha esfaqueado Nana para que pudessem alcançar o Calunga, uma vez que as escolhas estéticas do autor no traçado em preto e branco e a própria seleção do que aparece ou não no quadro não mostram o ato ou o sangue derivado dele, sendo o texto verbal imprescindível para que o coenunciador identificasse a presença do sangue. Indiscutivelmente, a escolha tradutória intervém no andamento da narrativa reduzindo significativamente seu impacto narrativo, revelando atitudes ideológicas (Tymoczko, 2007) distintas entre o texto-fonte e o texto-meta, que possivelmente se explicam pelo sistema de patronagem, remetendo ao já extinto Comic Code, discutido anteriormente.

Após o sumiço de Valu, um homem diz para o outro:

Figuras 9 e 10

Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 30 / D’ Salete, 2014, p. 30

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Mais uma vez, suaviza-se a questão racial na tradução, quando se substitui “negro” pelo pronome “him” [“ele”, em português], pois há uma diferenciação entre o uso do substantivo e o do pronome. O primeiro atua como designação que aponta para determinados sentidos construídos discursivamente na cultura, funcionando como um elemento constitutivo da semântica global (Maingueneau. 2008) do discurso racista: o vocabulário. Já o segundo atua apenas como elemento de coesão interna ao discurso, deixando para o coenunciador o trabalho de recuperar seu referente. Desse modo, a opção pelo pronome indetermina a referência a quem está sendo caçado, o negro, escravizado, animalizado.

Fragmentos de “Sumidouro”:

Calu canta para o filho com o Sr. Tomé, logo após o seu nascimento:

Figuras 11 e 12

Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 62 / D’ Salete, 2014, p. 62

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Em Run for It, a letra da canção foi mantida em português, ou melhor, uma variante linguística que mescla elementos do português com outros de línguas africanas como kikongo e kimbundu, usada pelos escravizados, como estratégia comunicativa de resistência. Foram também acrescentados símbolos musicais para facilitar o entendimento do leitor quanto ao gênero presente nos balões de fala das cenas em questão, além de uma nota de rodapé contendo uma tradução das seguintes partes da letra da canção: “Ô minino mané no uandá” e “Ô mané piquinino no uandá”, bem como a indicação de que o leitor verifique no glossário da obra o vocábulo “vissungo”: “‘The child mane in the hammock’/ ‘Little mane in the hammock’ (see vissungo entry in glossary)”. Vissungo era um canto de trabalho usado pelos negros escravizados para se comunicarem sem serem compreendidos pelos brancos. De modo geral, as escolhas tradutórias aqui visam, a nosso ver, didatizar o processo de leitura, no sentido de favorecer um letramento das questões raciais ao encaminhar o leitor para uma expansão de seu repertório e propiciar uma compreensão da arte sequencial a partir de um uso específico do glossário. Neste excerto, materializa-se discursivamente a afirmação de Tymoczko (1999) de que a carga de informações linguísticas, históricas e culturais é grande em textos provenientes de culturas marginalizadas.

Fragmentos de “Cumbe”:

Um grupo de escravizados planeja uma rebelião:

Figuras 13 e 14

Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 91 / D’ Salete, 2014, p. 91

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Na tradução, a mudança de “Vocês devem se encontrar aqui na tartaruga” por “Everybody should meet here” implica algumas considerações: em primeiro lugar, a substituição do pronome “vocês”-segunda pessoa no discurso- por “everybody” (todo mundo) -terceira pessoa no discurso- elimina uma referência direta às pessoas que estão na imagem. Além disso, a supressão do termo “tartaruga” exclui um registro feito no texto original a um símbolo ancestral do povo cabinda, relativo a uma província em Angola, apresentado iconicamente em detalhes nas vinhetas anteriores. Segundo o glossário do livro, “tartaruga” é um “símbolo de resistência, por sua carapaça, emblema de defesa, e por levar a própria casa nas costas, simboliza a independência e a capacidade de adaptação” (D’Salete, 2014, p. 173). Por conseguinte, em Run for It, ainda que mantido no glossário, no texto da narrativa sequencial está ausente o vocábulo “tartaruga”, constitutivo da semântica global (Maingueneau, 2008) a que o texto de D’Salete remete e simbolicamente relevante para o movimento de resistência dos negros ao sistema de escravidão; o que termina por prejudicar a remissão ao contexto cultural recuperado na obra (Tymoczko,1999). Nesse caso, o que havíamos denominado didatização se dá de forma distinta do que ocorre no excerto anterior (Figura 11), simplificando o trabalho de leitura, em vez de expandir o repertório do leitor por meio da compreensão da designação e a remissão desse leitor ao glossário, por meio de nota explicativa.

Fragmentos de “Malungo”:

a) Um grupo de escravizados decide atacar uma fazenda e Damião insiste em participar do ataque:

Figuras 15 e 16

Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 137-138 / D’ Salete, 2014, p. 137-138

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Na tradução, há o acréscimo da fala “I need…”/ “...to go back”, em balões que tipicamente são usados para marcar a voz do narrador, mas que pode ser atribuída a Damião, na qual o personagem afirma que precisava voltar à antiga fazenda onde fora escravizado, junto com sua irmã Ciça. Segundo Kaindl, no contexto da tradução de quadrinhos essa estratégia é denominada “adiectio (acréscimo de material linguístico ou pictórico ao discurso de chegada)” (tradução nossa)20. No caso acima, novamente, há uma preocupação com a didatização da leitura do texto-meta no processo tradutório, ao oferecer pistas verbais ao leitor para a construção dos sentidos onde no texto-fonte, em sua primeira versão, só havia informação visual. Aqui, o que chamamos didatização opera sobre o gênero discursivo e não sobre elementos linguísticos ou culturais, o que, a nosso ver, se choca com o leitor-modelo (Maingueneau, 2002) de romances gráficos, um coenunciador que, acostumando à densidade e complexidade do gênero, possui uma competência discursiva para construir sentidos a partir da linguagem visual dos quadrinhos21.

b) Reação do capataz quando Damião disse que sua irmã Ciça não iria trabalhar, por ser pequena e estar doente:

Figuras 17 e 18

Run for It / Cumbe. Fonte: D’ Salete, 2017, p. 144 / D’ Salete, 2014, p. 144

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Novamente o texto nos dois livros sequer se aproxima. Em Run for It, o personagem em questão diz: “If it’s not one thing, it’s another”. Ao passo que, no texto-fonte, sua fala reforça que em sua fazenda “todo negro trabalha”, fala que pressupõe discursivamente que em outros lugares há negros que não trabalham ou que não querem trabalhar, além da existência de uma coerção para que esse trabalho seja realizado. Ou seja, na tradução foi apagado o discurso de subjugação, do controle dos negros pelos brancos, detentores de poder, o que é denunciado por D’Salete (2014). Em nosso ponto de vista, novamente há uma amenização do processo de exploração e submissão dos negros, inerente ao colonialismo. Conforme o contexto e os leitores do texto-meta (Tymoczko, 1999), também é relevante o fato de o texto traduzido não dialogar minimamente com o texto-fonte, oferecendo ao leitor outras pistas para a construção de sentidos que se distanciam do que se apresenta na edição brasileira.

c) Reação do feitor quando Damião volta à fazenda de onde havia escapado:

Figuras 19 e 20

Run for It / Cumbe . Fonte: D’ Salete, 2017, p. 152 / D’ Salete, 2014, p. 152

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Nesse caso, na tradução foi omitido o trecho “negro atrevido” e, em seu lugar, foi colocada a expressão “What nerve! ”. Pela similaridade da extensão textual do enunciado nas duas línguas não se pode atribuir a mudança à questão da letreirização. Portanto, além do tratamento direto ter sido eliminado, do sujeito ter sido substituído por um pronome que o indetermina; a questão racial, evidenciada na fala do feitor por meio da inferiorização do negro que se atreveu a voltar à fazenda de onde havia fugido, é deixada de lado em Run for It. Novamente, temos o apagamento de uma designação constitutiva da semântica global (Maingueneau, 2008) do discurso racista ao qual se opõe Cumbe, ao expor explicitamente os maus tratos físicos e simbólicos a que estavam submetidos os negros escravizados pelos brancos colonizadores.

Tecemos agora algumas considerações do que observamos até aqui. Run for It se encontra em um contexto sistêmico no qual é dado destaque para a estética do trabalho de Marcelo D’Salete, em cuja biografia ressaltam-se os fatos de ele ser um ilustrador aclamado e de ter o título de mestre em História da Arte pela Universidade de São Paulo. Além disso, é construída uma imagem de sua obra que atenua o processo de violência na escravização de africanos no período colonial brasileiro, diferentemente do que ocorre no texto-fonte. Tal imagem, em nossa visão, pode ser reflexo do momento político atual, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, em que pensamentos e movimentos antirracistas, contra hegemônicos e decoloniais vêm sendo suprimidos pela imposição de um mecanismo de poder que reforça a supremacia branca, racista e colonialista.

Nossas afirmações dialogam com Toury (1995), para quem a obra traduzida, no contexto de recepção, pode não ter uma posição análoga à do texto de partida no sistema de origem. E isso não significa uma deformidade. Trata-se, apenas, da representação de um autor e de sua produção que esteja de acordo com os valores dominantes no sistema de chegada em dado momento histórico e que atenda a determinados interesses domésticos. Dialogam também com as propostas de Tymoczko (1999), no sentido de que o tradutor, diante dos desafios relativos a questões linguísticas e culturais em um texto a ser traduzido, precisa tomar decisões, o que irá gerar perdas e ganhos na tradução.

6. Considerações finais

Neste artigo, buscamos desenvolver uma análise abrangente do contexto de tradução e publicação de Run for It, edição do romance gráfico brasileiro Cumbe, de Marcelo D’Salete, em inglês. Para tanto, consideramos as relações entre linguagem, tradução e questões étnico-raciais e, como pesquisadores nas áreas de Tradução, Linguística Aplicada e Psicologia Social, propusemos um trabalho interdisciplinar a partir do diálogo dos estudos descritivos da tradução com outros campos de estudo, tais como os estudos culturais e os estudos do discurso.

Ao considerar que se faz necessária uma contextualização de cada fenômeno tradutório, visto como um fato característico da cultura-meta (Toury, 1995), e conforme a metodologia de análise de traduções proposta por Lambert e Van Gorp (1985), observamos que, a começar pelo seu título Run for It, a obra traduzida buscou trazer o texto até o leitor de língua inglesa, ou seja, fez questão de deixar o leitor confortável ao evitar qualquer estranhamento em relação ao uso de termos em outras línguas. Esse dado reforça a hegemonia do inglês e a resistência ao que é diferente, estrangeiro. Ainda assim, só o fato de Cumbe ter sido selecionado pela Fantagraphics Books para ser traduzido já é um dado relevante, especialmente por se tratar de um gênero discursivo que geralmente tem um público leitor específico e por abordar a temática racial a partir de uma perspectiva de resistência negra.

No que diz respeito aos paratextos da edição estadunidense, verificamos que há algumas diferenças em relação à publicação brasileira: a capa é dura, as imagens de capa e quarta capa são distintas, na quarta capa há dois comentários veiculados pela mídia que destacam a qualidade estética do trabalho de D’Salete e um pequeno texto que descreve Run for It como uma obra aclamada. Além disso, há uma introdução, um prefácio que é parte do posfácio presente em Cumbe e uma biografia acompanhada da foto do autor, considerado um prestigiado ilustrador. É importante reiterar que essas distinções não são um defeito, mas sim resultantes de uma ideologia referente ao polo receptor, o qual irá determinar que textos serão escolhidos para serem traduzidos, a função que a tradução irá exercer naquele contexto sociocultural e as estratégias que o tradutor irá utilizar.

Quanto a esse último ponto, Cumbe é um romance gráfico e, por esse motivo, marcado pela multimodalidade. Como mencionamos, os espaços relativos aos balões nesse gênero discursivo foram criados com base no texto-fonte. Soma-se a esse desafio de tradução o fato de a temática do livro fazer parte de uma cultura ainda marginalizada o que, segundo Tymoczko (2010), incita o tradutor a inserir comentários ou escolher o que irá traduzir. No caso de Run for It, a tradutora utilizou as duas estratégias de três modos diversos, produzindo diferentes formas do que denominamos didatização: a) adicionou nota de rodapé com explicações que remetem ao glossário da obra de modo a favorecer o letramento das questões raciais no Brasil colonial ao leitor do texto-meta; b) apagou e substituiu termos, suavizou a opressão racial imposta aos escravizados, retratada na obra de D’Salete; e c) acrescentou textos verbais inexistentes na edição brasileira, conduzindo a uma única possibilidade de leitura do texto não verbal. Por conseguinte, assumem especial relevo as frequentes modalizações na linguagem empregada na tradução do material de Cumbe para a língua inglesa porque, dada a sua característica discursiva, não seria de se esperar, em se tratando de um romance gráfico, um controle tão efetivo para tentar atenuar o texto original.

Esse cenário ressalta a não existência de neutralidade na tradução (Bassnett e Lefevere, 1990), bem como seu caráter metonímico. Como uma forma de representação em que determinados aspectos do texto-fonte foram conservados, enquanto outros foram descartados, Run for It foi construído para atender a interesses específicos da cultura de chegada, sejam esses interesses editoriais, econômicos e/ou ideológicos, que ficam marcados discursivamente na materialidade do texto, não ocupando, desse modo, uma posição análoga a Cumbe no Brasil.

Esperamos que as reflexões apresentadas neste artigo contribuam para os Estudos da Tradução, em diálogo com outros campos de pesquisa, não só no que diz respeito à diversidade cultural e à análise de gêneros discursivos multimodais, como também no que se refere a obras advindas de contextos não-hegemônicos, principalmente as que abordem temas relevantes para a construção de uma sociedade antirracista e anticolonialista. Por fim, gostaríamos de destacar que nosso grupo de pesquisadores tem realizado investigações sobre Cumbe há algum tempo, resultando na escrita de textos e apresentação de comunicações em congressos, e que, como formas de desdobramento do presente artigo, estamos desenvolvendo pesquisas sobre a tradução da obra para outras línguas, tais como o italiano e o francês.

Referências

Amazon®. (s. d.). Run for It: Stories of Slaves Who Fought For Their Freedom. Disponível em: Disponível em: https://www.amazon.com/Run-Stories-Slaves-Fought-Freedom/dp/1683960491/ref=cm_cr_arp_d_product_top?ie=utf8 . Acesso em: 15/01/2018.

Amazon® Run for It: Stories of Slaves Who Fought For Their FreedomDisponível em: https://www.amazon.com/Run-Stories-Slaves-Fought-Freedom/dp/1683960491/ref=cm_cr_arp_d_product_top?ie=utf8 2018

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[1] Abbreviation Silva, L. de M., de Almeida, F. S., Giorgi, M. C. y Castro, A. de C. (2019). De Cumbe a Run for It: tradução e questões étnico-raciais. Mutatis Mutandis. Revista Latinoamericana de Traducción, 12(2), 406-432. doi: 10.27533/udea.mut.v12n2a04

[2]Este artigo é produto de discussões do Grupo de Pesquisa do diretório do cnpq “Práticas discursivas na produção de identidades sociais: Fatores humanos, organizações, trabalho, tecnologia e sociedade”, no cefet/rj, liderado pelos professores Alexandre de Carvalho Castro e Maria Cristina Giorgi. Uma primeira versão desta pesquisa foi apresentada no congresso da Latin American Studies Association (lasa), em Barcelona, em 2018.

[3]Versão em inglês: “[…] like all (re)writings [translation] is never innocent. There is always a context in which the translation takes place, always a history from which a text emerges and to which a text is transposed.” (Bassnett e Lefevere, 1990, p. 11)

[4]Versão em inglês: “[…] the identity and affiliations of the author, the identity and affiliations of the translator, the connections of the translator with social and political movements, the reception context (such as reviews, censorship, legal action) of translation.” (Tymoczko, 2010, p. 233)

[5]Versão em inglês: “[…] certain aspects or attributes of the source text come to represent the entire source text in translation. By definition, therefore, translation is metonymic.” (Tymoczko, 1999, p. 55)

[6]Entendemos gêneros discursivos pela perspectiva bakhtiniana, para quem esses constituem: “tipos relativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin, 2000, p. 279) que se relacionam à utilização da língua em diferentes esferas da atividade humana. Conforme o autor, “o enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua —recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais—, mas também, e sobretudo por sua construção composicional” (Bakhtin, 2000, p. 279).

[7]“Por exigências contratuais, por pressão de leitores e críticos com acesso à publicação original, por prejuízo ao ritmo de produção (arquitetado acima de tudo para alterações apenas no material linguístico), entre outros motivos.” (Assis, 2016, p. 17).

[8]Versão em inglês: “Tough but important look at slavery.” (Amazon®, 2019)

[9]Versão em inglês: “the humanity of the slaves shines through even in the inhumanity of their conditions. This is a serious and unhappy but important testimony to history.” (Amazon®, 2019)

[10]Versão em inglês: “very good: simple drawings and complex issues.” (Amazon®, 2019)

[11]Versão em inglês: “And possibly the greatest rebellion that the slaves managed to (sometimes) win, was to maintain a sense of worth to their own lives and the lives of their loved ones.” (Amazon®, 2019)

[12]Versão em inglês: “There is an element of celebration of the human will in the worse possible circumstances and the amount of beauty that can come from the smallest taste of victory.” (Amazon®, 2019)

[13]Versão em inglês: “The illustrations are spare like the characters lives, with thick lines that cannot be broken and set up in such a way that the reader often feels encircled.” (Amazon®, 2019)

[14]Versão em inglês: “Run For It could have been more powerful and helped more readers understand what truly happened in Brazil if the storytelling was more clear.” (Amazon®, 2019)

[15]Versão em inglês: “This is an important piece with powerful stories.” (Amazon®, 2019)

[16]Versão em inglês: “D’Salete’s bold and graphic journey reveals that even if artistic expression can’t change the past, it can certainly convey it in a new, more accurate and generative light.” (D’Salete, 2017, quarta capa)

[17]Versão em inglês: “Though Run for It is rooted in fact, its stark illustrations and magical realism vividly provoke the poetic imagination.” (D’Salete, 2017, quarta capa)

[18]Versão em inglês: “an acclaimed Brazilian cartoonist, illustrator, and teacher. He has a master’s degree in art history from University of São Paulo.” (D’Salete, 2017, p. 175)

[19]Versão em inglês: “Run for It is a beautiful, brutal, and profound work of art that ensures that the legacy of brave men and women who refused to relinquish their humanity will not disappear.” (Fantagraphics Books, 2019)

[20]Versão em inglês: “These brutal and tragic tales, reported through the eyes of the victims, lend context to the ongoing fight for individual liberties worldwide.” (Fantagraphics Books, 2019)

[21] Versão em inglês: “adiectio (adding a linguistic or pictorial material to the target discourse).” (Kaindl 1999, p. 275)

[22]Na versão de Cumbe de 2018, publicada após a tradução em inglês, essas informações verbais foram acrescidas ao romance gráfico em português, invertendo assim as relações entre texto-fonte e texto-meta, nas quais a tradução passa também a influenciar o texto do qual se originou.


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